10 de set. de 2013

Mão Dupla


Eu me cansei, de fato,
de não andar na contra-mão
de respeitar esses sinais
e de manter os pés no chão,

Eu me cansei do fato
de ter que ter explicação
para explicar uma vez mais
que não se explica o coração,

Cansaço
De aço
Maciço;

Resquício,
És viço
Ou vício?


(Eu me cansei de não poder arriscar a vida nas ruas do teu corpo naquele segundo valoroso em que atravesso teus sinais vermelhos e ouço a rotina do teu trânsito ensandecida a buzinar em forma de palavras e dizer que estou errado por não parar e olhar para os lados como se eu fosse uma pequena vírgula no mundo dos teus significados.)


Thuan Carvalho.

23 de jul. de 2013

Atrás da Porta



Chega de recados mal dados de relatos fadados à devastação
Chega de calos pensados de fardos herdados da revolução
Chega e me cala falado e só fala calado pro meu coração.

Vai bendizer tua crença vai morrer da doença que assola teu imo
Vai refazer desavença vai ver quem dispensa teu eu bailarino
Vai e me volta criança e só cria esperança pro meu desatino.

Chega e sai sem demora do aqui e agora donde eu te preciso
Chega e sai nessa hora e finge que namora meu próprio sorriso
Chega vai me adora de forma sonora em segredo conciso.

Vai chega logo e me entorta e me planta e me corta pra causar teu palor
Vai chega e diz que não importa e sussurra “está morta” tua falta de amor
...
Vai chega e bate em minha porta
chega e invade minha aorta -
desabotoa meu interior.
Thuan Carvalho.

5 de mai. de 2013

Sagrada Escritura

Eu queria escrever um documento
Que livrasse o mundo de todo tormento
Como uma ode, uma epopeia ou poesia 
(e não tolerasse alguém em desalento
Nem por mais um dia).

Eu queria pôr amor em cada letra
Que, se lida, pela alma já penetra
Em bambos toques de não realidade
(e a força que essa prosa impetra
há de alentar nossa felicidade).

Eu queria ser deus para os ateus
Um holocausto feito por judeus
Madalena apedrejando Jesus
(e a todo culto, enfim, dizer adeus
revelando-lhes a verdadeira luz).

Então num belo dia ao acordar
A voz da vida veio me chamar
Pr’ouvir o que ela canta o tempo inteiro
(e ali, estatelado, a escutar
perdi-me qual agulha no palheiro).

Vento, flor, céu, mel, zunido de abelha
Mão, nariz, olho, boca, orelha
A vida é uma eterna adequação
(e da percepção veio a centelha
que ateou fogo ao pé do coração).

E das compreensões - a favorita
Tal poesia já se encontra escrita
No Amor e sua eterna infinitude.
(e documentos dão falsa guarita
- é nos olhos de minha senhorita -
que Ele me encontra assaz e amiúde).




Thuan Carvalho.

2 de mai. de 2013

Manoelizando a Rotina



Extasiado, arrebatado, engolido -
sou todas as derivações do arrepio dos pássaros
sob quatro sétimos de uma Lua mole
tentando tirar as letras
para dançar;
Outono tem cheiro de árvore com alaranjado,
me disse outrora um pássaro
sem se arrepiar
- e quando me inspiro
sou obrigado
a concordar;

A madrugada usa a escrita com delicada miopia
quanto mais longe - como saudade, passado, fotografia -
mais amuada a poesia;

Quando amanhece, o Sol deixa as letras oculadas...

(mas arrepiante mesmo é como as corujas se parecem com as palavras.)


Thuan Carvalho.

24 de abr. de 2013

Entre Linhas


Palavra palavra palavra palavra
no meio de tantos falantes, barulhos
ribombos, acordes, arrulhos
... espero calado o teu retornar,

Palavra palavra palavra palavra
no compasso entre cada palavra [o suspiro]
é que espreito teu sangue de tinta [um vampiro]
sugando do som nosso silenciar,

E dos gritos calados, contidos
de sentimentos ensandecidos
se encherá inteiro o coração,

E no Céu, mudo, se desenhando
discreto, me pego contando
estrelas entre as linhas da tua mão.
Thuan Carvalho.

