15 de out de 2010

São “o que” e “quem”?


Parou, pensou duas vezes, e então caminhou nem tão decidida quanto queria, os pequenos pés descalços trançando incertos sobre os paralelepípedos daquela rua sem saída. Erguia-se imponente diante de Madaleine uma casa de três andares, que a cobria temerariamente com sua sombra. Tocou a campainha apenas uma vez, sendo imediatamente recebida por uma moça de aparentemente 23 anos, que parecia estar saindo de casa naquele exato momento. A moça olhou Madaleine de cima a baixo, e disparou com uma voz doce: “olá menininha. O que posso fazer por você?” “bom, é que hoje é dia de São Cosme e Damião”, respondeu a menina, não sabendo como as palavras saíam de sua boca, tamanha era sua timidez. “eu queria saber se vocês estão dando docinhos aí... eu ainda não peguei.” Ao ouvir aquilo, a primeira sensação de Kate foi choque. Como não havia se lembrado do dia? Como não ouvira sequer falar? Sem sair do lugar, o choque deu lugar a uma onda de pensamentos que a sugou para um passado distante, onde uma multidão corria - mais parecendo uma revolução infantil - em busca das casas que davam mais doces - porque todas davam! E toda a cidade parava para ver a alegria nos olhos daqueles garotos que saíam cheios de si, e cheios de doces.


Kate retornou de seus devaneios e encontrou os olhos cansados de Madeleine, que pareciam já esperar pela resposta negativa. Inesperadamente, a moça foi tomada por uma alegria insuportável, e decidiu-se. Entrou em casa novamente, pegou em sua carteira a nota mais alta que havia, tomou a pequena criança pelas mãos e a levou à mercearia, onde “torrou” tudo em balas, doces, chicletes, pirulitos. Juntou tudo numa sacola e entregou à Madaleine, que não cabia em si de alegria. “Tome, é tudo seu. Só quero um abraço como retribuição”; e assim, recebeu o mais gostoso dos abraços, como fazia tempos não recebia. E aquilo lhe valeu o dia.


Enquanto acompanhava Madaleine, que voltava para casa saltitando com sua sacola cheia de doces, Kate pensou:


“Extinguiam-se paulatinamente os jogos de peão, as brincadeiras de queimada, de bandeirinha, as voltas de bicicleta, a praça, o kinder-ovo, a bala chita, os piqueniques, o pique-esconde, a bola de gude, a bola de meia, a manga furtada, o polícia-ladrão, a areia nos pés, os pés descalços, a roupa de ontem, a brincadeira de hoje, a travessura de amanhã; extinguia-se lentamente sua infância."


E como se não bastasse, levavam-lhe também o dia de Cosme e Damião.



~ Thuan B. Carvalho

Um comentário:

  1. rapaiz, esse eu vou ter que comentar. muito muito bacana o texto, e falo tudo. como o tempo vai consumindo a gente, e as coisas do passado vão sendo esquecidas, e apenas lembradas em algumas situações. criação tua? abraço Thuan!

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