28 de jul de 2014

Carta para Isabel.

Querida Isabel,

Nos conhecemos faz tanto tempo e você nem mesmo sabe meu nome completo. Desde pequena sigo teus passos, tua alegria inabalável, tua mania besta de tocar em tudo e fazer surgirem cores nos dias nublados.

Eu te segui, Isabel.

No dia em que você mais precisou, no hospital, observei tua dor da janela entreaberta e por pouco, por muito pouco, não invadi o quarto e te levei comigo. Mas você abriu os olhos e aquela cor indefinível que sempre me assustou recuou minhas intenções e, mais uma vez, adiei nosso encontro.

Sim, eu sabia que seria para sempre.

Tua liberdade me acovardou, e eu sabia que se te prendesse em minha idolatria iria acabar por exterminar em ti o que mais tens de radiante: a arte. 

O movimento de tuas coxas quando danças, Isabel...
A delicadeza de teus dedos quando escreves, Isabel...
A maciez de tua voz quando cantas, Isabel...

E foi por isso, por respeito à arte que carregas no sorriso, foi por isso que adiei nosso encontro. Eu, tão pequeno em criatividade e tão miserável em ousadia, sabia que mais cedo ou mais tarde drenaria toda a magia que emana de ti e acabaria por tornar miserável nossa rotina.

Eu te tornaria rotina, Isabel!
Tu que és o avesso do lado de dentro da alma dos tigres, o inverso do lado de fora do olho dos furacões; tu, a inconstância que caminha!

Humilde de pretensões mas fiel ao destino, degustei de longe cada vitória e cada derrota de tua vida, ciente de que sem ti eu seria ruína, mas que em ti ruiríamos os dois.
Hoje, véspera de tuas setenta admiráveis voltas em torno do Sol, venho finalmente dizer que amanhã me verás.

Não sou belo, não sou criativo, não sou atraente e tampouco jovial, mas garanto que amarei cada pedaço iluminado de teu corpo e guardarei comigo o compasso acelerado de seu coração, Isabel, quando da iminência de me veres e ele nunca mais voltar a bater.

Com amor,
Morte.



Thuan Carvalho.

17 de jul de 2014

Ordem Pública


Celebra tua esperança provisória
para que a corroa, lento e insaciável
o doce veneno das aranhas,
Grita tua alegria ilusória
para que os cães, julgando intolerável
arranquem dela aos dentes as entranhas,


Ilumina tua desnecessária presença
para que os seres atraídos por doença
se amontoem sobre tua carne fraca,
Divulga tua vitória não vencida
para que as moscas, ao verem a ferida
proliferem-se de tua felicidade opaca,

Ah, carência inoportuna
viver já não preenche tua lacuna?

Ah, mergulho no vazio
não é de afago que precisas...
é de cio.


Thuan Carvalho.