23 de jul de 2010

Desespero em Cores


*

Trace uma linha imaginária

Erga um muro de contas ao redor de si

E grite.

Tão alto quanto conseguir

*

Mas se mesmo assim

Mesmo depois de gritar

Espalhar sua acústica monótona pelo ar

Se ainda quiser me odiar

Entenda.

O mais rápido que puder entender

*

Foi você meu mais iluminado céu

Amarelo-estelar

Branco-lunar

E quando descobri seu véu

Provei do seu fel

Desilusão.

*

Então fizeram sentido minhas dores

Cores.

amarelo-anemia; branco-nada

*

Meu mundo agora é fosco

Céu negro

Mar cinza

Ar de metal

e palpita meu coração enterrado no quintal.



~ Thuan Bigonha de Carvalho

16 de jul de 2010

Am… (?)

A campainha.

Impressionante como aquela leve badalada vinda da porta produzia a sensação equivalente a de uma injeção de adrenalina em seu corpo. Seu coração batia no ritmo das batidas da visitante, enquanto ele passava as mãos nervosas no cabelo, em frente ao espelho, para ficar mais apresentável.

Seguiu até o hall e abriu a porta, encontrando aquela princesa ali parada, observando. Marie trazia os olhos levemente umedecidos, o que John logo percebeu, quando tomou-a pelas mãos e a abraçou. John pensava no motivo de os povos até hoje não tomarem o perfume de Marie como uma arma potencialmente perigosa. Bastava que soltassem a garota com seu cheiro num país, e John tinha certeza de que tal país cairia de joelhos aos seus pés.

Marie é demais.

- John, muito obrigado por me receber nessa noite de sábado. Sei que estou atrapalhando algum encontro seu, mas obrigado mesmo; eu realmente estou precisando. Você é um ótimo amigo.

Amigo. Amigo. Amigo.

Aquelas palavras ressoaram na cabeça do rapaz, fazendo com que ele se perdesse da admiração por uns breves instantes, para se lembrar do panorama pelo qual a garota o via. E ela o tinha como amigo.

Era bem verdade que ela deveria conhecer as intenções de John, que desde que se entendia por homem era apaixonado por Marie, mas ela o via como um amigo. Enquanto ele só pensava em mergulhar naqueles lábios borrados de batom, ela queria um abraço e um conforto. E sobre o cancelamento do encontro, era mentira. John ia ligar o computador e acessar qualquer site de sacanagem. Mas quem precisa saber disso?

- Você sabe que pode contar comigo, Marie. Para o que quiser.

John sorriu. Marie sorriu, entre algumas lágrimas. E se sentaram na cama. Foi lá que Marie desabou. Contou sobre seu problema, sobre como estava infeliz, sobre como queria que as coisas fossem diferentes com os homens. E John sabia.

Marie nunca assumiria, mas também amava John. Enquanto não assumia, mantinha aquele relacionamento como uma amizade, e tratava todos os outros relacionamentos como um lance, nada mais do que prazer. Curtia, “recurtia”, e sempre repercutia ali: ambos conversando, ela chorando, ele acalmando. Era uma sina dolorosa. Principalmente para ele.

Continuaram conversando, até que Marie pegou no sono. John tirou-lhe os sapatos, ajeitou-a na cama, e cobriu-a com sua colcha. Deitou-se ao lado dela, terminou de ver o filme, depois ficou encarando o “sobe-desce” do corpo da garota, que respirava pesadamente enquanto dormia.

Quão indescritivelmente lindos eram aqueles olhos fechados?

Quão indubitavelmente linda era aquela respiração cansada?

Quão irremediavelmente apaixonado John estava?

Sacudiu a cabeça, passou a mão levemente pelo rosto de Marie, e acabou adormecendo.

E no outro dia, mais uma batalha a ser vencida. John acordou, e encontrou Marie de pé, vestindo apenas calcinha e uma camisa larga dele, fazendo o café. Sentou-se na mesa, atordoado. Marie sorriu, deu-lhe um beijo na bochecha, e serviu ovos mexidos e torrada. Ele queria MARIE mexida com torradas no café, mas não disse nada. Guardou o pensamento para si, enquanto observava, sem que ela percebesse, aqueles contornos que ele tanto amava.

- John, muito obrigada MESMO. Você é um anjo e não sabe.

Os pensamentos de John no momento estavam longe dos afazeres de um anjo, e ele só conseguiu sorrir.

- Quando precisar, Marie... Quando precisar.