14 de mar. de 2013

Poiésis


Que hoje o moderado seja parco
e atinja cada flecha o próprio arco,
Que hoje o falador seja loquaz
mas faça o silêncio que ninguém faz;

Que hoje o fim seja fenecimento
dando ao ponto do verso um elemento,
e ainda hoje o simples seja frugal
mesmo que no sentido literal;

Que hoje a troca passe a ser permuta
e de penas na mão, vamos à luta!
e que criança passe a ser petiz
versando alegre em seu próprio nariz;

Que hoje o esperto seja ardiloso
tornando-se das palavras fiel esposo,
e que avermelhado seja rubicundo
arrebatando em poesia o mundo.

Afinal, com que mais hoje há de rimar o dia,
Senão com a doce e indelicada poesia?


Thuan Carvalho,
em homenagem ao Dia da Poesia.

7 de mar. de 2013

Morre quem dá Ibope, não nasce ninguém.



Morre quem dá Ibope e não nasce ninguém.

A morte morreu ontem
morre hoje
e continua,
morte mansinha
que é minha
e sua;

Morrem bedéis
dragões
e reis,
morrem em bordéis
galpões
sem leis;

Alheios e vendados, seguimos
indiferentes a qualquer morte real,
cultuando a vida da casca que construímos
extasiados de extermínio virtual

(mas o pranto continua no hospital:
"nasceu chorão meu filho que não tem nome
e ao chorar, se engasgou com a própria fome
nasceu formoso, ia se chamar Brasil
eu quis salvá-lo, mas ao gritar, ninguém ouviu.")


Thuan Carvalho.

4 de fev. de 2013

Com Ti No Ar


Vai que a palavra
Como quem não quer nada
Como quem com a pá, lavra
Queira ser inventada?

Há mais sentir
(se não se para pra pensar)
Do que em diluir
Em diluar;

Quão imenso é o horizonte
(e visto de qualquer abismo)
Quando ao beber da sua fonte
Sinto em neologismo;

Quando com os olhos me penetra
E sua alma se insinua
Minhas mãos escrevem qualquer letra
Depois você me continua.


Thuan B. Carvalho

22 de jan. de 2013

7 Versos para uma Boca antes do Beijo


Rasguei os céus em busca dos teus lábios
E por teu quase-beijar me apaixonei,
Reluto então em fechar os olhos sábios
Pra ver a boca qu'inda não beijei;

E a sina se repete antes do beijo:
Se toco os lábios pelos quais busquei
Ou cesso e, em desatino, apenas vejo.


Thuan B. Carvalho

15 de jan. de 2013

Ode às Borboletas [do estômago]


Hoje é o famoso dia da desconstrução
em que as certezas todas de um coração
serão fragmentos de uma nova era,
Hoje os olhos falarão muito mais alto
e do contato, surgirá num salto
aprisionada e vil a estonteante fera;

Que engolirá você de dentro pra fora
e lancinada, ao se preocupar com a hora
vai perceber que estamos no mesmo segundo,
Que tocará com garras sutis sua alma
e no momento em que estiver mais calma
será o caos em todo o resto do mundo;

Levantarão vôo todas as borboletas
as coloridas, as brancas e as pretas
criando um céu jamais outrora visto,
E as árvores também se levantando
não se ouvirá, mas estarão cantando
a uma só voz em homenagem ao imprevisto;

E toda essa algazarra ao silenciar
(porque o silêncio é o fim de todo esse cantar)
vai lhe mostrar - tão clara - a voz que falta;
O caos, de tão intenso, era interno
a voz que falta está num beijo terno
e noutra boca há de cantar mais alta.



Thuan B. Carvalho

9 de jan. de 2013

Viva a Utopia (Histórias mal contadas em poesia)



Um peito que estala
(será calar a voz
ou outra voz que fala?)


Quando a Alma repousa
(se não pousa,
como ousa
tanto usar
o ar?)


Molecagem no metrô
(a criança
se balança
sem saber
se já chegou).


