25 de dez de 2010

Nature.


A caminhada não era longa, nem tampouco nova, mas havia alguma coisa estranha. Pressentimentos. O garoto caminhava a passos lentos sobre blocos de concreto bem encaixados uns entre os outros, e a coisa mais legal que conseguia fazer era coordenar as passadas e tentar não pisar nas linhas e rachaduras proeminentes do tempo. Suas feições mantinham-se da mesma forma, enquanto, sobre si, um céu cinza-pálido possibilitava a previsão de chuva.


Incisiva e delicada, a borboleta pousava e despousava na orelha do garoto, fazendo-o abanar o braço vigorosamente de tempos em tempos, mesmo assim sem olhar para o lado. Quando finalmente olhou para sua direita, um novo mundo se abriu diante de sua retina, bem debaixo do seu nariz.


Reparou, estarrecido, em cada detalhe daquela natureza particular que se lhe abria no meio daquele pântano de cimento sujo e sem-graça. Sua visão perscrutava cada canto, cada cheiro e cada cor. De primeiro pano, uma pequena goiabeira se entrecortava contra o lago imenso ao fundo. Ao lado da goiabeira, a vista do garoto pegava apenas o tronco de uma palmeira nem tão grande, mas que se curvava ao centro do lago, sem cair. A grama era muito verde ao redor do lago, e estava levemente úmida. Um pequeno dente-de-leão brotava tímido perto dos pés, agora já descalços, do garoto. Não tinha como, ele já havia se misturado. Um besouro lutava contra a gravidade tentando escalar aqueles pés.


Lá, bem adiante, no meio do lago, dois pássaros mergulhavam de tempos em tempos, mas não bicavam nada. Apenas se refrescavam, e era possível ao rapaz ouvir-lhes os sorrisos em forma de canto. En-canto.


Ao redor do lago, árvores e flores fechavam o ambiente, tornando-o uma ilha à parte do mundo cinza que os abraçava. E o garoto ficou ali, não sabe quanto tempo, nem quantos dias, nem meses. Soube apenas, ao sair, que tinha sido agraciado com os olhos da inversão.


Ao invés de ver prédios onde havia matas - comum olhar do ser humano moderno; ele via, onde havia prédios, abastados e carregados pés de jabuticaba.



Thuan B. Carvalho

2 de dez de 2010

Wall Exchange


É tão estranho. Eu achei que estava pronto. Mas não, você é mais diferente da parede do meu quarto do que eu imaginava.



Hoje mais cedo eu ensaiei essa conversa, e, tenho certeza, com todos os pingos nos “i”s e cortes nos “t”s. Como sua reação pode ter sido tão diferente? A parede do meu quarto continuou cinza, dura, fria e silenciosa ao me ouvir; enquanto você ficou vermelha, mole, quente e emitiu sons, que ecoam até agora no labirinto de meus ouvidos. Você gritou comigo, jogou seu sentimento na minha cara, e me disse para crescer. É claro que eu não esperava! Você queria o que? Ensaiei milhões de vezes, e tudo o que recebi em resposta foi o vazio. Você era mais tranqüila quando feita de concreto. Quando foi que você se derreteu? Você é mais pesada agora em minha consciência do que a parede que cerca meu quarto. Como você pôde reverter a situação em um instante, e me fazer chafurdar nos argumentos que eu mesmo expus? E você me explicou. E me mandou implantar um coração na parede do meu quarto antes de discutir qualquer coisa com ela. E eu entendi. Entendi que um coração muda tudo, que onde há um coração, há reações as mais obtusas, as mais inesperadas, as mais surpreendentes. E através de suas palavras, de meu orgulho que me cega, de meus argumentos infundados, foi que eu vi que eu sou frio, duro, incolor, vazio, silencioso.



É tão estranho. Eu achei que estava pronto. Mas não, eu sou mais parecido com a parede do meu quarto do que eu imaginava.



Thuan Bigonha de Carvalho

30 de nov de 2010

Crise de Inconsciência


Na verdade eu não sou. Não existe quem sou eu. Me encontro no intervalo vago entre um suspiro e outro de meu próprio coração. Estou entre as batidas salpicadas de amor. No lapso temporal TUM - TUM. E ali estou eu. Sou o que não posso ser, sou a parte ruim, o lado negro. Sou a parte de mim que te assustaria, se você soubesse que existe, claro. Sou suprimido. Sufocado. Costumo não ser exprimido por nem uma hora sequer do dia. Mas há dias em que apareço. E nesses dias, ah nesses dias! Sou o veneno mais colorido. A picada que mais fere. Sou a noite da sexta-feira 13. O eclipse de meu próprio coração. Para que você tenha noção de quão perigoso é o chão onde agora você pisa, prendi sua atenção por dois preciosos minutos tentando explicar quem eu sou, sendo que na verdade, na verdade que mais chega perto de mim - uma contradição de uma inverdade mais do que clara -, não sou.

Thuan Bigonha de Carvalho

26 de nov de 2010

Vem.


Vem, vem ver a felicidade da janela

Vem, não demora.

Vem, receber esse sopro de primavera

Não a deixe ir embora



Vem, vem correndo ao encontro dessa paz

Vem, tá na hora.

Vem, que ela à nossa negligência se desfaz

Não a deixe ir embora



Vem, vem depressa te aquecer em sentimento

Vem, não chora.

Vem, encontrar na felicidade um acalento

Não a deixe ir embora


Vem, vem comigo trançar este caminho

Vem, é agora.

Vem, que eu não quero ser feliz sozinho

Não me deixe ir embora.



Thuan B. Carvalho

25 de nov de 2010

Existe vida após o amor?

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Sentou-se no sofá, como quem descansa. Acabara de chegar do trabalho, abriu uma “longneck” bem gelada, e agora conferia as mensagens na secretária eletrônica, enquanto ligava a televisão para assistir ao jornal. Apertou então o botão verde, descontraído, para ouvir a primeira das mensagens.

“amor, infelizmente...”

Sobressaltou-se imediatamente, apertando o botão que cancelava a mensagem. “A voz dela novamente?” pensou. Olhou para todos os lados no apartamento. Seria possível? Por onde quer que fosse, ouvia aquela voz, e aquela mesma frase. Cancelou então todas as mensagens.

“Você deseja excluir todas as cinco mensagens?”

Sim! Sim! Era a resposta dele. Acomodou-se novamente na poltrona, relaxado. E de repente...

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Não! Ele não desejava. Não entendeu como aquilo era possível. Apertou então o botão novamente, para ouvir, resolvendo enfrentar seu medo mais temido: a perda.

“amor, infelizmente não posso mais ficar. Percebi, nesse tempo todo, que nossos caminhos se cruzaram mas não continuarão juntos. Somos tão diferentes quanto o sol e a lua, quanto o dia e a noite. Espero ter feito tudo certo no dia de hoje, porque tentei. Tentei fazer com que nosso último dia juntos fosse realmente bom para você. Bom, mas não inesquecível, porque na verdade, eu quero que você esqueça. Não queria ter que dizer isso, mas amanhã...”

E ele não agüentou mais. Apertou o botão que cancelava a mensagem com muita força, correu pelo apartamento, ergueu o vidro da janela, e pulou. Se aquilo era realmente verdade, não tinha mais objetivo continuar ali, respirando. E flutuou por muito tempo. Tempo até demais. Começou a se indagar, enquanto caía, sobre a realidade daquilo tudo. E num baque surdo, que deveria ser sua caída, pulou sobre os lençóis, ávido e desesperado, com o suor frio inundando-lhe os poros. Olhou para o lado, e o que viu confirmou suas expectativas. Aquele pedaço de carta borrado de lágrimas continuava ali, intacto, deitado no travesseiro onde antes estaria a cabeça dela, e gritando suas últimas palavras legíveis dentro da mente dele: “não volto mais”. Apertava-o com muita força, quando ouviu o despertador. Oito da manhã. Hora de se levantar.

Arrumou sua cama, chorou silenciosamente, tomou um banho demorado, releu a carta, tomou um café reforçado, lamentou a partida dela, trocou de roupa, rasgou pedaços das cartas que nunca havia entregado, pegou a chave do carro e, antes de sair, lacrou seus sentimentos todos em casa. Claro, não podia expressá-los no quotidiano, na vida que todos julgavam normal.

E, afinal, fazia isso há treze anos.

 

Thuan B. Carvalho

9 de nov de 2010

E se fosse?


Não.

Hoje não falarei de sentimento

Nem da dor, nem do amor ou sofrimento

Içarei simplesmente letras ao vento

E hei de trovar o dia - impaciente e lento

É.

Descreverei assim o Romeu das telas

Encarnarei Pierrot e suas donzelas

E no final, por pena, quem sabe elas

Como Geni, hão de amar minhas mazelas

Sim!

Vou cantar aquela música do Aladin

Mas para a flor - e não mulher - Jasmin

Vou aos céus, convidar o Querubim

Para ver o pôr-do-sol perto de mim

Há.

