19 de abr de 2010

(…)




É exatamente aqui que você se engana


Você não começou a ler coisa alguma


Os versos que escrevo deitado na cama


Não têm sentido nem meta nenhuma


(só estou escrevendo para que mais cedo eu durma!)




Mas o desespero das pessoas é tão grande


Por algum conselho que faça a vida ter sentido


Que se passam por eternos ignorantes


E terminam de ler sem que o texto seja lido


(isso não é um anúncio de refrigerante!)




O que eu vejo nos seus olhos dói em mim


E a você, que agora lê, é que escrevo


Se procura dessa vida um próprio fim


Tais palavras de tão vãs não têm relevo


(se não valem como é que eu me atrevo?)




Para provar fiz uma mera inversão


Que é quase tão patética quanto banal


Quando no texto procurar a conclusão


Vai perceber que meu começo é o final
(...)






~ Thuan B. Carvalho

18 de abr de 2010

Indisposição



Besteira é pensar que essa vida vale

O valor que vai vigendo voraz

Que alguém dê uma resposta que me cale

Ou para mim é tanto fez e tanto faz

Sou enérgico porque vivo do vento

Sou sagaz porque danço o que canta

E não é fácil obter meu acalento

Nem energético nem sagaz, sou criança



Quero mesmo é que, como nos ditados

A água fure a pedra de tanto bater

Quero o caos instalado nas cidades

Latente, letárgico, longínquo

Não, na verdade eu quero o caos aqui

Ao alcance desses olhos afogueados

Que a Terra chora pois não haverá de comer



Há em mim um tanto de loucura

Que se expressa livremente em minhas artérias

Esse tanto é o que sou, verdade intrínseca

Sendo o resto apenas parte de matéria

E há gentes que se escondem entre máscaras

Trocando até mesmo o bem-estar pelo seu ego

Definitivamente, não sabem essas gentes

Que só tampam um olhar que já está cego



O que ecoa de mim é o que traduzes

Dessas linhas carregadas de madrugada

A cidade já acende suas luzes

Galos cantam de forma desregulada



Existe agora uma questão bem relevante (cruzes!)

Para meu texto, é questão primordial (que furada!)

Espero que já tenha sido o bastante

Vou explicar então preste atenção:

Já voltei ao meu Estado Natural

Tenho rimas mas não tenho Inspiração.




~ Thuan B. Carvalho

Um tanto quanto Ryan



Ryan era diferente.


Ryan odiava usar máscaras de realidade.



Ryan chorava quando via alguém caído pelas ruas, sem provimento.


Ryan queria um mundo melhor; sem achar que vivia num mundo ruim.



Ryan não deixou que atrocidades se tornassem “comuns” em sua vida.


Ryan chorava.



Ryan não admitia as coisas que ouvia dizer sobre pessoas serem más.


Ryan pensava por livre e espontânea vontade.



Ryan ignorava ao máximo a influência da máquina do quarto poder.


Ryan ajudava quem achava que precisasse, quando podia.



Ryan acreditava no amor.



Ryan buscava seu caminho.


Ryan era diferente.



Ryan deveria ser você, ou você deveria ser Ryan?



~ Thuan B. "R." de Carvalho

11 de abr de 2010

Incandescente - Incansubinte



Passava das duas da manhã, e apesar de o outono mais gelado do que o de costume amedrontar a maioria das pessoas, ele cambaleava pelas ruas. Mas tinha destino. Arthur era loiro, olhos azuis penetrantes, corpo atlético levemente descuidado, barbas sempre feitas, pele oleosa e nariz adunco, lábios finos e bem desenhados. O que mais chamava a atenção, no entanto, era sua forma de caminhar. Era notado sempre, fosse qual fosse o lugar onde estivesse. Resumindo, o nome não remetia a um grande Rei à toa: Arthur tinha potencial.


As ruas estavam desertas, e uns poucos homens saíam dos poucos bares ainda abertos naquela madrugada de quinta-feira. Um vento gélido percorria as calçadas, trazendo o montante de folhas secas caídas com o decorrer do dia, enquanto uma umidade perceptível no ar indicava que, em algum lugar perto dali, havia chuva chegando. Arthur puxou o agasalho para junto de si, enfiou as mãos nos bolsos, e continuou seguindo seu caminho rumo à casa da esquina. Mantinha o cigarro preso entre os lábios, soprando a fumaça com uma graça inconfundível: fumar desde os quinze anos conferira-lhe certa habilidade naquilo, e ele constantemente se gabava. Era um pouco metido, na verdade.


