8 de nov. de 2012

Idade do Tijolo


O homem das cavernas
Olhou pela janela
Do sétimo andar

E ao Deus vermelho
Que cobria o sol
Pôs-se a orar.

O que fazer, pois
Se a idade é da pedra
e o homem também?

A idade do fogo
Já se apagou
Não sobrou ninguém.

[Um poema
talvez tenha nascido
da minha sacada,

Uma pena
Que do cimento
Não nasça nada.]


Thuan Bigonha de Carvalho

4 de nov. de 2012

Estrada entre Vírgulas


A cor do som que faz
Tua alma ficar em paz
Colore minha primavera
E a nuvem - gota de orvalho
Bagunça a imagem que entalho
Da vida que não me espera.

O vento sobre o cabelo
Sussurra sem qualquer zelo
Segredos do fim de tarde
Desnuda meu céu inteiro
Acende, tal qual braseiro
E em mim vira tempestade.

E a Lua, de sobressalto
Pergunta-me lá do alto
"Que vida queres viver? -
Ser rei de todo esse mundo
Almejar o poder a fundo
Ou basta sentir prazer?"

19 de out. de 2012

Pergunta In Verso

Qual é a cor do som que toca
As profundezas da alma da foca?

Quem me levou embora
O doce gosto amargo da amora?

Qual será a sensação
De ser Sol quando finda o verão?

Quando foi que aconteceu
De a memória esquecer você e eu?

Como é mesmo que fazia
O som que sua risada dormia?

Onde foi parar a textura
Que pintava nossa vida futura?

Qual é o nome do segredo
Que em silêncio te mata de medo?

Como se porta o pardal
Que te encanta do meu varal?

Quem é que é teu por direito
Pra que guardes no fundo do peito?

Quanto vale um dia inteiro
Sem da flor o ínfimo cheiro?

Quando será comemorado
O dia do céu nublado?

Qual o tempo exato do erro
A mão do gatilho ou os olhos no enterro?

Qual o passo certo da dança
Envelhecer ou crescer criança?

Quanto dói encher a vida
De orgulho, egoísmo e ferida?

Qual o gosto do som que faz
Teu demônio ficar em paz?

Que resquício divino te segue
Pra tua cruz não haver quem carregue?

Qual a alcunha promíscua e infame
Que você goza ao gritar meu nome?

Onde é que mora o passado
No choro do adeus ou no abraço apertado?

Por que foi que quando eu disse o que queria
disfarçado de poesia
restou-me a fotografia
e o tom cinza do licor?
(...)
Por que amor?


Thuan Bigonha de Carvalho.

17 de set. de 2012

Saúde!


Marcar um encontro consigo
Jamais será desespero,
É mais adejar o abrigo
Que lhe competirá por inteiro;

Quem consegue enxergar em si
O destino da própria morada,
Crê que a vida é jocosa, e até ri
Muitas vezes da mesma piada;

Encontrar pelas ruas um pouco
Da magia atroz de ser louco
Por estar simplesmente a vagar,

Perder toda a noção de espaço
Brindar ao próximo passo
Mas saber por onde pisar.




Thuan Bigonha de Carvalho

3 de set. de 2012

Onde Mora o Segredo


A magia que te tenho
É por demais abstrata,
Se calhar - não é desdenho
Nem lhe atinge a catarata;

Ao mirar-te, resplandeço
Chispo de dentro pra fora,
Em verdade, me conheço
Desse olhar que te enamora;

Esse meu olhar cravado
Que de muito te falar
Permanece calado;

Esse meu olhar escuro
Que de tanto brilhar
Livrar-te-á do apuro.




Thuan Carvalho.