Vou ao rio me benzer e me banhar

Ver São Jorge e o dragão a duelar

E nesse banho, que é de rio e de luar

Vou ver fundir-se em raiz meu calcanhar

Pronto.

Não vou tocar nesses assuntos delicados

Só quero o cheiro da bromélia - quente e doce

Queria eu vê-los fundidos, transformados

Sei que flor não é amor, mas e se fosse?



Thuan B. Carvalho

5 de nov de 2010

02/11


- Olá senhor. Por que choras?

- A perda foi grande. Desculpe-me a pomposidade, mas sou sentimental de nascença.

- Não vejo males nos sentimentais, vejo mal na tristeza que te ronda.

- E haveria de ser de outro jeito? É dia de celebrar os mortos.

- É certo que não, mas há o outro lado.

- Que outro lado?

- O outro. Há sempre dois lados. O difícil é enxergar ambos. Hoje é o dia dos mortos, então lamentamos as mortes. Ou. Comemoramos a vida. Entende? Ou seja, no dia dos mortos você comemora o fato de estar vivo, e nos outros 364 dias do ano, é dia do vivo!

- Entendo, mas pensando assim, os dias seriam todos felizes...

- Exato.

- Sempre sorrindo, sempre alegre.

- Sim.

- E não haveria um diazinho sequer para sofrer?

- Não senhor ....


Mas que mal lhe pergunte, PARA QUE VOCÊ QUER SOFRER?

...



Thuan B. Carvalho

15 de out de 2010

São “o que” e “quem”?


Parou, pensou duas vezes, e então caminhou nem tão decidida quanto queria, os pequenos pés descalços trançando incertos sobre os paralelepípedos daquela rua sem saída. Erguia-se imponente diante de Madaleine uma casa de três andares, que a cobria temerariamente com sua sombra. Tocou a campainha apenas uma vez, sendo imediatamente recebida por uma moça de aparentemente 23 anos, que parecia estar saindo de casa naquele exato momento. A moça olhou Madaleine de cima a baixo, e disparou com uma voz doce: “olá menininha. O que posso fazer por você?” “bom, é que hoje é dia de São Cosme e Damião”, respondeu a menina, não sabendo como as palavras saíam de sua boca, tamanha era sua timidez. “eu queria saber se vocês estão dando docinhos aí... eu ainda não peguei.” Ao ouvir aquilo, a primeira sensação de Kate foi choque. Como não havia se lembrado do dia? Como não ouvira sequer falar? Sem sair do lugar, o choque deu lugar a uma onda de pensamentos que a sugou para um passado distante, onde uma multidão corria - mais parecendo uma revolução infantil - em busca das casas que davam mais doces - porque todas davam! E toda a cidade parava para ver a alegria nos olhos daqueles garotos que saíam cheios de si, e cheios de doces.


Kate retornou de seus devaneios e encontrou os olhos cansados de Madeleine, que pareciam já esperar pela resposta negativa. Inesperadamente, a moça foi tomada por uma alegria insuportável, e decidiu-se. Entrou em casa novamente, pegou em sua carteira a nota mais alta que havia, tomou a pequena criança pelas mãos e a levou à mercearia, onde “torrou” tudo em balas, doces, chicletes, pirulitos. Juntou tudo numa sacola e entregou à Madaleine, que não cabia em si de alegria. “Tome, é tudo seu. Só quero um abraço como retribuição”; e assim, recebeu o mais gostoso dos abraços, como fazia tempos não recebia. E aquilo lhe valeu o dia.


Enquanto acompanhava Madaleine, que voltava para casa saltitando com sua sacola cheia de doces, Kate pensou:


“Extinguiam-se paulatinamente os jogos de peão, as brincadeiras de queimada, de bandeirinha, as voltas de bicicleta, a praça, o kinder-ovo, a bala chita, os piqueniques, o pique-esconde, a bola de gude, a bola de meia, a manga furtada, o polícia-ladrão, a areia nos pés, os pés descalços, a roupa de ontem, a brincadeira de hoje, a travessura de amanhã; extinguia-se lentamente sua infância."


E como se não bastasse, levavam-lhe também o dia de Cosme e Damião.



~ Thuan B. Carvalho

1 de out de 2010

Ouro Preto:


Idade que ensina

Luzes que cegam

Poço de alto-astral

Riqueza sobre riqueza que faz de mim

- borrão dessa noite fria -

Apenas um referencial



Donde haverás de ser eternamente admirada, cidade formosa;

Pedra sobre pedra, prosa sobre prosa.



Thuan B. Carvalho

16 de set de 2010

regnad, noisop.

É cedo e meu coração explode veneno

Cada veia pulsa epilética

Trazendo um gosto amargo do meu corpo

E cada artéria deixa, extasiada, meu coração

Carregadas da sinfonia sádica que de lá soa

“Amor bandido cachorro trem!”

Meu coração é bandido, ele às vezes se cala

E deixa minha mente resolver a situação

É isso o que me faz chegar mais cedo em casa

E não despertar você de um sonho bom

Pra dizer contrariado que estou sofrendo de amor

“Que o teu afeto me afetou é fato agora faça-me o favor!”

Não posso dizer que estou escrevendo

Na verdade essas letras são puras peçonhas

Invadindo o coração de cada qual quem as lê

E dividindo as toxinas que entorpecem meu corpo

Roto; barulhento; insalubre; árduo, arde.

“É ferida que dói e não se sente”?

Tomara que eu não esteja errado

Por agir assim, tão doador universal

Poupando sempre você das próprias faltas

Que eu nem sei se realmente as são

Mas devem ser senão por que me fariam mal?

É que eu não quero fazer de você a toalha

Que vai enxugar essas lágrimas tóxicas

Que você mesmo derrama através de meus olhos

Passo a tentar enxugar tais lágrimas com poesia

Mas elas corroem minhas palavras, lentamente

E deixo você ver amanhecer o dia

Na companhia dos lençóis, somente.

Thuan B. Carvalho

13 de set de 2010

Prólogo da Guerra



Os sinos já badalam, chega a hora

De provar para os antigos a coragem

E aqueles que o medo da morte já devora

E aqueles cujo peito ainda chora

São a morte anunciando sua passagem




Flechas pintam o céu negro de vermelho

Silvando pontiagudas entre os ossos

E olhar para a frente é olhar num espelho

Em cada olhar a sombra firme de um guerreiro

No duelo contumaz daqueles povos




Os cavalos, amedrontados, relinchando

A cada ferida um grito de cortar

E devagar os cavaleiros se desmontando

A lança em punhos, a voz sempre bradando

A magia da batalha está no ar.

As mulheres, em suas casas, a rezar

Vão sentindo o coração se apertando

E o máximo que podem fazer é esperar

Ouvindo a morte em seus ouvidos sussurrar

Ao ver o fogo da batalha se apagando




Nada mais resta, além de corpos no chão

E o sino que ainda badala lentamente.

Aos guerreiros heróicos, o perdão

Quem restou os esfaqueia o coração

Concedendo-lhes uma morte mais decente

O povo vitorioso ergue sua bandeira

O orgulho invadindo os corações

Mas já receia outro ataque na fronteira

E vai fechando suas portas de madeira

Recarregando de flechas seus arpões




E a morte, que nada tem com aquilo

Vai colhendo os cacos da matança

Esperta, esgueira feito esquilo

Fria, pesa os corpos: quilo a quilo

Faz da guerra brincadeira de criança.



~ Thuan B. Carvalho

Sobre a Abstração

Vento vida voe

Pronde a proa aponte

Siga sozinho sua sina

Traça tua trilha

Haverá de haver um horizonte

 

doe

conte,

menina.

                  Ilha

       ponte.

 

Thuan B. Carvalho

4 de set de 2010

HCl


Quero transitar num mundo caduco

De olhares etéreos e insatisfeitos

Quero do sangue de meus ancestrais

Suco.


Quero ser a pedra no seu caminho

A corda no pescoço

E quando você tropeçar

Fosso.


Erguer-me-ei de sua desgraça

Cuspirei em todos os epitáfios

E minha gargalhada nem soará

Sem-graça.


Cobiçarei sua mulher, próximo

Trapacearei em seu jogo inútil

E jamais me desculparei por ser tão

Fútil.


Serei tão vil e sem pudor

Que quando em flor

Mulher;

Desabrocharás em mal’mequer.



