25 de dez de 2010

Nature.


A caminhada não era longa, nem tampouco nova, mas havia alguma coisa estranha. Pressentimentos. O garoto caminhava a passos lentos sobre blocos de concreto bem encaixados uns entre os outros, e a coisa mais legal que conseguia fazer era coordenar as passadas e tentar não pisar nas linhas e rachaduras proeminentes do tempo. Suas feições mantinham-se da mesma forma, enquanto, sobre si, um céu cinza-pálido possibilitava a previsão de chuva.


Incisiva e delicada, a borboleta pousava e despousava na orelha do garoto, fazendo-o abanar o braço vigorosamente de tempos em tempos, mesmo assim sem olhar para o lado. Quando finalmente olhou para sua direita, um novo mundo se abriu diante de sua retina, bem debaixo do seu nariz.


Reparou, estarrecido, em cada detalhe daquela natureza particular que se lhe abria no meio daquele pântano de cimento sujo e sem-graça. Sua visão perscrutava cada canto, cada cheiro e cada cor. De primeiro pano, uma pequena goiabeira se entrecortava contra o lago imenso ao fundo. Ao lado da goiabeira, a vista do garoto pegava apenas o tronco de uma palmeira nem tão grande, mas que se curvava ao centro do lago, sem cair. A grama era muito verde ao redor do lago, e estava levemente úmida. Um pequeno dente-de-leão brotava tímido perto dos pés, agora já descalços, do garoto. Não tinha como, ele já havia se misturado. Um besouro lutava contra a gravidade tentando escalar aqueles pés.


Lá, bem adiante, no meio do lago, dois pássaros mergulhavam de tempos em tempos, mas não bicavam nada. Apenas se refrescavam, e era possível ao rapaz ouvir-lhes os sorrisos em forma de canto. En-canto.


Ao redor do lago, árvores e flores fechavam o ambiente, tornando-o uma ilha à parte do mundo cinza que os abraçava. E o garoto ficou ali, não sabe quanto tempo, nem quantos dias, nem meses. Soube apenas, ao sair, que tinha sido agraciado com os olhos da inversão.


Ao invés de ver prédios onde havia matas - comum olhar do ser humano moderno; ele via, onde havia prédios, abastados e carregados pés de jabuticaba.



Thuan B. Carvalho

2 de dez de 2010

Wall Exchange


É tão estranho. Eu achei que estava pronto. Mas não, você é mais diferente da parede do meu quarto do que eu imaginava.



Hoje mais cedo eu ensaiei essa conversa, e, tenho certeza, com todos os pingos nos “i”s e cortes nos “t”s. Como sua reação pode ter sido tão diferente? A parede do meu quarto continuou cinza, dura, fria e silenciosa ao me ouvir; enquanto você ficou vermelha, mole, quente e emitiu sons, que ecoam até agora no labirinto de meus ouvidos. Você gritou comigo, jogou seu sentimento na minha cara, e me disse para crescer. É claro que eu não esperava! Você queria o que? Ensaiei milhões de vezes, e tudo o que recebi em resposta foi o vazio. Você era mais tranqüila quando feita de concreto. Quando foi que você se derreteu? Você é mais pesada agora em minha consciência do que a parede que cerca meu quarto. Como você pôde reverter a situação em um instante, e me fazer chafurdar nos argumentos que eu mesmo expus? E você me explicou. E me mandou implantar um coração na parede do meu quarto antes de discutir qualquer coisa com ela. E eu entendi. Entendi que um coração muda tudo, que onde há um coração, há reações as mais obtusas, as mais inesperadas, as mais surpreendentes. E através de suas palavras, de meu orgulho que me cega, de meus argumentos infundados, foi que eu vi que eu sou frio, duro, incolor, vazio, silencioso.



É tão estranho. Eu achei que estava pronto. Mas não, eu sou mais parecido com a parede do meu quarto do que eu imaginava.



Thuan Bigonha de Carvalho