A tarde avançava penosa, sem chuva e sem prosa, arrastando o dia
As horas - não queria ver, evitava saber! - mas ele já sabia
E junto ao clamor do coração, junto a toda a paixão, junto a toda magia
Junto ao outono que proclama o inverno, seu momento eterno lento se esvaía.
A sensação apertava seu peito, mas não tinha jeito, era a despedida
Por mais que o rapaz quisesse, com choro ou com prece, não tinha saída
Chegou a perder o respeito, bradou de mau jeito, contra a própria vida
E o tempo, mentor da quermesse, bradava: “se apresse!”, vou dar a partida.
Iansã, quão covarde e difícil é largar o meu vício por ter que partir!
Depois de tanta intimidade, lascívia, vontade que não vai sumir
Meu corpo em seu corpo era bruma, sereno e espuma, magos do porvir
E agora sou como orvalho que nasce do galho e não quer mais cair
Aquele momento infinito, cigano erudito, gravara-se a fundo
O amor sublimou tão sagrado, carícia e agrado, poema fecundo
E aquilo era contradição, pois seu coração comungava com o mundo
Mas já quando estrada pegava a saudade apertava no mesmo segundo.
Então toda aquela bonança ao virar lembrança era um tormento
Ele clamava sua Deusa de fogo - seu carma, seu jogo - no mesmo momento
E os Deuses se deliciavam porque se gabavam saber seu intento
E faziam se encontrar novamente, regavam a semente daquele amor violento.
O reencontro não era normal, o plano era astral, como antigamente
Quando os reis temiam pela magia, o padre só dormia com a igreja silente
Mas para ambos era o bastante, ele anjo errante ela estrela-cadente
Guiados pela coincidência, prazer da existência, num mundo doente.
A compreensão logo o tocou, seu corpo levou um pequeno recorte
E ele então se acalmava, não mais reclamava da falta de sorte
Sabia que mais cedo ou mais tarde a sua metade viria a pinote
E surgiria vestida de lua, tal qual alma nua, pra seu Dom Quixote.
Thuan B. Carvalho
Adorei as alusões mitológicas:
ResponderExcluir"Iansã, quão covarde e difícil é largar o meu vício por ter que partir!"
Sempre um melhor que o outro Thuan!