~ Thuan B. Carvalho

9 de ago de 2010

Sobre as falhas



Olhou para trás, sentindo o corpo todo tremer, mas não parou de andar. Cristine acordara com a sensação de estar sendo seguida, e desde quando colocara os pés para fora de casa, até o atual momento, a sensação não lhe abandonara. Levantou-se sonolenta naquela quarta-feira morna de primavera sul-americana, abrindo as cortinas de seu conjugado e deixando a luz finalmente desvendar o ambiente. O quarto tinha uma pintura branca, cortinas verdes com black-out, uma mesa grande e uma pequena, todas de um marrom bem claro, e a cama do mesmo material, forrada com um lençol azul escuro com listras brancas. Dois quadros Monet decoravam o ambiente, e dois guardanapos usados ao lado do notebook sugeriam a rotina da garota. Trabalhava muito e comia mal. Cristine acordou normalmente, vestiu-se e foi trabalhar. Ao caminhar pela calçada, não notou uma viga que caiu 9 segundos após ela passar por uma construção. E aquela sensação de estar sendo seguida que não sumia. Das dezenove vezes nas quais atravessara a rua no dia, em quatorze delas sofrera buzinadas e raspões dos carros, que pareciam mais apressados naquele dia. E invariavelmente olhava para trás. Várias pessoas na rua olhavam para onde Cristine olhava, pensando que a garota via alguma coisa, e alguns começaram a rir-se da situação dela. Estava totalmente paranóica. Dois cães avançaram nela, e na fuga, a garota escapou por pouco de um ciclista desgovernado que pedia desculpas pelo seu péssimo freio. Como podia aquela sensação perdurar até mesmo dentro do banco? Encontrava-se na fila para pagar suas contas, e reparava em todos os cantos, mas ninguém parecia estar se importando com ela. Ninguém prestava-lhe atenção, então como estava sendo seguida? Pagou suas contas e saiu. Parou num café, e por pouco não tomou o chá de mel do rapaz ao lado, substância essa que causava uma alergia quase letal na garota. Cristine suou frio, quando andava, naquela hora, ainda olhando para trás, e pensava em seu dia. Quase chegava a olhar se havia um alvo pintado em suas costas. O corpo tremia, involuntariamente. Mas conseguiu. Quase pisou num prego enferrujado com as botas ao chegar em casa, mas desviou em tempos, abriu a porta da residência e entrou rapidamente, deixando aquela sensação para trás finalmente. Tomou um banho demorado, comeu alguma coisa, desligou o notebook e deitou-se para dormir.




Já dormindo, teve um ataque cardíaco fulminante e morreu. Levantou-se Alma, deixando o corpo deitado imóvel na cama. Sua confusão durou pouco, e ela logo entendeu que havia morrido. Chorou copiosamente, e foi sorte não poder arrancar os cabelos de sua alma. Onde estava a justiça da vida? A vida falhara com ela. 27 ANOS! Por que ela? Por que?

E bastou um olhar para aquela que a seguia durante todo o dia para que fosse respondida. Aquela velhinha com um capuz preto e uma foice estava sentada ao seu lado, e seus olhos de jabuticaba divertidos traziam uma mensagem nem tão legal quanto real.

A morte, essa sim; tarda, mas não falha.”



Thuan B. Carvalho

23 de jul de 2010

Desespero em Cores


*

Trace uma linha imaginária

Erga um muro de contas ao redor de si

E grite.

Tão alto quanto conseguir

*

Mas se mesmo assim

Mesmo depois de gritar

Espalhar sua acústica monótona pelo ar

Se ainda quiser me odiar

Entenda.

O mais rápido que puder entender

*

Foi você meu mais iluminado céu

Amarelo-estelar

Branco-lunar

E quando descobri seu véu

Provei do seu fel

Desilusão.

*

Então fizeram sentido minhas dores

Cores.

amarelo-anemia; branco-nada

*

Meu mundo agora é fosco

Céu negro

Mar cinza

Ar de metal

e palpita meu coração enterrado no quintal.



~ Thuan Bigonha de Carvalho

16 de jul de 2010

Am… (?)

A campainha.

Impressionante como aquela leve badalada vinda da porta produzia a sensação equivalente a de uma injeção de adrenalina em seu corpo. Seu coração batia no ritmo das batidas da visitante, enquanto ele passava as mãos nervosas no cabelo, em frente ao espelho, para ficar mais apresentável.

Seguiu até o hall e abriu a porta, encontrando aquela princesa ali parada, observando. Marie trazia os olhos levemente umedecidos, o que John logo percebeu, quando tomou-a pelas mãos e a abraçou. John pensava no motivo de os povos até hoje não tomarem o perfume de Marie como uma arma potencialmente perigosa. Bastava que soltassem a garota com seu cheiro num país, e John tinha certeza de que tal país cairia de joelhos aos seus pés.

Marie é demais.

- John, muito obrigado por me receber nessa noite de sábado. Sei que estou atrapalhando algum encontro seu, mas obrigado mesmo; eu realmente estou precisando. Você é um ótimo amigo.

Amigo. Amigo. Amigo.

Aquelas palavras ressoaram na cabeça do rapaz, fazendo com que ele se perdesse da admiração por uns breves instantes, para se lembrar do panorama pelo qual a garota o via. E ela o tinha como amigo.

Era bem verdade que ela deveria conhecer as intenções de John, que desde que se entendia por homem era apaixonado por Marie, mas ela o via como um amigo. Enquanto ele só pensava em mergulhar naqueles lábios borrados de batom, ela queria um abraço e um conforto. E sobre o cancelamento do encontro, era mentira. John ia ligar o computador e acessar qualquer site de sacanagem. Mas quem precisa saber disso?

- Você sabe que pode contar comigo, Marie. Para o que quiser.

John sorriu. Marie sorriu, entre algumas lágrimas. E se sentaram na cama. Foi lá que Marie desabou. Contou sobre seu problema, sobre como estava infeliz, sobre como queria que as coisas fossem diferentes com os homens. E John sabia.

Marie nunca assumiria, mas também amava John. Enquanto não assumia, mantinha aquele relacionamento como uma amizade, e tratava todos os outros relacionamentos como um lance, nada mais do que prazer. Curtia, “recurtia”, e sempre repercutia ali: ambos conversando, ela chorando, ele acalmando. Era uma sina dolorosa. Principalmente para ele.

Continuaram conversando, até que Marie pegou no sono. John tirou-lhe os sapatos, ajeitou-a na cama, e cobriu-a com sua colcha. Deitou-se ao lado dela, terminou de ver o filme, depois ficou encarando o “sobe-desce” do corpo da garota, que respirava pesadamente enquanto dormia.

Quão indescritivelmente lindos eram aqueles olhos fechados?

Quão indubitavelmente linda era aquela respiração cansada?

Quão irremediavelmente apaixonado John estava?

Sacudiu a cabeça, passou a mão levemente pelo rosto de Marie, e acabou adormecendo.

E no outro dia, mais uma batalha a ser vencida. John acordou, e encontrou Marie de pé, vestindo apenas calcinha e uma camisa larga dele, fazendo o café. Sentou-se na mesa, atordoado. Marie sorriu, deu-lhe um beijo na bochecha, e serviu ovos mexidos e torrada. Ele queria MARIE mexida com torradas no café, mas não disse nada. Guardou o pensamento para si, enquanto observava, sem que ela percebesse, aqueles contornos que ele tanto amava.

- John, muito obrigada MESMO. Você é um anjo e não sabe.

Os pensamentos de John no momento estavam longe dos afazeres de um anjo, e ele só conseguiu sorrir.

- Quando precisar, Marie... Quando precisar.

E a frase ficou no ar, enquanto ela se despediu, vestiu suas roupas e saiu. Virou-se para trás por um breve momento, jogou um beijo e piscou os olhos. E se foi.

Levou consigo todo o seu perfume, toda a essência e toda a vida de John.

“Esse rebolado um dia me mata”, pensou John.

Sem saber que.

Dia após dia.

Morria.

- Thuan B. Carvalho

5 de jul de 2010

Ruthina


E assim como em todos os finais de semana dos últimos quatro meses, Ruth saia de seu “ponto” e dobrava a esquina. Suas sandálias de salto alto fazendo um “toc toc” tão rápido quanto a vontade de que ninguém a notasse. A meia fina acompanhava toda a perna bem delineada, até onde a saia jeans (extremamente) curta conseguia tampar, não deixando muita coisa para a imaginação de quem fixasse o olhar na garota por alguns segundos. A barriga toda de fora, uma mini-blusa branca e o sutiã preto aparecendo no decote completavam o traje noturno da garota, além dos brincos, anéis e pulseiras. Os poucos carros que passavam por ela não poupavam buzinadas e gritos pouco honrosos, dos quais ela preferia não se lembrar.

Ruth deixou-se guiar, até que seus pés pararam diante de um pequeno portão de grades cinza-descascado, e tocou a campainha. A vizinha da esquerda, novamente, reparou na garota e fez um comentário maldoso com a cunhada, que tomava café em sua casa naquele dia. “é a terceira vez que vejo essa menina tocando na casa do Oswaldo. Desde que ele perdeu o emprego começou a beber e só quer saber da boa vida. Coitada da garota, tão nova, veja só que mundo cruel.” E apesar do comentário cheio de princípios morais e respeito, continuou a levar seu chá à boca, como se aquele mundo cruel fosse culpa de qualquer pessoa ali por perto, menos dela.