E a frase ficou no ar, enquanto ela se despediu, vestiu suas roupas e saiu. Virou-se para trás por um breve momento, jogou um beijo e piscou os olhos. E se foi.

Levou consigo todo o seu perfume, toda a essência e toda a vida de John.

“Esse rebolado um dia me mata”, pensou John.

Sem saber que.

Dia após dia.

Morria.

- Thuan B. Carvalho

5 de jul de 2010

Ruthina


E assim como em todos os finais de semana dos últimos quatro meses, Ruth saia de seu “ponto” e dobrava a esquina. Suas sandálias de salto alto fazendo um “toc toc” tão rápido quanto a vontade de que ninguém a notasse. A meia fina acompanhava toda a perna bem delineada, até onde a saia jeans (extremamente) curta conseguia tampar, não deixando muita coisa para a imaginação de quem fixasse o olhar na garota por alguns segundos. A barriga toda de fora, uma mini-blusa branca e o sutiã preto aparecendo no decote completavam o traje noturno da garota, além dos brincos, anéis e pulseiras. Os poucos carros que passavam por ela não poupavam buzinadas e gritos pouco honrosos, dos quais ela preferia não se lembrar.

Ruth deixou-se guiar, até que seus pés pararam diante de um pequeno portão de grades cinza-descascado, e tocou a campainha. A vizinha da esquerda, novamente, reparou na garota e fez um comentário maldoso com a cunhada, que tomava café em sua casa naquele dia. “é a terceira vez que vejo essa menina tocando na casa do Oswaldo. Desde que ele perdeu o emprego começou a beber e só quer saber da boa vida. Coitada da garota, tão nova, veja só que mundo cruel.” E apesar do comentário cheio de princípios morais e respeito, continuou a levar seu chá à boca, como se aquele mundo cruel fosse culpa de qualquer pessoa ali por perto, menos dela.

A garota esperou impacientemente, até que uma voz rouca soasse da casa velha, mandando que “o inconveniente” entrasse, se fosse algo importante. “Estou MUITO OCUPADO”, berrou ele. “Entre se for importante; se não for, pode dar meia-volta e desaparecer junto com sua inconveniência.” Ruth destrancou o portão enferrujado com dificuldades, e pôs-se a subir as escadas. Já sabia o caminho, por isso nem acendeu as luzes, indo diretamente ao quarto. Oswaldo estava deitado em sua cama de madeira velha, no quarto extremamente mal iluminado, acompanhado por dois maços de cigarro e uma garrafa de cachaça. Aquele quarto era a personificação da morte. Janelas e cortinas fechadas; lençóis sujos; a televisão ligada; a parede, outrora branca, já meio amarelada e expressando claros vazamentos internos; o pequeno jarro de flor, que era a única coisa que poderia dar um pouco de contorno vivo ao ambiente, estava no chão, entornado, dando lugar à garrafa de cachaça e ao controle remoto na mesinha de cabeceira.

Ela entrou, e viu a sombra de reconhecimento nos olhos fundos e opacos do homem. Ele perscrutou-a, de cima a baixo, dando um meio-sorriso amarelo de desaprovação. “Espero que dessa vez seja mais do que estou esperando, menina. Ande, venha logo.” E ela foi. Entrou no quarto, chegou perto da mesa de cabeceira, colocou o envelope que trazia nas mãos, e olhou para o homem deitado como se a vida pudesse ter sido diferente, como se pudesse ter sido mais generosa. Antes de concretizar aquele ato obsceno, ela permitiu-se duvidar de deus. Aquilo se tornara corriqueiro nos últimos meses, e continuaria por toda sua vida, pois nem mesmo um milagre tiraria aquele senhor da labuta.

E não tinha mais para onde correr. O ato teria que ser feito. E ela fez. Distorceu a realidade de qualquer mundo que se diga normal, contrariou qualquer expectativa de qualquer pessoa que acompanhasse a cena por fora, fez qualquer um repensar sobre o que pensa da vida, qualquer um se comparar à vizinha que criticou acidamente a atitude de Ruth sem nem saber do que se tratava, passando para o “próximo” qualquer tipo de problema que possa ser imaginado e que sirva de comentário na mesa do almoço. Praticando tudo isso num milésimo de segundo, Ruth esperou que a lágrima rolasse seu rosto e se despediu com a frase mais obscena do que teria sido qualquer ato que ela praticasse ali, com aquele homem:

“cuide-se, pai.”



- Thuan B. Carvalho