11 de mai de 2011

O Medo do Escuro.



A cidade amanhecia como de costume. Num primeiro plano, perto das três da manhã, os galos afetados pela mudança do ambiente rural para o urbano começavam a cantar. Lentamente, com o aproximar das seis horas da manhã, as luzes dos postes já apagadas pelo sol, a cidade ia se levantando com seus habitantes, lançando sua miscelânea de sons, cheiros, sabores e suores ao ar.



O dia transcorria, e não poderia ser diferente, como de costume. Todos são corajosos durante o dia. Pessoas conversam, riem, buzinam, discutem, dizem, são. No entanto, a maioria dessas pessoas era consumida pelo trabalho, e via o dia passar, como veremos agora, num piscar de olhos.



E então, inegável que só ela, surgia a noite. Vale ressaltar que a noite da qual falamos não é uma noite normal. Hoje a noite não tem luar, nem estrelas, somente nuvens cor de chumbo tapando o céu, quase invisíveis, mas extremamente ameaçadoras. Invariavelmente, as luzes dos postes piscavam, fazendo com que a maioria das pessoas, aquela mesma maioria que deixou o dia passar num piscar de olhos, acelerasse o passo em direção à própria casa. É, esse é o medo de escuro.



E de repente ele vinha.



A passos lentos com seus pés tamanho quarenta, aproximadamente, ele vinha quase num arrasto, parecendo que flutuava. O corpo estava ligado por espécies de fios luminosos, e seus braços torneados permaneciam incólumes naquela expressão de puro vigor. Sobre a cabeça, uma coroa que refulgia mesmo na ausência de qualquer luz externa. Os ouvidos mais aguçados do que o de costume, a boca frouxa expressando tranquilidade, o olfato notoriamente dilatado, e os olhos, a fonte de toda aquela luz, abertos numa intensidade inalcançável, parecendo enxergar além das nuvens que acortinavam o infinito. O som que produzia era o de uma espécie de flauta, que saía naturalmente de cada poro de seu corpo. Seus movimentos eram completamente desordenados, uma desordem quase proposital, dando a impressão de que o ser se alinhava ao eterno desalinho. Tudo ali era uma espécie de harmonia contagiosa, e cada pedaço da natureza que rodeava aquele ser fazia-se prisma, refletindo imediatamente aquela luz, e fazendo com que o escuro recuasse cada vez mais... cada vez mais ........cada vez mais ......................cada vez mais...




Pois quem carrega a eternidade consigo jamais conhecerá o medo de escuro, mas fará com que o escuro reconheça seu próprio medo:


A Luz.






Thuan Bigonha de Carvalho

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