22 de out de 2009

Paz e Química.


A julgar pela aparência, nunca imaginei que uma mulher tão física e mentalmente enfraquecida pudesse ser capaz de ir tão longe por um sentimento. Logo eu, que nunca duvidei dos meus próprios sentimentos, sucumbi por não acreditar no que outros sentiam.
Frida tinha o olhar gélido naquela noite em que me convidou para tratar de negócios em sua casa. Eu, solícito e ingênuo, não quis incluir tal desfeita à enorme lista que com certeza ela deve ter guardada, a respeito das ilusões as quais a fiz passar, mesmo que sem intenção, e acabei aceitando o convite. Ignorei os rugidos dos céus que anunciavam não outra coisa se não uma tragédia, e saí do restaurante Índigo, na esquina da Boulevard com a Terrier, enfrentando um temporal nunca antes visto em Basca. Ignorei também os últimos quatro anos, nos quais a obsessão de Frida atacava-me dia por dia, hora por hora. Ela não soube aceitar que eu não me sentia mais uma pessoa completa ao seu lado. Sim, um perfeito ignorante.
Apesar do afastamento, nosso trabalho nunca deixou que perdêssemos o contato, mesmo que fosse do meu interesse nunca mais vê-la. Ela como gerente da única editora da cidade, e eu como o escritor que sempre fui, mantínhamos contato intenso, e nem sempre amigável.
O táxi que nos levou à sua mansão na Praça Seis de Maio deveria estar à par do que estava por vir, pois demorou quase meia hora para conseguir arrancar, além de ter “morrido” por mais duas vezes durante o rápido percurso.
A casa de Frida erguia-se imponente margeando o lago da praça, como se controlasse a cidade de um lugar especial, e na verdade, controlava. A entrada rústica, com altas pilastras e um jardim extremamente bem cuidado denotavam bom gosto e devoção, juntamente com o enorme portão de carvalho que permitia acesso à casa. E como eu conhecia aquela casa.
- Não mudou muito, não é.. – arrisquei, enquanto ela me guiava pelo hall até a varanda.
- Acredito que certas mudanças podem causar sérios danos, por isso prefiro manter as coisas como são. – disse isso sem muita naturalidade, e suas palavras me cortaram como um ácido corrói o metal. Não precisava ter proximidade com as palavras para entender que ela referia-se às minhas mudanças, particularmente. Um ar gélido percorreu minha espinha, ao ouvi-la referir-se a “sérios danos”.


- Aceitaria um drink?
- Marguerita.
- Hmm, boa pedida. Vou acompanhá-lo, e enquanto isso sinta-se em casa.
- Obrigado. – respondi, ao sentar-me na confortável poltrona de chintz que ela conservava na varanda.