Sobre lírios e leis
(vivia n’uma terra de cegos
em que donos de colírios
e de egos
eram reis.)


Então, veio o ano novo
(faz-se prece
que apetece
nova casca pro mesmo ovo.)



Quando a rima foi posta em xeque
(rimar emoção
com coração
isso qualquer moleque;
mas qual será
a palavra sublime
que com a própria rima rime?)


Amanhã não escrevo mais você
(decretarei
discreto
o dia internacional do analfabeto.)


E no caminho, ao chão, encontra a flor
(quão bom seria
então
cheirar a amor?)


Se a vida é mesmo essa jornada infinita
(quem diria
ser sobre nós 
- a poesia -
da caminhada mais bonita.)


Thuan B. Carvalho

19 de dez. de 2012

Sinto Nia



Sensação, por excelência
não tem nome, classe ou cor
Não se explica a existência
ninguém sabe o que é amor,
Vai dizer que nunca viu
[se não, é injustificável!]
Alguém dizer que já sentiu
um sentimento inexplicável?
O "sentir" nasceu aberto
sem registro no cartório
Veio pra ser descoberto
no sorriso mais simplório,
Vai brotar de um olhar
ou d'um gesto em gratidão
Que te faça arrepiar
os pêlos do coração,
E de ser indefinido
tão infinito e tão vazio
Receio então ter sentido
o sentimento que agora crio,
Faz babel e vendaval
cala a boca do estômago
Faz nevar no litoral
altera todo meu âmago,
Puxa-me para o fundo
Devolve-me à superfície
E sinto pulsar o mundo
Nas frases que ela me disse:
"meu bem, o amor não tem nome
é dito com os olhos, quão doce!
Não morre, não seca, não some
nem é sentimento, antes fosse!"


Thuan Bigonha de Carvalho

14 de nov. de 2012

Lei do Silêncio

No meu templo
Sempre é tempo
De ser mudo,
Ao orar
Sem dizer nada
Diz-se tudo;

No meu templo
Sempre é tempo
De sorrir,
O meu Deus
É o único modo
De servir;

No meu templo
Sempre há tempo
Para abraços,
Encaixar fé
Encaixar amor
Entre os espaços;

No meu templo
Sempre é tempo
De silenciar,
É com os olhos
Que se exalta
O verbo amar;

No meu tempo
Todo templo
Infelizmente,
Fala muito
Ama pouco
E ainda mente.

[e o fiel
a lamentar
inconformado,
tem o direito
de ficar
calado.]



Thuan B. Carvalho

8 de nov. de 2012

Idade do Tijolo


O homem das cavernas
Olhou pela janela
Do sétimo andar

E ao Deus vermelho
Que cobria o sol
Pôs-se a orar.

O que fazer, pois
Se a idade é da pedra
e o homem também?

A idade do fogo
Já se apagou
Não sobrou ninguém.

[Um poema
talvez tenha nascido
da minha sacada,

Uma pena
Que do cimento
Não nasça nada.]


Thuan Bigonha de Carvalho

4 de nov. de 2012

Estrada entre Vírgulas


A cor do som que faz
Tua alma ficar em paz
Colore minha primavera
E a nuvem - gota de orvalho
Bagunça a imagem que entalho
Da vida que não me espera.

O vento sobre o cabelo
Sussurra sem qualquer zelo
Segredos do fim de tarde
Desnuda meu céu inteiro
Acende, tal qual braseiro
E em mim vira tempestade.

E a Lua, de sobressalto
Pergunta-me lá do alto
"Que vida queres viver? -
Ser rei de todo esse mundo
Almejar o poder a fundo
Ou basta sentir prazer?"

19 de out. de 2012

Pergunta In Verso

Qual é a cor do som que toca
As profundezas da alma da foca?

Quem me levou embora
O doce gosto amargo da amora?

Qual será a sensação
De ser Sol quando finda o verão?

Quando foi que aconteceu
De a memória esquecer você e eu?

Como é mesmo que fazia
O som que sua risada dormia?

Onde foi parar a textura
Que pintava nossa vida futura?

