25 de nov de 2010

Existe vida após o amor?

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Sentou-se no sofá, como quem descansa. Acabara de chegar do trabalho, abriu uma “longneck” bem gelada, e agora conferia as mensagens na secretária eletrônica, enquanto ligava a televisão para assistir ao jornal. Apertou então o botão verde, descontraído, para ouvir a primeira das mensagens.

“amor, infelizmente...”

Sobressaltou-se imediatamente, apertando o botão que cancelava a mensagem. “A voz dela novamente?” pensou. Olhou para todos os lados no apartamento. Seria possível? Por onde quer que fosse, ouvia aquela voz, e aquela mesma frase. Cancelou então todas as mensagens.

“Você deseja excluir todas as cinco mensagens?”

Sim! Sim! Era a resposta dele. Acomodou-se novamente na poltrona, relaxado. E de repente...

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Não! Ele não desejava. Não entendeu como aquilo era possível. Apertou então o botão novamente, para ouvir, resolvendo enfrentar seu medo mais temido: a perda.

“amor, infelizmente não posso mais ficar. Percebi, nesse tempo todo, que nossos caminhos se cruzaram mas não continuarão juntos. Somos tão diferentes quanto o sol e a lua, quanto o dia e a noite. Espero ter feito tudo certo no dia de hoje, porque tentei. Tentei fazer com que nosso último dia juntos fosse realmente bom para você. Bom, mas não inesquecível, porque na verdade, eu quero que você esqueça. Não queria ter que dizer isso, mas amanhã...”

E ele não agüentou mais. Apertou o botão que cancelava a mensagem com muita força, correu pelo apartamento, ergueu o vidro da janela, e pulou. Se aquilo era realmente verdade, não tinha mais objetivo continuar ali, respirando. E flutuou por muito tempo. Tempo até demais. Começou a se indagar, enquanto caía, sobre a realidade daquilo tudo. E num baque surdo, que deveria ser sua caída, pulou sobre os lençóis, ávido e desesperado, com o suor frio inundando-lhe os poros. Olhou para o lado, e o que viu confirmou suas expectativas. Aquele pedaço de carta borrado de lágrimas continuava ali, intacto, deitado no travesseiro onde antes estaria a cabeça dela, e gritando suas últimas palavras legíveis dentro da mente dele: “não volto mais”. Apertava-o com muita força, quando ouviu o despertador. Oito da manhã. Hora de se levantar.

Arrumou sua cama, chorou silenciosamente, tomou um banho demorado, releu a carta, tomou um café reforçado, lamentou a partida dela, trocou de roupa, rasgou pedaços das cartas que nunca havia entregado, pegou a chave do carro e, antes de sair, lacrou seus sentimentos todos em casa. Claro, não podia expressá-los no quotidiano, na vida que todos julgavam normal.

E, afinal, fazia isso há treze anos.

 

Thuan B. Carvalho

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