A garota esperou impacientemente, até que uma voz rouca soasse da casa velha, mandando que “o inconveniente” entrasse, se fosse algo importante. “Estou MUITO OCUPADO”, berrou ele. “Entre se for importante; se não for, pode dar meia-volta e desaparecer junto com sua inconveniência.” Ruth destrancou o portão enferrujado com dificuldades, e pôs-se a subir as escadas. Já sabia o caminho, por isso nem acendeu as luzes, indo diretamente ao quarto. Oswaldo estava deitado em sua cama de madeira velha, no quarto extremamente mal iluminado, acompanhado por dois maços de cigarro e uma garrafa de cachaça. Aquele quarto era a personificação da morte. Janelas e cortinas fechadas; lençóis sujos; a televisão ligada; a parede, outrora branca, já meio amarelada e expressando claros vazamentos internos; o pequeno jarro de flor, que era a única coisa que poderia dar um pouco de contorno vivo ao ambiente, estava no chão, entornado, dando lugar à garrafa de cachaça e ao controle remoto na mesinha de cabeceira.

Ela entrou, e viu a sombra de reconhecimento nos olhos fundos e opacos do homem. Ele perscrutou-a, de cima a baixo, dando um meio-sorriso amarelo de desaprovação. “Espero que dessa vez seja mais do que estou esperando, menina. Ande, venha logo.” E ela foi. Entrou no quarto, chegou perto da mesa de cabeceira, colocou o envelope que trazia nas mãos, e olhou para o homem deitado como se a vida pudesse ter sido diferente, como se pudesse ter sido mais generosa. Antes de concretizar aquele ato obsceno, ela permitiu-se duvidar de deus. Aquilo se tornara corriqueiro nos últimos meses, e continuaria por toda sua vida, pois nem mesmo um milagre tiraria aquele senhor da labuta.

E não tinha mais para onde correr. O ato teria que ser feito. E ela fez. Distorceu a realidade de qualquer mundo que se diga normal, contrariou qualquer expectativa de qualquer pessoa que acompanhasse a cena por fora, fez qualquer um repensar sobre o que pensa da vida, qualquer um se comparar à vizinha que criticou acidamente a atitude de Ruth sem nem saber do que se tratava, passando para o “próximo” qualquer tipo de problema que possa ser imaginado e que sirva de comentário na mesa do almoço. Praticando tudo isso num milésimo de segundo, Ruth esperou que a lágrima rolasse seu rosto e se despediu com a frase mais obscena do que teria sido qualquer ato que ela praticasse ali, com aquele homem:

“cuide-se, pai.”



- Thuan B. Carvalho

22 de jun de 2010

Anjos e Demônios


“Seu defeito e sua qualidade, seu ápice e sua ruína, unidos na loucura de suas concepções, tornavam-no anjo enquanto demônio. Um anjo sagaz e atuante, protetor e onipresente - um remédio a qualquer desatino; um demônio voraz e sufocante, malfeitor e inteligente - um veneno sem qualquer antídoto.”


Sem saber da profecia que o acompanhava, elas se apaixonavam. E com freqüência. A verdade nua e crua é que nem ele sabia que tais palavras haviam sido marcadas a ferro em sua alma, e que delas jamais conseguiria se livrar. Não que quisesse, claro.


E era sempre assim. Ele conseguia ser tudo o que elas desejavam de um homem, lendo olhares e pensamentos, sabendo de gostos e segredos, parecendo realmente não fazer parte daquele conglomerado de brutamontes que se diziam mais homens por terem mais mulheres, sem saberem dar o valor a cada uma delas. Tinha sempre nos lábios a palavra chave, o refrão correto, o poema oportuno, a gíria engraçada, o pensamento que completasse.


E num piscar de olhos, na simples reviravolta de um momento, ele sumia.


E não havia telefonema que tocasse, não existiam horas nas quais ele se encontrava em sua casa, ele não tinha mais vida social, não aparecia nos lugares, não retornava a caixa postal, e nem nada. Mas é claro. Seus lábios, doces e venenosos, com certeza já haviam profetizado algo do tipo; algo como uma “mudança de humor” que fosse explicá-lo posteriormente. E era simplesmente assim, parecia que seu lado demônio confabulava com seu lado anjo, e ele projetava teias complexas das quais somente ele saía, mas que prendiam em seu centro, completamente inativos e capturados, os sonhos intermináveis que ele prometia no terceiro encontro.


E quanto a você, você permanece em seu mundo, acreditando com veemência que a culpa foi toda sua. Que você não soube lidar com aquela perfeição em forma de humano, com aquele que finalmente seria o cara certo.


E se encontram dois meses depois, na mesa de um bar. Ele, sorrindo, levanta-se de onde estava para cumprimentá-la, dando um abraço apertado, e perguntando como vai sua vida. Ela sorri, apenas para retribuir o gesto, mas a interrogação em sua cabeça não é diferente das outras tantas. Ele parecia não conter mais aquela ligação, parecia não se lembrar mais dos momentos que viveram juntos. Ela procurava sentir aquela alma tão ofuscante, tão presente, tão imponente, mas tudo o que sua alma captava agora da alma daquele estranho era uma frase tão abstrata quanto aqueles momentos passados juntos pareciam agora:



“amor, eu não estou em lugar nenhum.”



~ Thuan B. Carvalho

18 de jun de 2010

Rima e Solidão



Na maioria das vezes não é escolha

Nem se trata simplesmente de opção

A poesia surge do nada - feito bolha

Que se sopra daquela “água com sabão”

E dali para frente pronto: é poeta

Com os conhecidos ônus da profissão

Incluindo o principal, que acarreta

A proximidade entre aquele e a solidão



Resta somente aprender a separar

E se apossar da solidão na hora certa

Naquela máxima de “dividir pra conquistar”

Sendo hora sol, hora lua, hora mar

Sem deixar a pobre alma inquieta



É aqui que me procuro e não me acho

E confesso até que às vezes choro baixo

Na ânsia trôpega de conseguir me rotular

Pois se o poeta é - fêmea e macho - união

Entre a vazia madrugada e a solidão

Como é que eu poderia me encontrar?



E esse medo de permanecer indefinido

Cogitando poeta nunca eu ter sido

Fez-me caçar o meu lugar a existir

E após breves delongas, o consentimento

Sou “meio-poeta”, e eis aqui o fundamento -

Tenho as palavras mas não tenho O sentimento.




- Thuan B. Carvalho

19 de mai de 2010

afinal; Sonhalidade.


O baque fez ensurdecer, e depois nada.

-

Ele se encontrava no paraíso, os braços dados com sua amada. Um campo aberto, com apenas duas árvores. Uma cadeira de balanço. Uma montanha. O mar. E pássaros cantando. Ali realmente era o paraíso.

-

Acordou numa cama de hospital, tubos enfiados nos dois braços, um aparelho respiratório preso à cabeça, e duas pessoas chorando ao redor.

-

Um segundo e tinha voltado ao paraíso. Levantava-se devagar de um tombo, e caminhava com a mulher até o topo da montanha. Riam juntos, conversavam alegremente. Comiam um pedaço de pizza enquanto caminhavam. A vista era perfeita. O calor do momento satisfazia sem se fazer sentir. Não era preciso estar ali para estar bem.

-

E de repente, voltou àquela cama dura do hospital. O remédio que lhe aplicaram fazia um efeito bom, e ele começava a se sentir bem. Mas as pessoas ainda choravam; por quê? Fechou os olhos novamente e...

-

...encontrava-se no paraíso. Subindo a montanha. Sua amada ali. Foi então que achou que entendeu. O paraíso era um sonho, e ele deveria estar realmente mal para ter apenas lapsos. E, se melhorava um pouco, e as pessoas ainda choravam, seu estado deveria ser mesmo grave. Lembrava-se de uma pancada como última lembrança. Será que era isso? Recebeu um beijo tenro da mulher, e abraçou-a fortemente. Ela olhou, sem entender, aquele abraço que mais parecia um adeus. Ela notava que os pensamentos dele ora iam, ora vinham. Ele parecia num estado de transe pelo tropeço que levara ao subir a montanha.

-

Abriu os olhos com o médico entrando na sala, com uma cara triste e o coração partido. A cara de um médico que sabe ser inevitável, mas não consegue aceitar.

-

Piscou os olhos, paraíso.

-

Piscou novamente, hospital. Flores na mesa de cabeceira, uma jarra de água, e tristeza quase concreta. Era a composição daquela sala fria e modorrenta. Mas e aquele paraíso?

-

Então se encontrou no topo da montanha, a mulher sorrindo para ele, e os filhos. OS FILHOS. Subindo atrás. Nem se lembrava que tinha filhos. Era realmente bom demais para ser verdade. Levou a mão na cabeça, e encontrou uma enorme marca de pancada. A mulher trazia um saco com gelos na mão, e levava-o à testa dele de vez em quando. Um filete de sangue escorria tímido de sua testa.

-

E então hospital novamente. E dor. Não queria mais aquilo!

-

Resolveu, já de volta ao paraíso, experimentar uma sensação nova. Afinal, era um sonho. O paraíso, na verdade, não existia. Beijou o casal de filhos, beijou a mulher intensamente, e sem dizer nada correu e pulou. Pulou do alto da montanha. Ouvia os gritos desesperados da mulher, que se agarrava aos filhos no cume da montanha, sentindo que se afastava cada vez mais, e mais rapidamente.