Ele encontrou a casa, enfiou as chaves com dificuldade na fechadura, abriu o portão e entrou, tateando as paredes laterais para acender a luz.


A luz foi acesa e lá estava ela, sentada no sofá com os olhos ainda inchados. Rebecca conservava-se ao lado da lareira, meias grossas cobrindo os pequenos pés, o bonito rosto virando-se lentamente na direção da porta que se abrira.


- Você tem certeza mesmo dessa decisão, Beck? - Ele perguntou, a primeira coisa que disse quando a viu. Tinha jurado a si mesmo que não insistiria mais, e mantinha uma das mãos na maçaneta, enquanto aguardava ansiosamente a resposta. Suas mãos suavam e tremiam levemente, e seu coração pulava mais do que o normal dentro do peito.


- Acho que sim... - Ela respondeu. O cheiro de bebida e cigarro era sentido facilmente quilômetros de distância pela garota, e isso fez com que ela ficasse ainda mais tendenciosa a querer realmente aquela separação. Olhou Arthur de cima abaixo, não conseguindo esconder certo desejo daquele homem que tanto amava, mas que tanto a machucava. Ela sabia que não era culpa dele, mas como explicar isso ao coração? Ficar com ele a estava matando, e ela decidira pouco tempo atrás a dar um fim naquilo tudo. O problema foi que três horas sem ele já a fizeram repensar. Tudo bem em ficarem separados, mas o que fazer com o amor que subsistia?


Ele, bom leitor de mentes que era, entrou de vez no hall com a cabeça baixa e fechou a porta atrás de si. Caminhou decididamente para perto dela, e chegou muito perto. Foi quando a levantou pelo braço que ela viu no rosto dele o desejo, e entendeu. Ele jogou-a no chão como um macho trata uma fêmea, e aquele chão de hall de repente se transformou. Ambos tiravam suas roupas trôpegos, enquanto um novo odor se misturava ao álcool e ao cigarro. Cheiro de excitação, suor e desejo; o amor estava presente, mas quase não teve vez ante tanto sentimento. Ela mordia como se fosse o último ato de sua vida. Ele apertava como se ela fosse a última mulher de sua vida. Entrelaçaram os corpos atônitos, as chamas da lareira incendiando ainda mais aquela união, enquanto ele a beijava ardentemente. Tudo ardia naquela sala. Palavras foram dispensadas por gestos, e os gestos diziam tudo.


~


Ela acordou letárgica, atordoada sem saber o que acontecera. Copos quebrados e garrafas na mesa de centro, roupas rasgadas e os seios descobertos. Apenas uma réstia de luz brilhava na lareira, que ainda aquecia. Braços fortes envolvendo-a febrilmente. E pensou que o chão do Hall nunca fora tão aconchegante.

- Thuan B. Carvalho

Tempos (do) (Presente)s


Ei, você, que observa minha estupidez

Não vá me julgar, como se fosse um juiz

Na vida é assim, cada um sabe do que fez

E nem sempre as coisas saem como a gente quis.


Eu queria era a chance de tentar mais uma vez

E quem sabe entrar no time que se sente feliz...




Ei, você que me observa sou eu?

Privacidade parece não ser o forte

Eu olho meu rosto e vejo é o seu

O espelho me fez um perfeito recorte.


E esse recorte, será que doeu?

Dor, tensão, saudade, morte...


~


E aquele sorriso que é meu, cadê?

Guardou para quando estivermos a sós?

Não quero que seja um mero clichê

Mas por essa ausência, tornei-me um algoz.


Não existo mais eu, não existe você

O plural do presente agora somos nós.

~ Thuan B. Carvalho

6 de abr de 2010

Des Amor


- Amor, tenho algo importante a lhe dizer. Podemos nos ver hoje? - ele disse ao telefone, todo carinhoso.