Segundos depois, Frida retornou com duas taças de Marguerita, e uns papéis para que fossem assinados, motivo pelo qual eu tinha comparecido ao local. Beberiquei o líquido displicentemente, alheio ao pó que subia amargo pela minha taça borbulhando levemente, denunciando a presença de alguma coisa a mais. Ignorante. Não foi preciso um minuto para que minha visão ficasse turva e começasse a escurecer, enquanto eu balbuciava, perguntando o que acontecia, e aquela mulher crescia perante a mim, com um sorriso hediondo nos lábios, transportando um amor que se transformara em ódio, de tanto ter sido ignorado. IGNORANTE. Como eu pude não saber? Como eu, que carregava nas mãos os calos de histórias e mais histórias nas quais as pessoas matavam-se por pequenas quantias em dinheiro, ou por orgulho, ou por honra, pude me encontrar tão indefeso?
Acordei com os braços e pernas dormentes, ainda translúcido, sem saber onde me encontrava. Vi-me deitado numa cama de hospital, com atas nas panturrilhas e nos braços, e uma a mais no pescoço. Respirava com dificuldade, e sentia a força que meu pulmão fazia para voltar ao seu lugar no momento da inspiração. Tudo doía um pouco. Ouvi o barulho da porta se abrindo, e Frida entrou com um jaleco de médico, transportando o mais desiludido dos olhares, e uma seringa de doses cavalares. A ponta da agulha brilhou entre seus olhos, enquanto ela se aproximava. Seus olhos encontravam-se marejados em lágrimas, mas ela tirava forças de um ódio vazio, um ódio que era palpável no ar, quase concreto. Ódio de verdade.
- Por que você fez tudo ser tão difícil, Dorian? - suplicou ela, fixando seus olhos nos meus.
- Frida eu não...o que você vai fazer? – respondi instintivamente, já imaginando o pior.
- Eu só vou tomar providências para que, já que você não vai ser meu nunca mais, não possa também ser de mais ninguém. Estou disposta a sacrificar você pelo meu sentimento; pelas horas de angústia que passo quando vejo você sorrir, sabendo que não sou eu o motivo do seu sorriso; pelo frio que eu sinto quando deito sozinha em meus lençóis sujos de solidão; pelo sangue que me sobe, paulatinamente, à garganta, e parece que vai explodir minhas veias, quando me lembro das suas palavras ásperas recusando o meu amor.


- Não é minha intenção. Você sabe que eu tenho apreço por você, e jamais faria algo que te machucasse. – tentei argumentar, sabendo que seria difícil, mas talvez ela não tivesse coragem de fazer o que tinha em mente.
- Você me machuca ainda mais com o falso sentimento escondido sob a pena e a indiferença que sente com relação a mim, será que você não percebe? Não tem como voltar atrás. Eu não posso mais retroceder.
- Isso não vai mudar as coisas, Frida. – disse eu, na última das tentativas.
Arrependi-me instantâneamente de tais palavras, pois os olhos dela encurtaram-se numa expressão de sombras e trevas enquanto se aproximava de mim lentamente, seu braço levantado segurando a seringa, se recortando contra a intensa cortina de água que rugia no vidro da janela do quarto.
No instante em que percebi o quão forte era o que ela sentia por mim, era tarde demais. Vi o quanto Frida estava diferente e notei que, nesses quatro anos, ela havia emagrecido mais do que o normal, ganhado traços no rosto que jamais tinha, o cabelo estava oleoso, coisa jamais antes permitida pela menina mimada e bonita de minha quase-infância; e a única coisa que realmente não havia mudado era a aliança de nosso noivado que nunca chegou a tornar-se casamento, e que ela mantinha na mão direita, desde que a conhecia.
Esse instante de compreensão veio tarde demais, e quando me dei conta de quanto tinha sido débil, e tentei gritar seu nome, fui sufocado por uma pontada ardente na garganta, que me fez tossir e me tirou o fôlego. Senti o líquido penetrando minha jugular, e espalhando-se como uma praga pelo meu corpo, que se paralisava na medida em que eu era inundado por aquele estranho líquido amarelo-acinzentado. Não vi luz no fim do túnel, nem repassei um filme de minha vida, como muitos me disseram que ocorreria nesse momento. Minha visão ficou turva e o que eu senti foi, pura e simplesmente, paz.
A paz pode ser o objetivo de nações e nações por todo o mundo, mas foi no segundo anterior à compressão daquela ampola sobre a veia em meu pescoço que eu realmente entendi que, na verdade, a paz é quente, viscosa e infinita; a paz é química.
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Thuan B. de Carvalho
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Esse texto é do início do ano, mas me senti bem para postá-lo hoje. Sinceramente gostei muito, mas acho que eu redigi o "final" de alguma coisa num momento de transe. Espero receber o início dessa história em breve, e publicá-la na íntegra. Hoje estou inspirado, eu acho. A chuva é tão.. motivante =].

Um comentário:

  1. esse é sem dúvidas, muito bom. e lembro que já tinha me mandado, mas não resisti a ler de novo. você escreve muito, thuan.

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