...

Era estranho, mas sentia como se fosse real o frio na barriga, enquanto despencava montanha abaixo.

...

E não sonhou mais com o hospital.





Thuan B. Carvalho

17 de mai de 2010

Verdades sobre o Verão


I - A palavra verão faz fazer calor.


II - O verão não consegue agradar todo mundo. Se faz calor, reclamam; se faz chover, reclamam. Eu se fosse o verão, chovia calor.


III - Eu não vejo muita poesia no verão.



Thuan B. Carvalho

Verdades sobre a Primavera


I - AS FLORES DESABROCHAM O ANO TODO!


II - Sou cada cor da primavera, cada cheiro, cada tom. Não sou ação, não tenho forma e nem tampouco sou palavra... Hoje rosa, amanhã bromélia. Ontem sequei, amanhã ressuscito. Você tem que ter fôlego para acompanhar o que me torno a cada instante.


III - Abelha, borboleta e beija-flor pensam que me enganam, mas sei que vieram dessa “era”.


IV - Em meu íntimo paraíso infinito imaginário é primavera, mas as rosas não têm espinhos.


V - Quem ama não escolhe, colhe.



Thuan B. Carvalho

Verdades sobre o Inverno


I - Com você meu inverno é parecido com o de um chuveiro elétrico.


II - Inverno e seu sorriso; primavera.


III - Você me olha assim e sorri, sem saber que torce o “v” em “f”.


IV - Realmente sentes frio? Experimenta não ter agasalho, não ter a capacidade de sentir. O que sentes não é frio, é mimo!


V - Eu não acredito nas estações do ano, nem nas horas do dia. Nada é exato; se de manhã anoiteço e colho flores do deserto.



Thuan B. Carvalho

Verdades sobre o Outono


I - Dizem que as folhas só caem no outono, e ninguém sabe que as árvores caem o ano todo.


II - Pisei naquela folha seca, e o barulho me lembrou pizza torrada.


III - É das carecas que ele gosta mais.


IV - Adoro começar textos no outono. As folhas esvoaçando ao vento são tão poéticas que me fazem esquecer o quão raras são essas ocasiões.


V - É sempre outono no coração de quem não acredita.



Thuan B. Carvalho

14 de mai de 2010

Nostalgia


Até hoje de manhã, eu realmente desconfiava das coisas. Desconfiava porque é da minha natureza desconfiar. Como é também da natureza do homem comprovar, testar, aprovar, afirmar! Tudo tem que ser certeza. E a certeza doeu amarelo-doença nos olhos, e ardeu cinza-chumbo no estômago. É a dor da nostalgia, a certeza de que não volta mais, a vontade de um dia-a-dia que simplesmente já se fora, de uma intensidade que infelizmente foi-se bruma, sombra de árvore em dia nublado. Sentado no banco daquela praça foi que eu acreditei nas coisas. E as coisas mudam.


Quem pediu bancos novos, chão pintado, canteiros sintéticos, ferros novos, luzes potentes, postes pintados; simetria exata de uma solidão moderna?

Quem encomendou esse futuro sem sorrisos, sem pés descalços e sangrentos, sem pipas, sem peões, sem futebol, sem terra, sem poeira, sem sujeira; assimetria inexata de uma coletividade ultrapassada?


Nunca imaginei que fosse dessa maneira. Em meus sonhos infantis, pensava em minha vida exatamente como está hoje, porém, achava que viriam outras crianças para assumirem o meu lugar subindo na árvore mais alta da praça. Ou na casinha de madeira. Ou na cabeça daquela estátua. Ou no alto do poste. Terrível engano. O poste é hoje perigoso para se subir, a estátua não existe mais, a casa de madeira é só um esboço do que outrora fora, e as poucas árvores estão lá, solitárias, olhando as poucas crianças que as deixam de lado para passarem, desatentas, distraídas demais com seu brinquedo eletrônico.


Porém, o que vejo agora é o pesadelo do que não vejo; e meu delírio é tentar achar um motivo, uma saída plausível para aquela destruição que se tornara factualmente normal. Tento de todas as formas achar normal a ausência de mim, de meu eu passado ali, não representado por uma alma sequer. As respostas não vem, e a falta delas traz uma vontade rouca de gritar, de culpar alguém; sobe de minha garganta o veneno mais mortal...


... e escorre pelos bueiros com o mar de meus olhos, levando consigo as cores vivas de um pretérito mais que perfeito; mas que jamais se conjugará no futuro.



Thuan B. Carvalho

19 de abr de 2010

(…)




É exatamente aqui que você se engana


Você não começou a ler coisa alguma


Os versos que escrevo deitado na cama


Não têm sentido nem meta nenhuma


(só estou escrevendo para que mais cedo eu durma!)




Mas o desespero das pessoas é tão grande


Por algum conselho que faça a vida ter sentido


Que se passam por eternos ignorantes


E terminam de ler sem que o texto seja lido


(isso não é um anúncio de refrigerante!)




O que eu vejo nos seus olhos dói em mim


E a você, que agora lê, é que escrevo


Se procura dessa vida um próprio fim


Tais palavras de tão vãs não têm relevo


(se não valem como é que eu me atrevo?)




Para provar fiz uma mera inversão


Que é quase tão patética quanto banal


Quando no texto procurar a conclusão


Vai perceber que meu começo é o final
(...)






~ Thuan B. Carvalho

18 de abr de 2010

Indisposição



Besteira é pensar que essa vida vale

O valor que vai vigendo voraz

Que alguém dê uma resposta que me cale

Ou para mim é tanto fez e tanto faz

Sou enérgico porque vivo do vento

Sou sagaz porque danço o que canta

E não é fácil obter meu acalento

Nem energético nem sagaz, sou criança



Quero mesmo é que, como nos ditados

A água fure a pedra de tanto bater

Quero o caos instalado nas cidades

Latente, letárgico, longínquo

Não, na verdade eu quero o caos aqui

Ao alcance desses olhos afogueados

Que a Terra chora pois não haverá de comer



Há em mim um tanto de loucura

Que se expressa livremente em minhas artérias

Esse tanto é o que sou, verdade intrínseca

Sendo o resto apenas parte de matéria

E há gentes que se escondem entre máscaras

Trocando até mesmo o bem-estar pelo seu ego

Definitivamente, não sabem essas gentes

Que só tampam um olhar que já está cego



O que ecoa de mim é o que traduzes

Dessas linhas carregadas de madrugada

A cidade já acende suas luzes

Galos cantam de forma desregulada



Existe agora uma questão bem relevante (cruzes!)

Para meu texto, é questão primordial (que furada!)

Espero que já tenha sido o bastante

Vou explicar então preste atenção:

Já voltei ao meu Estado Natural

Tenho rimas mas não tenho Inspiração.




~ Thuan B. Carvalho

Um tanto quanto Ryan



Ryan era diferente.


Ryan odiava usar máscaras de realidade.



Ryan chorava quando via alguém caído pelas ruas, sem provimento.


Ryan queria um mundo melhor; sem achar que vivia num mundo ruim.



Ryan não deixou que atrocidades se tornassem “comuns” em sua vida.


Ryan chorava.



Ryan não admitia as coisas que ouvia dizer sobre pessoas serem más.


Ryan pensava por livre e espontânea vontade.



Ryan ignorava ao máximo a influência da máquina do quarto poder.


Ryan ajudava quem achava que precisasse, quando podia.



Ryan acreditava no amor.



Ryan buscava seu caminho.


Ryan era diferente.



Ryan deveria ser você, ou você deveria ser Ryan?



~ Thuan B. "R." de Carvalho

11 de abr de 2010

Incandescente - Incansubinte



Passava das duas da manhã, e apesar de o outono mais gelado do que o de costume amedrontar a maioria das pessoas, ele cambaleava pelas ruas. Mas tinha destino. Arthur era loiro, olhos azuis penetrantes, corpo atlético levemente descuidado, barbas sempre feitas, pele oleosa e nariz adunco, lábios finos e bem desenhados. O que mais chamava a atenção, no entanto, era sua forma de caminhar. Era notado sempre, fosse qual fosse o lugar onde estivesse. Resumindo, o nome não remetia a um grande Rei à toa: Arthur tinha potencial.


As ruas estavam desertas, e uns poucos homens saíam dos poucos bares ainda abertos naquela madrugada de quinta-feira. Um vento gélido percorria as calçadas, trazendo o montante de folhas secas caídas com o decorrer do dia, enquanto uma umidade perceptível no ar indicava que, em algum lugar perto dali, havia chuva chegando. Arthur puxou o agasalho para junto de si, enfiou as mãos nos bolsos, e continuou seguindo seu caminho rumo à casa da esquina. Mantinha o cigarro preso entre os lábios, soprando a fumaça com uma graça inconfundível: fumar desde os quinze anos conferira-lhe certa habilidade naquilo, e ele constantemente se gabava. Era um pouco metido, na verdade.


Ele encontrou a casa, enfiou as chaves com dificuldade na fechadura, abriu o portão e entrou, tateando as paredes laterais para acender a luz.


A luz foi acesa e lá estava ela, sentada no sofá com os olhos ainda inchados. Rebecca conservava-se ao lado da lareira, meias grossas cobrindo os pequenos pés, o bonito rosto virando-se lentamente na direção da porta que se abrira.


- Você tem certeza mesmo dessa decisão, Beck? - Ele perguntou, a primeira coisa que disse quando a viu. Tinha jurado a si mesmo que não insistiria mais, e mantinha uma das mãos na maçaneta, enquanto aguardava ansiosamente a resposta. Suas mãos suavam e tremiam levemente, e seu coração pulava mais do que o normal dentro do peito.


- Acho que sim... - Ela respondeu. O cheiro de bebida e cigarro era sentido facilmente quilômetros de distância pela garota, e isso fez com que ela ficasse ainda mais tendenciosa a querer realmente aquela separação. Olhou Arthur de cima abaixo, não conseguindo esconder certo desejo daquele homem que tanto amava, mas que tanto a machucava. Ela sabia que não era culpa dele, mas como explicar isso ao coração? Ficar com ele a estava matando, e ela decidira pouco tempo atrás a dar um fim naquilo tudo. O problema foi que três horas sem ele já a fizeram repensar. Tudo bem em ficarem separados, mas o que fazer com o amor que subsistia?


Ele, bom leitor de mentes que era, entrou de vez no hall com a cabeça baixa e fechou a porta atrás de si. Caminhou decididamente para perto dela, e chegou muito perto. Foi quando a levantou pelo braço que ela viu no rosto dele o desejo, e entendeu. Ele jogou-a no chão como um macho trata uma fêmea, e aquele chão de hall de repente se transformou. Ambos tiravam suas roupas trôpegos, enquanto um novo odor se misturava ao álcool e ao cigarro. Cheiro de excitação, suor e desejo; o amor estava presente, mas quase não teve vez ante tanto sentimento. Ela mordia como se fosse o último ato de sua vida. Ele apertava como se ela fosse a última mulher de sua vida. Entrelaçaram os corpos atônitos, as chamas da lareira incendiando ainda mais aquela união, enquanto ele a beijava ardentemente. Tudo ardia naquela sala. Palavras foram dispensadas por gestos, e os gestos diziam tudo.


~


Ela acordou letárgica, atordoada sem saber o que acontecera. Copos quebrados e garrafas na mesa de centro, roupas rasgadas e os seios descobertos. Apenas uma réstia de luz brilhava na lareira, que ainda aquecia. Braços fortes envolvendo-a febrilmente. E pensou que o chão do Hall nunca fora tão aconchegante.

- Thuan B. Carvalho

Tempos (do) (Presente)s


Ei, você, que observa minha estupidez

Não vá me julgar, como se fosse um juiz

Na vida é assim, cada um sabe do que fez

E nem sempre as coisas saem como a gente quis.


Eu queria era a chance de tentar mais uma vez

E quem sabe entrar no time que se sente feliz...




Ei, você que me observa sou eu?

Privacidade parece não ser o forte

Eu olho meu rosto e vejo é o seu

O espelho me fez um perfeito recorte.


E esse recorte, será que doeu?

Dor, tensão, saudade, morte...


~


E aquele sorriso que é meu, cadê?

Guardou para quando estivermos a sós?

Não quero que seja um mero clichê

Mas por essa ausência, tornei-me um algoz.


Não existo mais eu, não existe você

O plural do presente agora somos nós.

~ Thuan B. Carvalho

6 de abr de 2010

Des Amor


- Amor, tenho algo importante a lhe dizer. Podemos nos ver hoje? - ele disse ao telefone, todo carinhoso.


- Hmm, eu também tenho algo a dizer, então um encontro hoje seria ideal - ela confirmou, nem tão amistosa assim.


~~


E naquela hora, naquele dia chuvoso, sentaram-se no restaurante que ele havia escolhido (previamente, bem previamente)


O garçom veio anotar os pedidos, até então tudo era formalidade.


- O que você tem para me dizer? - perguntou ela, um poço de curiosidade.


- Ah não, acho melhor você primeiro - revidou ele, um lago de cavalheirismo.


- Eu não tenho certeza mais se quero dizer... - ela ponderou, olhando para tudo menos para o rosto do namorado.


- Nem vem com essa, agora você vai ter que dizer. Eu só digo depois de você.


- Eu acho melhor não...


- Eu tenho CERTEZA de que é melhor SIM - definiu ele, olhando o garçom que já trazia a bandeja com as taças de vinho.


O olhar dele parou numa das taças e brilhou num suspense mudo.


- É a sua última chance, amor. Diga logo o que tem para me dizer! - ele suplicou, a última das súplicas.


- Independente do que eu diga, você vai me dizer o que tem para dizer depois? - ela protelou, já tendendo a falar


- Sim, prometo. Acho até que o que queremos dizer se parece - ele sorriu, achando mesmo aquilo.


Talvez tenha sido essa a frase que tenha mudado o destino dos dois para sempre, porque a partir daí ela percebeu que ele só falaria se ela falasse e que talvez ele quisesse a mesma coisa; e resolveu seguir em frente com o que vinha pensando em fazer há tempos. Tomou coragem (porque a bebida ainda não tinha chegado para ela tomar), inspirou, e começou:


- É que, bem... eu não sei como dizer isso. Na verdade eu tenho pensado durante todo esse último mês em como dizer, e o jeito eu já achei. Só não achei a forma de dizer sem te machucar. Então é o seguinte, espero que você não fique magoado. - Ela suava frio, mas sentia a coragem brotar - Eu tenho outro homem. E nós precisamos terminar.


Então o garçom colocou as duas taças de vinho em cima da mesa, e sorria num tom de “eu sei de tudo”. Deu uma piscadela para o rapaz, e saiu levando a bandeja. O rapaz olhou para todos os lados, menos para a namorada. Não conseguia. Não dava


- E então, o que você tinha para me dizer? - arriscou ela, para confirmar suas expectativas de que ele também queria aquilo


~


E ele olhou exasperado para a aliança de ouro que permanecia intragável no fundo da taça de vinho dela.




Thuan B. Carvalho

Des Encontro



Seguiu imponente percorrendo os trilhos


Na velocidade que o corpo suportava


Ungido da fé que umedecia os cílios


Atrás, bem atrás é que o orgulho ficava



De repente, faminta, por entre os ladrilhos; uma loba feroz os seus dentes mostrava; apenas defendia o território e os filhos; e por isso, só por isso é que ela rosnava. Girou nos calcanhares, esperto menino; e se embrenhou naquela mata densa; evitou que a loba lhe cravasse o canino; mas não evitou que ao fracasso sua busca fosse propensa.



E desembestou, comum desatino


A batida do coração parecendo mais tensa


Se aproximou do vilarejo pequenino


O nó na garganta denunciando sua presença



Então ele a viu, brilho matutino; desceu-lhe ao estômago a sensação mais intensa; sua voz lhe estrondava com a sutileza de um sino; ela era nele a personificação da doença. Tentou se esconder, mas fora em vão; seus olhos se encontraram com a força da dor; então ela veio em sua direção; nos olhos inda as mágoas de certo rancor.



Ele só queria uma explicação


Ela fora embora antes de o sol se pôr


Ela explicava que em seu coração


Brotava a semente de um novo amor



Ele não se conformava, cega paixão; perdera na hora todo o seu pudor; usou as palavras de baixo calão; transformou em ódio todo o seu calor. E ela chorou o mais triste pranto; choro da ave que abandona o ninho; mas não abandona porque tem outro canto; e sim porque sente da flor um espinho.



(...)



Voltou atordoado, cambaleando tonto


A mente tentando refazer o caminho


E dentro o coração, que outro queria tanto


Encabulado por voltar sozinho




Thuan B. Carvalho

18 de mar de 2010

Qual o nome do Filme?


- Eu gosto mais de você do que você de mim - disse ela, deitada ao lado dele no colchão.


- Você acha mesmo? - disse ele olhando para ela de esguelha, sem desvirar o rosto que encarava o teto da sala, e sem retirar a mão que a acariciava o ventre.


- Não, eu tenho certeza - reafirmou ela, reflexiva - É impossível pensar que pode existir alguém que consiga gostar de outrem mais do que eu gosto de você. Impossível!


Então ele se moveu;


Virou-se de sobressalto no colchão, sentando na cintura dela, e segurou-lhe as duas mãos em cima da cabeça. Olhou profundamente nos olhos dela, e declamou.


