30 de nov de 2010

Crise de Inconsciência


Na verdade eu não sou. Não existe quem sou eu. Me encontro no intervalo vago entre um suspiro e outro de meu próprio coração. Estou entre as batidas salpicadas de amor. No lapso temporal TUM - TUM. E ali estou eu. Sou o que não posso ser, sou a parte ruim, o lado negro. Sou a parte de mim que te assustaria, se você soubesse que existe, claro. Sou suprimido. Sufocado. Costumo não ser exprimido por nem uma hora sequer do dia. Mas há dias em que apareço. E nesses dias, ah nesses dias! Sou o veneno mais colorido. A picada que mais fere. Sou a noite da sexta-feira 13. O eclipse de meu próprio coração. Para que você tenha noção de quão perigoso é o chão onde agora você pisa, prendi sua atenção por dois preciosos minutos tentando explicar quem eu sou, sendo que na verdade, na verdade que mais chega perto de mim - uma contradição de uma inverdade mais do que clara -, não sou.

Thuan Bigonha de Carvalho

26 de nov de 2010

Vem.


Vem, vem ver a felicidade da janela

Vem, não demora.

Vem, receber esse sopro de primavera

Não a deixe ir embora



Vem, vem correndo ao encontro dessa paz

Vem, tá na hora.

Vem, que ela à nossa negligência se desfaz

Não a deixe ir embora



Vem, vem depressa te aquecer em sentimento

Vem, não chora.

Vem, encontrar na felicidade um acalento

Não a deixe ir embora


Vem, vem comigo trançar este caminho

Vem, é agora.

Vem, que eu não quero ser feliz sozinho

Não me deixe ir embora.



Thuan B. Carvalho

25 de nov de 2010

Existe vida após o amor?

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Sentou-se no sofá, como quem descansa. Acabara de chegar do trabalho, abriu uma “longneck” bem gelada, e agora conferia as mensagens na secretária eletrônica, enquanto ligava a televisão para assistir ao jornal. Apertou então o botão verde, descontraído, para ouvir a primeira das mensagens.

“amor, infelizmente...”

Sobressaltou-se imediatamente, apertando o botão que cancelava a mensagem. “A voz dela novamente?” pensou. Olhou para todos os lados no apartamento. Seria possível? Por onde quer que fosse, ouvia aquela voz, e aquela mesma frase. Cancelou então todas as mensagens.

“Você deseja excluir todas as cinco mensagens?”

Sim! Sim! Era a resposta dele. Acomodou-se novamente na poltrona, relaxado. E de repente...

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Não! Ele não desejava. Não entendeu como aquilo era possível. Apertou então o botão novamente, para ouvir, resolvendo enfrentar seu medo mais temido: a perda.

“amor, infelizmente não posso mais ficar. Percebi, nesse tempo todo, que nossos caminhos se cruzaram mas não continuarão juntos. Somos tão diferentes quanto o sol e a lua, quanto o dia e a noite. Espero ter feito tudo certo no dia de hoje, porque tentei. Tentei fazer com que nosso último dia juntos fosse realmente bom para você. Bom, mas não inesquecível, porque na verdade, eu quero que você esqueça. Não queria ter que dizer isso, mas amanhã...”

E ele não agüentou mais. Apertou o botão que cancelava a mensagem com muita força, correu pelo apartamento, ergueu o vidro da janela, e pulou. Se aquilo era realmente verdade, não tinha mais objetivo continuar ali, respirando. E flutuou por muito tempo. Tempo até demais. Começou a se indagar, enquanto caía, sobre a realidade daquilo tudo. E num baque surdo, que deveria ser sua caída, pulou sobre os lençóis, ávido e desesperado, com o suor frio inundando-lhe os poros. Olhou para o lado, e o que viu confirmou suas expectativas. Aquele pedaço de carta borrado de lágrimas continuava ali, intacto, deitado no travesseiro onde antes estaria a cabeça dela, e gritando suas últimas palavras legíveis dentro da mente dele: “não volto mais”. Apertava-o com muita força, quando ouviu o despertador. Oito da manhã. Hora de se levantar.

Arrumou sua cama, chorou silenciosamente, tomou um banho demorado, releu a carta, tomou um café reforçado, lamentou a partida dela, trocou de roupa, rasgou pedaços das cartas que nunca havia entregado, pegou a chave do carro e, antes de sair, lacrou seus sentimentos todos em casa. Claro, não podia expressá-los no quotidiano, na vida que todos julgavam normal.

E, afinal, fazia isso há treze anos.

 

Thuan B. Carvalho

9 de nov de 2010

E se fosse?


Não.

Hoje não falarei de sentimento

Nem da dor, nem do amor ou sofrimento

Içarei simplesmente letras ao vento

E hei de trovar o dia - impaciente e lento

É.

Descreverei assim o Romeu das telas

Encarnarei Pierrot e suas donzelas

E no final, por pena, quem sabe elas

Como Geni, hão de amar minhas mazelas

Sim!

Vou cantar aquela música do Aladin

Mas para a flor - e não mulher - Jasmin

Vou aos céus, convidar o Querubim

Para ver o pôr-do-sol perto de mim

Há.

Vou ao rio me benzer e me banhar

Ver São Jorge e o dragão a duelar

E nesse banho, que é de rio e de luar

Vou ver fundir-se em raiz meu calcanhar

Pronto.

Não vou tocar nesses assuntos delicados

Só quero o cheiro da bromélia - quente e doce

Queria eu vê-los fundidos, transformados

Sei que flor não é amor, mas e se fosse?



Thuan B. Carvalho

5 de nov de 2010

02/11


- Olá senhor. Por que choras?

- A perda foi grande. Desculpe-me a pomposidade, mas sou sentimental de nascença.

- Não vejo males nos sentimentais, vejo mal na tristeza que te ronda.

- E haveria de ser de outro jeito? É dia de celebrar os mortos.

- É certo que não, mas há o outro lado.

- Que outro lado?

- O outro. Há sempre dois lados. O difícil é enxergar ambos. Hoje é o dia dos mortos, então lamentamos as mortes. Ou. Comemoramos a vida. Entende? Ou seja, no dia dos mortos você comemora o fato de estar vivo, e nos outros 364 dias do ano, é dia do vivo!

- Entendo, mas pensando assim, os dias seriam todos felizes...

- Exato.

- Sempre sorrindo, sempre alegre.

- Sim.

- E não haveria um diazinho sequer para sofrer?

- Não senhor ....


Mas que mal lhe pergunte, PARA QUE VOCÊ QUER SOFRER?

...



Thuan B. Carvalho