Qual é o nome do segredo
Que em silêncio te mata de medo?

Como se porta o pardal
Que te encanta do meu varal?

Quem é que é teu por direito
Pra que guardes no fundo do peito?

Quanto vale um dia inteiro
Sem da flor o ínfimo cheiro?

Quando será comemorado
O dia do céu nublado?

Qual o tempo exato do erro
A mão do gatilho ou os olhos no enterro?

Qual o passo certo da dança
Envelhecer ou crescer criança?

Quanto dói encher a vida
De orgulho, egoísmo e ferida?

Qual o gosto do som que faz
Teu demônio ficar em paz?

Que resquício divino te segue
Pra tua cruz não haver quem carregue?

Qual a alcunha promíscua e infame
Que você goza ao gritar meu nome?

Onde é que mora o passado
No choro do adeus ou no abraço apertado?

Por que foi que quando eu disse o que queria
disfarçado de poesia
restou-me a fotografia
e o tom cinza do licor?
(...)
Por que amor?


Thuan Bigonha de Carvalho.

17 de set. de 2012

Saúde!


Marcar um encontro consigo
Jamais será desespero,
É mais adejar o abrigo
Que lhe competirá por inteiro;

Quem consegue enxergar em si
O destino da própria morada,
Crê que a vida é jocosa, e até ri
Muitas vezes da mesma piada;

Encontrar pelas ruas um pouco
Da magia atroz de ser louco
Por estar simplesmente a vagar,

Perder toda a noção de espaço
Brindar ao próximo passo
Mas saber por onde pisar.




Thuan Bigonha de Carvalho

3 de set. de 2012

Onde Mora o Segredo


A magia que te tenho
É por demais abstrata,
Se calhar - não é desdenho
Nem lhe atinge a catarata;

Ao mirar-te, resplandeço
Chispo de dentro pra fora,
Em verdade, me conheço
Desse olhar que te enamora;

Esse meu olhar cravado
Que de muito te falar
Permanece calado;

Esse meu olhar escuro
Que de tanto brilhar
Livrar-te-á do apuro.




Thuan Carvalho.


*Confira o homônimo poético em: http://revelaresentir.blogspot.com.br

27 de ago. de 2012

Letras ao Vento


Filosofia do Ocaso
Há lógica
ou descaso
no calhar do acaso?
A saber
Olhar
nem sempre
é ver.
Cônjuge
Me, comigo
Te, contigo
Quais as chances de você Nos conjugar?
Despudor
Por amor
pelo chão
amar-se-ão.
Vôo
O que me cola
em teu colo:
Ser vizinho do céu ou remoto do solo?
Desilusão
alta
é Falta?
Tônico
Pode o amor
ascender
sem poder?
Números
Não há magia
em contar
poesia.
História
De quanta efígie
contraditória
bebe a esfinge da memória?



Thuan
Bigonha
de Carvalho.

22 de ago. de 2012

Ode à Moderna-Idade



Cabeças ocas e ainda assim preenchidas
Por ecos de morte em cantigas
Mal dormidas, repetidas
Em instantes de desatenção;

Sacolas vazias de amor
E cheias de vil pretensão
Olhos desatentos à cor
Ouvidos cautos à última liquidação;

Abjeta, qual caminhada chata
Passos se vão num compasso avulso
E seguem, de terno e gravata
O ritmo do relógio de pulso;

Mentes inertes, enclausuradas por inteiro
Em informações vindas não se sabe de onde
Crentes - Oh deus do dinheiro!
Descrentes - o amor já se esconde!

Cabeças baixas, olhos distantes
Do Céu, seguem distraídos
Mas sobem tão logo, hesitantes
Se encontram seus irmãos caídos;

Mendigos aos montes esbarram
Em muros de dignidade
Erguidos por poucos, que calam
Ante o doce som da modernidade;

O Sol, se pondo calado
A Lua, nascendo triste
Um, por sequer ser notado
Outra, sem dedos em riste.


À noite em silêncio então oro
Pela arte - flor que insiste em nascer
Orai junto a mim, eu imploro:

Que nesse solo de corações de pedra,
Regai, com suor e prazer,
Rogai, que de amor ela medra.


Thuan Carvalho.

14 de ago. de 2012

Prosa Doce.


Ando represando em ti meus devaneios
Repensando em destruir esses freios
Que mínguam o interior de meu ser,
É que ao sentir sentimentos alheios
Sou incapaz de expressar meus anseios
E gozar com esse estranho prazer;

Ando procurando teu rosto n'Alva Lua
Recitando poemas na rua
Para a pedra no meu caminho,
É que a estrada sempre se insinua
Em toda placa vejo a imagem tua
Vou seguindo, mas sigo sozinho;

Nesse avanço, mesmo que lento
Não te alcanço, e muito a descontento
Dou por mim a mirar meu reflexo,
E por dentre meu corpo cinzento
Tua imagem se forma do vento
E eu me prostro de todo perplexo;


Como eu posso fazer rima se ao piscar tu me alucina com esse olor de cor vermelha?
Inspiro e em mim já se deita o dogma de minha própria seita que em ti por inteira se espelha,
Tal poema já se inclina disfarçado de chacina e sussurra em sua orelha,
Deito a tinta na caneta e num garrancho de cor preta faço mel de tua abelha.





Thuan Carvalho

2 de ago. de 2012

Lamento.


E de tanto se conter,
Derramou em sua jornada;
Do nascer ao perecer,
Uma lágrima contada.

Não chorou quando neném,
Nem tampouco foi criança;
Completou meio vintém,
Sem de choro ter lembrança.

A primeira namorada,
Fez daquilo uma piada
E afastou-o de sua vida;

Foi então que, em agonia,
Derramou uma gota fria
No bilhete suicida.


Thuan Carvalho

21 de jul. de 2012

Fragmentos de Nostalgia.



Tijolo
Vermelho ou alaranjado,
Não importa, ela diria;
Que menino até comia,
Quando estava amarelado.


Hidrante
Vigiava minha entrada,
Com seu terno abotoado;
Ai de quando a molecada
Lhe chovia no molhado!


Entardecer
Vôvô, conte uma história?
Só depois do meu abraço!
Tudo bem. Conte agora?
(e ele olhava, sem demora
espantado em como Flora
era dona de seus traços.)


Xadrez
João, que era bom com o peão,
Não andava a cavalo;
Ritinha, que sonhava ser rainha,
Pôs-se a ensiná-lo.

Francisco, que era filho de um bispo,
Não andava na linha;
Ao provar do fruto proibido,
Se casou com Ritinha.

(Tiveram ainda um neném
Que batizaram Vanderlei;
Soltava pipa como ninguém
E chegou a ser Rei.)




Thuan Carvalho.

15 de jul. de 2012

Psicose.



Confesso que não sabia,
A hora em que você viria,
E por não saber, deixei por fazer
A barba que lhe arranharia.

A casa toda arrumei,
O álcool na pia entornei,
E por entornar, hei de embebedar
Seus restos que nunca encontrei.

Vesti o suéter vermelho,
Olhei-me defronte ao espelho,
E por refletir, pensei em partir
Por fim não segui meu conselho.

Quando foi a sua mudança?
Quem me roubou sua confiança?
E por me roubar, levou pra morar
O amor lado a lado à matança?

Aqui, cadente, inda estou,
Fixado, como me deixou,
E por me deixar, por não regressar
Foi como você me levou.




Thuan Bigonha de Carvalho.

11 de jul. de 2012

Romântico.




Maria, meu curto amor de infância,
Foi uma que amei entre mil;
Mas esta me permaneceu na ânsia,
Mudou-se em meados de abril.

Dez anos sem qualquer notícia,
E quem me aparece na porta?
Maria - meu deus, que delícia -
Quem és é o que menos importa.

Com o corpo inteiro movido,
Pela solidão que me consumia;
Fui ter com ela embebido
de minha alforria.

E constatei, assaz entristecido:

Também não havia
poesia
No gemido
de
Maria.



Thuan B. Carvalho

9 de jul. de 2012

Esotérica.


Fechou os olhos, consternada, e rolou novamente os búzios por sobre a mesa...

O movimento daquela vez fora diferente. A graciosidade envolvida superou qualquer lance anterior. Ambos os braços em concha, dois suspiros, os olhos fechados, narinas dilatadas, a boca numa prece silenciosa, e as pernas cruzadas numa prece inconsciente. O movimento com o pulso fez as tranças balançarem como se dançassem junto à fumaça que provinha dos incensos. Três incensos. Três lamparinas.


O pio da coruja foi trazido por uma coluna de vento que se arrastou molemente pela janela entreaberta, emprestando segredos os mais diversos ao ambiente, deitando contornos finais ao ato. 

Pensou em suicídio quando abriu os olhos, levantou-se, e, pela terceira vez naquela noite, encarou o rosto dele lançando luz àquela penumbra com seus olhos de amêndoa estrelada.



Nádja acordou com as mãos formigando, e a imagem retorcida de um homem que lhe parecia familiar povoando sua mente.

 Amaldiçoou seu sangue cigano, deu um beijo seco no marido e saiu para trabalhar.




Thuan B. Carvalho

28 de jun. de 2012

Transcendência.


Desejou boa noite ao porteiro do clube, amarrou o cadarço do tênis, colocou o fone de ouvido e seguiu para casa.

Distraída no caminho, lembrou-se subitamente do sonho da noite passada, em que voava. Olhou para o céu, como que por instinto, e foi quando recebeu o primeiro pingo de chuva diretamente no queixo. O céu era tomado por um tom cinza-chumbo relampejado de quando em vez por clarões. Uma beleza exótica. 

Parou por um segundo, os olhos fixos nos pingos que desciam cada vez mais rápido, e permitiu-se saborear.

Respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada; amarrou os cabelos, para sentir melhor a chuva; retirou o fone de ouvido, para ouvir os sons do mundo; fechou os olhos, para ver apenas com os outros sentidos; estendeu ambos os braços, a fim de tocar a água que descia do céu; abriu a boca, deixando a água preenchê-la totalmente; largou a bolsa ao chão, para suportar apenas a leveza da chuva. 

Enfim, durante aquele milésimo de eternidade, comungou com seu espírito e foi tudo o que nasceu para ser...


Daí para frente, quem a descreve é o silêncio.
(...)



Thuan B. Carvalho

27 de jun. de 2012

Frenesi.



Etérea, a feminina louca
Armou-se de si, quão desvairada;
Jorrava encantamentos pela boca
Que, ditos, já não valiam nada;

Girava o mundo todo, e sacudia,
Diziam “esta jaz enlouquecida”;
Mas a verdade só ela sabia,
Estava no apogeu, cheia de vida;

A tapas, sem cessar, dispunha a cara
Dor em si era coisa muito pouca
Perto da alegria conquistada;

Jurava que a vida lhe segredara
Naquela voz tão sua, baixa e rouca:
“O mundo, meu amor, é uma piada”.




Thuan B. Carvalho

26 de jun. de 2012

Aflição.



Olhou para trás pela sétima vez enquanto corria desabaladamente, entrando em vielas que julgava nem existirem. Sentia o coração bater no pulso, as pernas cederem ao cansaço, o sangue povoando o corpo, e a adrenalina brotar de cada poro de sua pele. Mas não podia parar. A tensão do momento se intensificava a cada passo, mas ela via luz à frente de uma esquina. Reuniu todas as forças sobressalentes e impulsionou o corpo desgastado rua a frente, na ânsia de alcançar aquele ponto luminoso. Sabia que era sua última chance. Tinha que continuar. Por si, por seus filhos, por seus pais. Inspirou pelo que parecia ser a última vez, levou os pés com sua força derradeira, e chegou finalmente ao fim da rua.

Mas então, quando virou a esquina...



Thuan Carvalho.

16 de jun. de 2012

EnForca.




_ O _ A _ _ O


...

Estranho é viver num mundo em que cada vez mais se coloca horário onde sempre vai caber o coração.



Thuan Bigonha de Carvalho.