*Confira o homônimo poético em: http://revelaresentir.blogspot.com.br

27 de ago. de 2012

Letras ao Vento


Filosofia do Ocaso
Há lógica
ou descaso
no calhar do acaso?
A saber
Olhar
nem sempre
é ver.
Cônjuge
Me, comigo
Te, contigo
Quais as chances de você Nos conjugar?
Despudor
Por amor
pelo chão
amar-se-ão.
Vôo
O que me cola
em teu colo:
Ser vizinho do céu ou remoto do solo?
Desilusão
alta
é Falta?
Tônico
Pode o amor
ascender
sem poder?
Números
Não há magia
em contar
poesia.
História
De quanta efígie
contraditória
bebe a esfinge da memória?



Thuan
Bigonha
de Carvalho.

22 de ago. de 2012

Ode à Moderna-Idade



Cabeças ocas e ainda assim preenchidas
Por ecos de morte em cantigas
Mal dormidas, repetidas
Em instantes de desatenção;

Sacolas vazias de amor
E cheias de vil pretensão
Olhos desatentos à cor
Ouvidos cautos à última liquidação;

Abjeta, qual caminhada chata
Passos se vão num compasso avulso
E seguem, de terno e gravata
O ritmo do relógio de pulso;

Mentes inertes, enclausuradas por inteiro
Em informações vindas não se sabe de onde
Crentes - Oh deus do dinheiro!
Descrentes - o amor já se esconde!

Cabeças baixas, olhos distantes
Do Céu, seguem distraídos
Mas sobem tão logo, hesitantes
Se encontram seus irmãos caídos;

Mendigos aos montes esbarram
Em muros de dignidade
Erguidos por poucos, que calam
Ante o doce som da modernidade;

O Sol, se pondo calado
A Lua, nascendo triste
Um, por sequer ser notado
Outra, sem dedos em riste.


À noite em silêncio então oro
Pela arte - flor que insiste em nascer
Orai junto a mim, eu imploro:

Que nesse solo de corações de pedra,
Regai, com suor e prazer,
Rogai, que de amor ela medra.


Thuan Carvalho.

14 de ago. de 2012

Prosa Doce.


Ando represando em ti meus devaneios
Repensando em destruir esses freios
Que mínguam o interior de meu ser,
É que ao sentir sentimentos alheios
Sou incapaz de expressar meus anseios
E gozar com esse estranho prazer;

Ando procurando teu rosto n'Alva Lua
Recitando poemas na rua
Para a pedra no meu caminho,
É que a estrada sempre se insinua
Em toda placa vejo a imagem tua
Vou seguindo, mas sigo sozinho;

Nesse avanço, mesmo que lento
Não te alcanço, e muito a descontento
Dou por mim a mirar meu reflexo,
E por dentre meu corpo cinzento
Tua imagem se forma do vento
E eu me prostro de todo perplexo;


Como eu posso fazer rima se ao piscar tu me alucina com esse olor de cor vermelha?
Inspiro e em mim já se deita o dogma de minha própria seita que em ti por inteira se espelha,
Tal poema já se inclina disfarçado de chacina e sussurra em sua orelha,
Deito a tinta na caneta e num garrancho de cor preta faço mel de tua abelha.





Thuan Carvalho

2 de ago. de 2012

Lamento.


E de tanto se conter,
Derramou em sua jornada;
Do nascer ao perecer,
Uma lágrima contada.

Não chorou quando neném,
Nem tampouco foi criança;
Completou meio vintém,
Sem de choro ter lembrança.

A primeira namorada,
Fez daquilo uma piada
E afastou-o de sua vida;

Foi então que, em agonia,
Derramou uma gota fria
No bilhete suicida.


Thuan Carvalho

21 de jul. de 2012

Fragmentos de Nostalgia.



Tijolo
Vermelho ou alaranjado,
Não importa, ela diria;
Que menino até comia,
Quando estava amarelado.


Hidrante
Vigiava minha entrada,
Com seu terno abotoado;
Ai de quando a molecada
Lhe chovia no molhado!


Entardecer
Vôvô, conte uma história?
Só depois do meu abraço!
Tudo bem. Conte agora?
(e ele olhava, sem demora
espantado em como Flora
era dona de seus traços.)


Xadrez
João, que era bom com o peão,
Não andava a cavalo;
Ritinha, que sonhava ser rainha,
Pôs-se a ensiná-lo.

Francisco, que era filho de um bispo,
Não andava na linha;
Ao provar do fruto proibido,
Se casou com Ritinha.

(Tiveram ainda um neném
Que batizaram Vanderlei;
Soltava pipa como ninguém
E chegou a ser Rei.)




Thuan Carvalho.

15 de jul. de 2012

Psicose.



Confesso que não sabia,
A hora em que você viria,
E por não saber, deixei por fazer
A barba que lhe arranharia.

A casa toda arrumei,
O álcool na pia entornei,
E por entornar, hei de embebedar
Seus restos que nunca encontrei.

Vesti o suéter vermelho,
Olhei-me defronte ao espelho,
E por refletir, pensei em partir
Por fim não segui meu conselho.

Quando foi a sua mudança?
Quem me roubou sua confiança?
E por me roubar, levou pra morar
O amor lado a lado à matança?

Aqui, cadente, inda estou,
Fixado, como me deixou,
E por me deixar, por não regressar
Foi como você me levou.




Thuan Bigonha de Carvalho.

11 de jul. de 2012

Romântico.




Maria, meu curto amor de infância,
Foi uma que amei entre mil;
Mas esta me permaneceu na ânsia,
Mudou-se em meados de abril.

Dez anos sem qualquer notícia,
E quem me aparece na porta?
Maria - meu deus, que delícia -
Quem és é o que menos importa.

Com o corpo inteiro movido,
Pela solidão que me consumia;
Fui ter com ela embebido
de minha alforria.

E constatei, assaz entristecido:

Também não havia
poesia
No gemido
de
Maria.



Thuan B. Carvalho

9 de jul. de 2012

Esotérica.


Fechou os olhos, consternada, e rolou novamente os búzios por sobre a mesa...

O movimento daquela vez fora diferente. A graciosidade envolvida superou qualquer lance anterior. Ambos os braços em concha, dois suspiros, os olhos fechados, narinas dilatadas, a boca numa prece silenciosa, e as pernas cruzadas numa prece inconsciente. O movimento com o pulso fez as tranças balançarem como se dançassem junto à fumaça que provinha dos incensos. Três incensos. Três lamparinas.


O pio da coruja foi trazido por uma coluna de vento que se arrastou molemente pela janela entreaberta, emprestando segredos os mais diversos ao ambiente, deitando contornos finais ao ato. 

Pensou em suicídio quando abriu os olhos, levantou-se, e, pela terceira vez naquela noite, encarou o rosto dele lançando luz àquela penumbra com seus olhos de amêndoa estrelada.



Nádja acordou com as mãos formigando, e a imagem retorcida de um homem que lhe parecia familiar povoando sua mente.

 Amaldiçoou seu sangue cigano, deu um beijo seco no marido e saiu para trabalhar.




Thuan B. Carvalho

28 de jun. de 2012

Transcendência.


Desejou boa noite ao porteiro do clube, amarrou o cadarço do tênis, colocou o fone de ouvido e seguiu para casa.

Distraída no caminho, lembrou-se subitamente do sonho da noite passada, em que voava. Olhou para o céu, como que por instinto, e foi quando recebeu o primeiro pingo de chuva diretamente no queixo. O céu era tomado por um tom cinza-chumbo relampejado de quando em vez por clarões. Uma beleza exótica. 

Parou por um segundo, os olhos fixos nos pingos que desciam cada vez mais rápido, e permitiu-se saborear.

Respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada; amarrou os cabelos, para sentir melhor a chuva; retirou o fone de ouvido, para ouvir os sons do mundo; fechou os olhos, para ver apenas com os outros sentidos; estendeu ambos os braços, a fim de tocar a água que descia do céu; abriu a boca, deixando a água preenchê-la totalmente; largou a bolsa ao chão, para suportar apenas a leveza da chuva. 

Enfim, durante aquele milésimo de eternidade, comungou com seu espírito e foi tudo o que nasceu para ser...


Daí para frente, quem a descreve é o silêncio.
(...)



Thuan B. Carvalho

27 de jun. de 2012

Frenesi.



Etérea, a feminina louca
Armou-se de si, quão desvairada;
Jorrava encantamentos pela boca
Que, ditos, já não valiam nada;

Girava o mundo todo, e sacudia,
Diziam “esta jaz enlouquecida”;
Mas a verdade só ela sabia,
Estava no apogeu, cheia de vida;

A tapas, sem cessar, dispunha a cara
Dor em si era coisa muito pouca
Perto da alegria conquistada;

Jurava que a vida lhe segredara
Naquela voz tão sua, baixa e rouca:
“O mundo, meu amor, é uma piada”.




Thuan B. Carvalho

26 de jun. de 2012

Aflição.



Olhou para trás pela sétima vez enquanto corria desabaladamente, entrando em vielas que julgava nem existirem. Sentia o coração bater no pulso, as pernas cederem ao cansaço, o sangue povoando o corpo, e a adrenalina brotar de cada poro de sua pele. Mas não podia parar. A tensão do momento se intensificava a cada passo, mas ela via luz à frente de uma esquina. Reuniu todas as forças sobressalentes e impulsionou o corpo desgastado rua a frente, na ânsia de alcançar aquele ponto luminoso. Sabia que era sua última chance. Tinha que continuar. Por si, por seus filhos, por seus pais. Inspirou pelo que parecia ser a última vez, levou os pés com sua força derradeira, e chegou finalmente ao fim da rua.

Mas então, quando virou a esquina...



Thuan Carvalho.

16 de jun. de 2012

EnForca.




_ O _ A _ _ O


...

Estranho é viver num mundo em que cada vez mais se coloca horário onde sempre vai caber o coração.



Thuan Bigonha de Carvalho.

6 de jun. de 2012

A Rosa do Amor














Quando o Amor fora moleque arteiro,
Nos Jardins da Eternidade,
Desafiou quem seria o primeiro
A pecar pela quantidade.

Havia em teus rosais um letreiro
Vestido da perene verdade
Gritando: “espinho faceiro!
Toque e ficarás por metade.”

O amante, achando absurdo,
Vestido de amor e paixão,
Fez-se então de ouvinte a surdo;

A mensagem transpassou suas orelhas,
Seu regado fez das rosas vermelhas,
Com o sangue de seu Coração.


                                 Thuan B. Carvalho

9 de abr. de 2012

O Abrir de Abril


Abril. Abriu. Abril. Abriu. ...

Abriu-se. O trinco pende de lado, opaco. Havia ali antes uma porta? Não saberia dizer. O cheiro de mofo intrínseco à madeira sugeria velhice. As cores inerentes ao arabesco em sua maçaneta sugeriam juventude. Cedo ou tarde, era tempo de atravessar. Olhos abertos. Respiração lenta. Força. Coragem. Suor e lágrimas.

Folhas, muitas delas. Caídas. Arrancadas. Leves e secas. Vermelhas. O Verão passou por ali, pensou. Árvores nuas. Despidas de si. Paredes acinzentadas, construídas por pequenos ramos disformes de galhos. Não, espera... Na verdade são... palavras? Palavras de todas as classes e gêneros. A composição do local era a página de um livro borrada. Palavras. Outrora lhe disseram tanto!

Sentou-se. Vazio. Onde é que estava o silêncio? Em seu ouvido zumbiam a algazarra de mil vozes. Vozes. Vozes. Palavras. Nenhum acorde. Cordas grossas passavam por todos os lados. Cordas vocais que transportavam uma espécie de líquido. