23 de fev de 2010

1 + 1 = 1


- Eu vou ficar com você para sempre.
- Suas promessas são tão palpáveis quanto um sonho - ela rebateu.
- Depende do jeito como você trata seus sonhos... - ele sorriu, dono da verdade.
- O que você quis dizer? - ela desafiou. Queria ouvir aquilo.
- Bom, eu costumo correr atrás de meus sonhos até que se tornem palpáveis. Realmente são abstratos no início, mas com o tempo ficam concretos. Estar com você aqui, por exemplo, no começo era só um sonho que eu tinha.
~
E o que ela conseguiu fazer foi sorrir, derrotada. Ele tinha mania de inverter a realidade, até que o preto virasse branco ou vice-versa.
~
- Eu gosto de você...
~
~
E aquele sentimento pairou acima dos dois, inabalável, enquanto só as mãos permaneciam entrelaçadas sobre os lençóis.


Thuan B. Carvalho

15 de fev de 2010

Help me.


Pensou ser uma maldição ser o único sobrevivente daquele naufrágio. Flutuou por um dia inteiro sobre uma das peças do navio até que, já desacordado, bateu numa ilha inóspita; totalmente selvagem. Bebeu da água dos cocos, comeu das frutas das árvores; satisfez-se. Mesmo depois de um ano passado, ele ainda via, invariavelmente, helicópteros de salvamento rondando aquela área, talvez procurando por sobreviventes do tal naufrágio. Sem pestanejar, escondia-se o máximo que podia, desarmava sua pequena cabana feita para se proteger dos temporais, e aguardava, até que o monstro aéreo fosse embora. E foi assim por um bom tempo.



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No litoral brasileiro, a criança nadava eufórica, jogando seu pequeno corpo contra a espuma das ondas. Foi numa dessas que ela sentiu algo sólido bater em sua coxa esquerda, e se perder na espuma. Ligeira como só uma criança curiosa pode ser, enfiou a mão e pegou a garrafa causadora do choque. Olhou atentamente, e correu até a beira, onde o pai vigilante observava-a.


- papai, olha só o que eu achei. Tem um papel aqui. - disse ela, totalmente excitada pela nova aventura iminente.

- deixa o papai ver... - e pegou a garrafa das mãos da filha, abrindo-a com certa dificuldade, e extraindo o papel velho e amassado.

- e então pai, o que diz? - a curiosidade não cabia naquele corpo esguio.

- er... não é nada. Nada mesmo. Está em outra língua. Veja só aquela onda!


E a filha correu, excitada por mais uma aventura no dia, que era voltar a chocar-se contra as ondas. A aventura anterior da garrafa secreta lançada ao mar por piratas já fora apagada de sua mente.



Enquanto isso, seu pai sentou-se na areia e refletiu sobre aquele papel agora em seu bolso.



Uma frase bem formada, em letra de fôrma: DEIXEM-ME EM PAZ!




Thuan B. Carvalho




Só para pontuar, eu prefiro deixar com a mágica da imaginação a maneira como o náufrago conseguiu uma garrafa, caneta e papel. Porém, se quiser uma alternativa real, pode começar a pensar em onde pode chegar o lixo com o qual você polui os rios e o mar.

9 de fev de 2010

Quotidiano V - Seriedade para Poucos





















Na cobertura do prédio, bebiam e faziam acontecer. Estavam bebendo há seis horas, um grupo de dez pessoas, cinco casais; todos amigos de faculdade fazia dois anos. O céu enluarado estava digno de um quadro no hall de entrada.

Ele rumou para a varanda, seguido de dois amigos e três amigas. Quando se debruçava no parapeito a fim de sentir o ar limpo dos lugares mais altos, sentiu o cheiro que lhe desagradava em maior proporção. Principalmente por se tratar de amigos seus. Cheiro de fumaça de cigarro.

Olhou com desdém para seus amigos, desafiando-lhes a oferecer. Quatro dos quais entenderam o olhar ácido, mas a garota, talvez pelo elevado nível de álcool no sangue, estendeu-lhe a mão com o objeto.


- ah, vamos lá. Só uma vez não vai fazer mal para você. É sério.

- Meu pulmão vai muito bem, obrigado.

- Deixe de ser careta. Uma vez só, poxa. Como você vai saber que é ruim sendo que nunca provou? E outra, eu não sou viciada. Paro quando quiser.
Ele não pôde deixar de sorrir. Estava ouvindo aquilo fazia dois anos, desde quando ela entrou na faculdade e começou a fumar. Antes realmente não era viciada.




- Tudo bem, passe para cá.
Pegou o cigarro das mãos dela, e jogou do último andar do prédio. Ela olhou surpreendida, e disparou.


- Você é maluco? Isso custa DINHEIRO! Putz, não esperava isso de você.. Não mesmo. Sua criança.



Era a hora.


- Ah, não esperava isso de mim? Então finalmente temos algo em comum. Eu não esperava que você fosse me oferecer algo que me fizesse mal, algo em que eu poderia ficar viciado, algo que você compra e usa SABENDO QUE FAZ MAL.
Dizendo isso, pegou a caixa das mãos dela, que estava prestes a acender outro, e virou. Na parte de trás, o retrato de um câncer provocado pela ingestão de cigarro. E fechou a cara. Olhava para a garota com o mais sério dos olhares, passando a imagem de alguém ofendido e enraivecido.

Ela enfim se tocou, e olhou para os dois lados, ruborizada.


- É que eu... Desculpe-me.


E não fumou mais, naquele dia.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano IV - Light out, Black in



Plaft! Também pudera, com um relâmpago daquele porte não haveria como a luz não acabar. Acendeu uma vela, usou o fundo do copo como suporte, e iluminou o quarto para continuar lendo. Não ouviu a multidão gritando apavorada, nem sentiu o medo das pessoas nas ruas, simplesmente porque do claro veio o escuro. Ignorou os muitos pedidos a deus para que a luz voltasse, simplesmente para que terminassem de assistir à novela.



Não, ele realmente não fazia parte dos outroscentos que choravam o fim do mundo só porque a energia elétrica havia se esvaído. A luz da qual ele necessitava emanava de si.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano III - Reflexão


Hoje fizeram com que eu pensasse;


É bem verdade que eu amo o português e as palavras ..


mas escrevo mesmo é pra fugir da realidade.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano II - Milésimo de Segundo da Eternidade



Ele passava no passeio da praça. Ela, vinha no passeio contrário. A contramão do amor.



Foi quando os olhares se encontraram.



Ele fixou seus olhos nos dela, e o ambiente urbano voou para longe, como num filme de ficção, trazendo para si uma praia deserta. Ele Adão e ela Eva; os únicos seres na face da Terra. Imaginou o signo do amor da sua vida, se combinaria com seus sonhos aquarianos. Pensou se ela gostaria de guerra de travesseiros numa manhã de domingo, quando acordassem embebidos de amor e álcool. Imaginou-a entrando consigo num restaurante formal mineiro, onde seriam os únicos na pista a dançarem enquanto os outros jantavam. Viu perfeitamente ambos andando de mãos dadas no calçadão da cidade, enquanto ele carregava a filha dos dois nos ombros. Quase chegou a perguntar com o olhar se ela gostaria de presentes feitos à mão, de sítio, de praia, de família, de piadas, de advogados, de surpresas, de viagens, de amor...


Ela olhava aquele rapaz que a encarava. Tinha um “quê” que a atraía. Pelas roupas que usava, apostaria tudo como tinha mau gosto para escolher sua combinação. Chegou a ver a mãe do rapaz escolhendo as roupas para ele vestir, e armou um sorriso de canto de boca. Os óculos até conferiam um ar intelectual, e ela pensou se ele estudava, se garantiria um bom futuro aos seus filhos. Barbas mal feitas agradavam-na. Sem piscar os olhos, pensou que ele seria uma ótima companhia para tomar um açaí na beira da praia, que parecia ser do tipo de caras que surpreendiam, e que talvez fosse ser um ótimo pai. Pai dos filhos dela, quem sabe? Ruborizou levemente com o pensamento e conseguiu, inexplicavelmente, balançar a cabeça para afastar o pensamento sem que seus olhos se desviassem dos dele.



E quando se cruzaram...


Simplesmente continuaram a andar, deixando que a timidez e a covardia superassem a vontade daqueles corpos de se unirem. E foi essa troca de olhares o chamado “milésimo de segundo da eternidade” em que mais duas almas deixaram de se satisfazer.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano I - Almas que Choram



Ele voltava do clube a passos assimétricos, o calor extremo incomodando cada célula de seu corpo, mas mesmo assim cantarolava baixo um samba do qual queria se lembrar fazia uns minutos.


Repentinamente, chuva. Olhou para o céu intrigado, e havia apenas uma nuvem tímida, mas que se esforçava bastante, fazendo cair uma chuva mensurável. Ele fechou os olhos, e levantou as duas mãos ao céu, agradecendo a chuva sem desmerecer o calor. Ao seu redor, os pequenos rebuliços de transeuntes que há pouco praguejavam sobre o calor infernal agora corriam para baixo das marquises a fim de não se molharem com a chuva. Eterna complexidade do ser humano.


O tempo pareceu gostar de ser repentino, e do jeito que trouxe a chuva, levou. Porém, deixou um arco-íris, fragmento sublime que o rapaz não pôde deixar de perceber enquanto olhava para o céu. Flagrou o ocorrido por uns minutos, até que retirou o celular do bolso e começou a tirar fotos, pensando em mostrar para as pessoas depois como era lindo o tal do arco-íris.


Os transeuntes, por serem só transeuntes, ainda transitavam paralelos ao rapaz, com pressa de chegar a um lugar qualquer, novamente reclamando do calor. Viam o rapaz tirando fotos, olhavam para o céu, e exalavam um “ah, um arco-íris”. Contudo, eles já haviam deixado que aquilo se tornasse corriqueiro. O arco-íris passou a ser só mais um acontecimento efêmero de um dia em que chove enquanto faz sol, e até tinha sido explicado fisicamente. Olhavam para o rapaz, e pensavam “louco, coitado”.



Enquanto isso, no interior dos transeuntes, as respectivas almas que jamais compreenderam o comodismo de seus corpos choravam por não terem nascido no corpo do “louco”, do “coitado”. Desejavam intimamente renascer num corpo daqueles da próxima vez.




Alheia àquilo tudo, a alma do rapaz sorria, extasiada. Jamais se acostumaria com a mania boba de seu corpo de achar a vida linda todos os dias. Achava até que estava apaixonada.





Thuan B. Carvalho

5 de fev de 2010

Fatalmente Amor.






Viviam bem, obrigado. Pareciam feitos um para o outro: almas que se separaram na maternidade, ou qualquer outra coincidência trovada por Cazuza. Completavam-se tanto que às vezes ela se pegava encarando o espelho, de tanto que o via em si. Amor de verdade.

Moravam numa casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada! Sonharam viver num lugar aberto, para fazer livre o amor até fisicamente, quando trançavam pelos corredores sentindo a luz do sol, a brisa da noite, ou os respingos de chuva. A liberdade transcrevia-se ali.


Porém, (já reparou em como tudo tem um porém?) fez-se sólida a máxima de que o amor é mortal, posto que é chama. Ela quis seguir sua vida, lançar a âncora em outras ilhas, içar velas e zarpar. Ele, o último dos românticos, jamais aceitaria ter que deixar ir a menina de seus olhos. Sua vida. Sua luz.


O que ele não entendia é que a estava sufocando com amor. É, isso mesmo. O lado possessivo do amor, aquele lado com o qual ninguém faz poesia. Era tanto amor, tanto viver, tanto tempo passado juntos, que ela queria ver a si mesma no espelho, e às vezes só conseguia vê-lo. Não se encontrava mais no corpo que vestia! E isso incomoda qualquer ser alado, qualquer humano que sonha, que precisa respirar, que não sobreviveria sem poder voar.


E ele não entendia, ou não queria entender. Só fazia amar mais, até ver que não conseguiria. E trancou sua amada no quarto onde tanto foram livres. Fechou as janelas com amor, enquanto cadeava a porta com mágoa. Sabia que só fazia adiar a partida, pois se a mulher que tinha a sua frente era a mulher que conhecera, não seria aquilo que a seguraria.


- Infelizmente, terei que partir. Queria que você aceitasse, e me deixasse ir como alguém que passou por sua vida, regou seu jardim, mas que agora parte para regar outros.

- Mas como vou viver? Quem vai regar o meu jardim? Isso é UMA LOUCURA!

- É, e exatamente por isso que eu estou partindo. Você se esqueceu das loucuras DE AMOR. Só faz me sufocar, não percebe que eu quero sentir saudades? Não vê que eu queria receber uma carta sua de muito longe, para querer te ver não mais que de repente?

- ... Já sei! Vou buscar um jantar romântico, alugar um filme romântico, e nós veremos com muito amor!


E quando voltou, ela não estava mais lá. Como poderia, se a chave de sua mágoa ainda estava consigo? Vasculhou em sua casa de amor pela amada, mas só o que encontrou foi o silêncio. Foi então que entendeu. Voltou ao quarto, e olhou para o alto. Viu um ponto negro se afastando no céu, bem longe.


Na ignorância de seu amor sufocante, esqueceu-se de que enquanto a razão caminha pelos corredores, o coração possui asas.



Thuan B. Carvalho