- Quando eu acordo, é em você que eu penso. Quando eu vou dormir, é em você que eu penso. Há dias em que o que eu mais quero é um abraço seu. Porém há dias em que o que mais quero é seu sorriso. Eu não suporto ficar longe de você. Eu não consigo me lembrar dos motivos que eu tinha pra sorrir antes de estar com você. Eu não consigo olhar para outra mulher. Eu imagino a minha filha com o seu sorriso. Eu tenho certeza de que quero acordar todas as manhãs e ver seu rosto tranqüilo a inspirar e respirar, e sentir seu hálito, e lhe acordar com um beijo, e sentir você. - Ele disparou tudo isso com os olhos fixos nos dela, e não parecia ser o rapaz em si. Era uma energia, uma força que não podia vir do cérebro. E completou - e fique sabendo você que eu não disse NEM A METADE dos motivos que eu tenho para...


- Ah, mas eu gosto MUITO de você - retalhou ela, olhando também nos olhos dele.


Ele abaixou a cabeça levemente, colou seu rosto no dela, deixando os lábios “semi-tocados”, e sussurrou claramente - Eu amo você.




----------------------x-------------------------------x--------------------------



~ Romeu pegou o controle do DVD e pressionou “Power”, sem retirar os braços que envolviam Julieta. Ambos choravam com o bonito final do filme romântico que tinham alugado, e trocaram um beijo ardentemente apaixonado em homenagem ao amor consagrado no filme, que instigava os corações a se amarem mais do que o amor poderia suportar.




~Thuan B. Carvalho

Inflexões


Ouvia música, e lia textos; deixou sua atenção vagar; via, em sua própria cabeça, as idéias passarem rápidas; pensou em como as capturar; queria mesmo era escrever; indignava-se; via que tinha idéias; sabia que elas estavam ali; só não conseguia apanhá-las; olhou o quarto, desarrumado; olhou as horas, tarde; olhou para a tela do computador; voltou a concentração para si; ouvia U2; lia um blog; QUERIA ESCREVER!


Ele viu;

Ele entendeu;

Ele sentiu.

Ele escreveu;

Ele concluiu...



...releu e sorriu.



~Thuan B. Carvalho

6 de mar de 2010




Não quero saber
Como vai ser
Quando o que é Ser
Não for.

Não quero prever
O que pode não acontecer
Para cedo eu me ver
Sentir dissabor.

Não quero já tremer
Vou ver para crer
Se tenho que ter
Tremor.

Eu quero é viver
Eu quero você
E me enaltecer
Amor.


~ Thuan B. Carvalho

23 de fev de 2010

1 + 1 = 1


- Eu vou ficar com você para sempre.
- Suas promessas são tão palpáveis quanto um sonho - ela rebateu.
- Depende do jeito como você trata seus sonhos... - ele sorriu, dono da verdade.
- O que você quis dizer? - ela desafiou. Queria ouvir aquilo.
- Bom, eu costumo correr atrás de meus sonhos até que se tornem palpáveis. Realmente são abstratos no início, mas com o tempo ficam concretos. Estar com você aqui, por exemplo, no começo era só um sonho que eu tinha.
~
E o que ela conseguiu fazer foi sorrir, derrotada. Ele tinha mania de inverter a realidade, até que o preto virasse branco ou vice-versa.
~
- Eu gosto de você...
~
~
E aquele sentimento pairou acima dos dois, inabalável, enquanto só as mãos permaneciam entrelaçadas sobre os lençóis.


Thuan B. Carvalho

15 de fev de 2010

Help me.


Pensou ser uma maldição ser o único sobrevivente daquele naufrágio. Flutuou por um dia inteiro sobre uma das peças do navio até que, já desacordado, bateu numa ilha inóspita; totalmente selvagem. Bebeu da água dos cocos, comeu das frutas das árvores; satisfez-se. Mesmo depois de um ano passado, ele ainda via, invariavelmente, helicópteros de salvamento rondando aquela área, talvez procurando por sobreviventes do tal naufrágio. Sem pestanejar, escondia-se o máximo que podia, desarmava sua pequena cabana feita para se proteger dos temporais, e aguardava, até que o monstro aéreo fosse embora. E foi assim por um bom tempo.



-----------x------------------x------------------x----------------x-------------

No litoral brasileiro, a criança nadava eufórica, jogando seu pequeno corpo contra a espuma das ondas. Foi numa dessas que ela sentiu algo sólido bater em sua coxa esquerda, e se perder na espuma. Ligeira como só uma criança curiosa pode ser, enfiou a mão e pegou a garrafa causadora do choque. Olhou atentamente, e correu até a beira, onde o pai vigilante observava-a.


- papai, olha só o que eu achei. Tem um papel aqui. - disse ela, totalmente excitada pela nova aventura iminente.

- deixa o papai ver... - e pegou a garrafa das mãos da filha, abrindo-a com certa dificuldade, e extraindo o papel velho e amassado.

- e então pai, o que diz? - a curiosidade não cabia naquele corpo esguio.

- er... não é nada. Nada mesmo. Está em outra língua. Veja só aquela onda!


E a filha correu, excitada por mais uma aventura no dia, que era voltar a chocar-se contra as ondas. A aventura anterior da garrafa secreta lançada ao mar por piratas já fora apagada de sua mente.



Enquanto isso, seu pai sentou-se na areia e refletiu sobre aquele papel agora em seu bolso.



Uma frase bem formada, em letra de fôrma: DEIXEM-ME EM PAZ!




Thuan B. Carvalho




Só para pontuar, eu prefiro deixar com a mágica da imaginação a maneira como o náufrago conseguiu uma garrafa, caneta e papel. Porém, se quiser uma alternativa real, pode começar a pensar em onde pode chegar o lixo com o qual você polui os rios e o mar.

9 de fev de 2010

Quotidiano V - Seriedade para Poucos





















Na cobertura do prédio, bebiam e faziam acontecer. Estavam bebendo há seis horas, um grupo de dez pessoas, cinco casais; todos amigos de faculdade fazia dois anos. O céu enluarado estava digno de um quadro no hall de entrada.

Ele rumou para a varanda, seguido de dois amigos e três amigas. Quando se debruçava no parapeito a fim de sentir o ar limpo dos lugares mais altos, sentiu o cheiro que lhe desagradava em maior proporção. Principalmente por se tratar de amigos seus. Cheiro de fumaça de cigarro.

Olhou com desdém para seus amigos, desafiando-lhes a oferecer. Quatro dos quais entenderam o olhar ácido, mas a garota, talvez pelo elevado nível de álcool no sangue, estendeu-lhe a mão com o objeto.


- ah, vamos lá. Só uma vez não vai fazer mal para você. É sério.

- Meu pulmão vai muito bem, obrigado.

- Deixe de ser careta. Uma vez só, poxa. Como você vai saber que é ruim sendo que nunca provou? E outra, eu não sou viciada. Paro quando quiser.
Ele não pôde deixar de sorrir. Estava ouvindo aquilo fazia dois anos, desde quando ela entrou na faculdade e começou a fumar. Antes realmente não era viciada.




- Tudo bem, passe para cá.
Pegou o cigarro das mãos dela, e jogou do último andar do prédio. Ela olhou surpreendida, e disparou.


- Você é maluco? Isso custa DINHEIRO! Putz, não esperava isso de você.. Não mesmo. Sua criança.



Era a hora.


- Ah, não esperava isso de mim? Então finalmente temos algo em comum. Eu não esperava que você fosse me oferecer algo que me fizesse mal, algo em que eu poderia ficar viciado, algo que você compra e usa SABENDO QUE FAZ MAL.
Dizendo isso, pegou a caixa das mãos dela, que estava prestes a acender outro, e virou. Na parte de trás, o retrato de um câncer provocado pela ingestão de cigarro. E fechou a cara. Olhava para a garota com o mais sério dos olhares, passando a imagem de alguém ofendido e enraivecido.

Ela enfim se tocou, e olhou para os dois lados, ruborizada.


- É que eu... Desculpe-me.


E não fumou mais, naquele dia.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano IV - Light out, Black in



Plaft! Também pudera, com um relâmpago daquele porte não haveria como a luz não acabar. Acendeu uma vela, usou o fundo do copo como suporte, e iluminou o quarto para continuar lendo. Não ouviu a multidão gritando apavorada, nem sentiu o medo das pessoas nas ruas, simplesmente porque do claro veio o escuro. Ignorou os muitos pedidos a deus para que a luz voltasse, simplesmente para que terminassem de assistir à novela.



Não, ele realmente não fazia parte dos outroscentos que choravam o fim do mundo só porque a energia elétrica havia se esvaído. A luz da qual ele necessitava emanava de si.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano III - Reflexão


Hoje fizeram com que eu pensasse;


É bem verdade que eu amo o português e as palavras ..


mas escrevo mesmo é pra fugir da realidade.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano II - Milésimo de Segundo da Eternidade



Ele passava no passeio da praça. Ela, vinha no passeio contrário. A contramão do amor.



Foi quando os olhares se encontraram.