- Hmm, eu também tenho algo a dizer, então um encontro hoje seria ideal - ela confirmou, nem tão amistosa assim.


~~


E naquela hora, naquele dia chuvoso, sentaram-se no restaurante que ele havia escolhido (previamente, bem previamente)


O garçom veio anotar os pedidos, até então tudo era formalidade.


- O que você tem para me dizer? - perguntou ela, um poço de curiosidade.


- Ah não, acho melhor você primeiro - revidou ele, um lago de cavalheirismo.


- Eu não tenho certeza mais se quero dizer... - ela ponderou, olhando para tudo menos para o rosto do namorado.


- Nem vem com essa, agora você vai ter que dizer. Eu só digo depois de você.


- Eu acho melhor não...


- Eu tenho CERTEZA de que é melhor SIM - definiu ele, olhando o garçom que já trazia a bandeja com as taças de vinho.


O olhar dele parou numa das taças e brilhou num suspense mudo.


- É a sua última chance, amor. Diga logo o que tem para me dizer! - ele suplicou, a última das súplicas.


- Independente do que eu diga, você vai me dizer o que tem para dizer depois? - ela protelou, já tendendo a falar


- Sim, prometo. Acho até que o que queremos dizer se parece - ele sorriu, achando mesmo aquilo.


Talvez tenha sido essa a frase que tenha mudado o destino dos dois para sempre, porque a partir daí ela percebeu que ele só falaria se ela falasse e que talvez ele quisesse a mesma coisa; e resolveu seguir em frente com o que vinha pensando em fazer há tempos. Tomou coragem (porque a bebida ainda não tinha chegado para ela tomar), inspirou, e começou:


- É que, bem... eu não sei como dizer isso. Na verdade eu tenho pensado durante todo esse último mês em como dizer, e o jeito eu já achei. Só não achei a forma de dizer sem te machucar. Então é o seguinte, espero que você não fique magoado. - Ela suava frio, mas sentia a coragem brotar - Eu tenho outro homem. E nós precisamos terminar.


Então o garçom colocou as duas taças de vinho em cima da mesa, e sorria num tom de “eu sei de tudo”. Deu uma piscadela para o rapaz, e saiu levando a bandeja. O rapaz olhou para todos os lados, menos para a namorada. Não conseguia. Não dava


- E então, o que você tinha para me dizer? - arriscou ela, para confirmar suas expectativas de que ele também queria aquilo


~


E ele olhou exasperado para a aliança de ouro que permanecia intragável no fundo da taça de vinho dela.




Thuan B. Carvalho

Des Encontro



Seguiu imponente percorrendo os trilhos


Na velocidade que o corpo suportava


Ungido da fé que umedecia os cílios


Atrás, bem atrás é que o orgulho ficava



De repente, faminta, por entre os ladrilhos; uma loba feroz os seus dentes mostrava; apenas defendia o território e os filhos; e por isso, só por isso é que ela rosnava. Girou nos calcanhares, esperto menino; e se embrenhou naquela mata densa; evitou que a loba lhe cravasse o canino; mas não evitou que ao fracasso sua busca fosse propensa.



E desembestou, comum desatino


A batida do coração parecendo mais tensa


Se aproximou do vilarejo pequenino


O nó na garganta denunciando sua presença



Então ele a viu, brilho matutino; desceu-lhe ao estômago a sensação mais intensa; sua voz lhe estrondava com a sutileza de um sino; ela era nele a personificação da doença. Tentou se esconder, mas fora em vão; seus olhos se encontraram com a força da dor; então ela veio em sua direção; nos olhos inda as mágoas de certo rancor.



Ele só queria uma explicação


Ela fora embora antes de o sol se pôr


Ela explicava que em seu coração


Brotava a semente de um novo amor



Ele não se conformava, cega paixão; perdera na hora todo o seu pudor; usou as palavras de baixo calão; transformou em ódio todo o seu calor. E ela chorou o mais triste pranto; choro da ave que abandona o ninho; mas não abandona porque tem outro canto; e sim porque sente da flor um espinho.



(...)



Voltou atordoado, cambaleando tonto


A mente tentando refazer o caminho


E dentro o coração, que outro queria tanto


Encabulado por voltar sozinho




Thuan B. Carvalho