Ele fixou seus olhos nos dela, e o ambiente urbano voou para longe, como num filme de ficção, trazendo para si uma praia deserta. Ele Adão e ela Eva; os únicos seres na face da Terra. Imaginou o signo do amor da sua vida, se combinaria com seus sonhos aquarianos. Pensou se ela gostaria de guerra de travesseiros numa manhã de domingo, quando acordassem embebidos de amor e álcool. Imaginou-a entrando consigo num restaurante formal mineiro, onde seriam os únicos na pista a dançarem enquanto os outros jantavam. Viu perfeitamente ambos andando de mãos dadas no calçadão da cidade, enquanto ele carregava a filha dos dois nos ombros. Quase chegou a perguntar com o olhar se ela gostaria de presentes feitos à mão, de sítio, de praia, de família, de piadas, de advogados, de surpresas, de viagens, de amor...


Ela olhava aquele rapaz que a encarava. Tinha um “quê” que a atraía. Pelas roupas que usava, apostaria tudo como tinha mau gosto para escolher sua combinação. Chegou a ver a mãe do rapaz escolhendo as roupas para ele vestir, e armou um sorriso de canto de boca. Os óculos até conferiam um ar intelectual, e ela pensou se ele estudava, se garantiria um bom futuro aos seus filhos. Barbas mal feitas agradavam-na. Sem piscar os olhos, pensou que ele seria uma ótima companhia para tomar um açaí na beira da praia, que parecia ser do tipo de caras que surpreendiam, e que talvez fosse ser um ótimo pai. Pai dos filhos dela, quem sabe? Ruborizou levemente com o pensamento e conseguiu, inexplicavelmente, balançar a cabeça para afastar o pensamento sem que seus olhos se desviassem dos dele.



E quando se cruzaram...


Simplesmente continuaram a andar, deixando que a timidez e a covardia superassem a vontade daqueles corpos de se unirem. E foi essa troca de olhares o chamado “milésimo de segundo da eternidade” em que mais duas almas deixaram de se satisfazer.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano I - Almas que Choram



Ele voltava do clube a passos assimétricos, o calor extremo incomodando cada célula de seu corpo, mas mesmo assim cantarolava baixo um samba do qual queria se lembrar fazia uns minutos.


Repentinamente, chuva. Olhou para o céu intrigado, e havia apenas uma nuvem tímida, mas que se esforçava bastante, fazendo cair uma chuva mensurável. Ele fechou os olhos, e levantou as duas mãos ao céu, agradecendo a chuva sem desmerecer o calor. Ao seu redor, os pequenos rebuliços de transeuntes que há pouco praguejavam sobre o calor infernal agora corriam para baixo das marquises a fim de não se molharem com a chuva. Eterna complexidade do ser humano.


O tempo pareceu gostar de ser repentino, e do jeito que trouxe a chuva, levou. Porém, deixou um arco-íris, fragmento sublime que o rapaz não pôde deixar de perceber enquanto olhava para o céu. Flagrou o ocorrido por uns minutos, até que retirou o celular do bolso e começou a tirar fotos, pensando em mostrar para as pessoas depois como era lindo o tal do arco-íris.


Os transeuntes, por serem só transeuntes, ainda transitavam paralelos ao rapaz, com pressa de chegar a um lugar qualquer, novamente reclamando do calor. Viam o rapaz tirando fotos, olhavam para o céu, e exalavam um “ah, um arco-íris”. Contudo, eles já haviam deixado que aquilo se tornasse corriqueiro. O arco-íris passou a ser só mais um acontecimento efêmero de um dia em que chove enquanto faz sol, e até tinha sido explicado fisicamente. Olhavam para o rapaz, e pensavam “louco, coitado”.



Enquanto isso, no interior dos transeuntes, as respectivas almas que jamais compreenderam o comodismo de seus corpos choravam por não terem nascido no corpo do “louco”, do “coitado”. Desejavam intimamente renascer num corpo daqueles da próxima vez.




Alheia àquilo tudo, a alma do rapaz sorria, extasiada. Jamais se acostumaria com a mania boba de seu corpo de achar a vida linda todos os dias. Achava até que estava apaixonada.





Thuan B. Carvalho

5 de fev de 2010

Fatalmente Amor.






Viviam bem, obrigado. Pareciam feitos um para o outro: almas que se separaram na maternidade, ou qualquer outra coincidência trovada por Cazuza. Completavam-se tanto que às vezes ela se pegava encarando o espelho, de tanto que o via em si. Amor de verdade.

Moravam numa casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada! Sonharam viver num lugar aberto, para fazer livre o amor até fisicamente, quando trançavam pelos corredores sentindo a luz do sol, a brisa da noite, ou os respingos de chuva. A liberdade transcrevia-se ali.


Porém, (já reparou em como tudo tem um porém?) fez-se sólida a máxima de que o amor é mortal, posto que é chama. Ela quis seguir sua vida, lançar a âncora em outras ilhas, içar velas e zarpar. Ele, o último dos românticos, jamais aceitaria ter que deixar ir a menina de seus olhos. Sua vida. Sua luz.


O que ele não entendia é que a estava sufocando com amor. É, isso mesmo. O lado possessivo do amor, aquele lado com o qual ninguém faz poesia. Era tanto amor, tanto viver, tanto tempo passado juntos, que ela queria ver a si mesma no espelho, e às vezes só conseguia vê-lo. Não se encontrava mais no corpo que vestia! E isso incomoda qualquer ser alado, qualquer humano que sonha, que precisa respirar, que não sobreviveria sem poder voar.


E ele não entendia, ou não queria entender. Só fazia amar mais, até ver que não conseguiria. E trancou sua amada no quarto onde tanto foram livres. Fechou as janelas com amor, enquanto cadeava a porta com mágoa. Sabia que só fazia adiar a partida, pois se a mulher que tinha a sua frente era a mulher que conhecera, não seria aquilo que a seguraria.


- Infelizmente, terei que partir. Queria que você aceitasse, e me deixasse ir como alguém que passou por sua vida, regou seu jardim, mas que agora parte para regar outros.

- Mas como vou viver? Quem vai regar o meu jardim? Isso é UMA LOUCURA!

- É, e exatamente por isso que eu estou partindo. Você se esqueceu das loucuras DE AMOR. Só faz me sufocar, não percebe que eu quero sentir saudades? Não vê que eu queria receber uma carta sua de muito longe, para querer te ver não mais que de repente?

- ... Já sei! Vou buscar um jantar romântico, alugar um filme romântico, e nós veremos com muito amor!


E quando voltou, ela não estava mais lá. Como poderia, se a chave de sua mágoa ainda estava consigo? Vasculhou em sua casa de amor pela amada, mas só o que encontrou foi o silêncio. Foi então que entendeu. Voltou ao quarto, e olhou para o alto. Viu um ponto negro se afastando no céu, bem longe.


Na ignorância de seu amor sufocante, esqueceu-se de que enquanto a razão caminha pelos corredores, o coração possui asas.



Thuan B. Carvalho

26 de jan de 2010

Num restaurante, 15/06, 21h35min.




Ele sorri, demonstrando timidez. Ela sabe que aquela timidez é apenas máscara, escondendo qualquer outra coisa que seja. Passou um bom tempo tentando decifrar essa "outra coisa", mas já tinha concordado com a conclusão de que o homem que se encontrava em sua frente era um mistério sem pistas, aquilo que não se entende, claridade sem luz.


- Se a lua nascesse mulher, ela teria o brilho dos seus olhos..


Ela olhou para os dois lados, enquanto um leve assopro percorria seu corpo fazendo-a estremecer. Ela sentiu frio. Ele sentia calor.


Não pôde conter o sorriso, pois mesmo que aquelas palavras soassem como a cantada mais usada nos últimos dez anos, ouvidas da boca dele elas pareciam melhores..ele sabia lidar com as palavras, o cretino.


- Você não tem vergonha? Disparou ela, levando a taça de vinho à boca, ainda sorrindo pela cantada lisonjeira. - Eu sei o que você é. Acusou em tom de superioridade.


E realmente sabia. Sabia e tinha medo.


- Sabe, é? Ele olhava. E ela não resistia àquele olhar.


Ela não só sabia, como tinha certeza. Ele era uma espécie de arquiteto da própria liberdade, um anjo errante, mudando sua teia do destino a cada passo dado. Ela tinha medo de o acompanhar. Tinha medo de estar ao lado dele quando aquele olhar calmo virasse erupção. Tinha medo e era por isso que ainda não estavam juntos...porque ela ainda podia, e o ignorava.


Ele bebeu de sua vodka, e sentiu o estômago dar uma volta. Notou, olhando nos olhos dela, que ela compreendia toda sua essência. Compreendia, mas não entendia. Tudo o que queria naquele momento era levantar-se da cadeira, imaginar não ter ninguém mais naquele restaurante, e beijá-la. Era o que queria, porém, seu bom senso dizia para ter cautela. Fazia tempo que não se viam, e não era por conta daquele sentimento antigo que ele deixaria-se levar, fazendo talvez uma besteira. Um perfeito cavalheiro.



Ela, que não tinha obrigação nenhuma de ser "cavalheira", não era aspirante a poeta, não dava a mínima para quem estava ao redor e não costumava seguir seu bom senso; levantou-se da cadeira, puxou o rosto dele mais para perto, e fez acontecer.





Thuan B. Carvalho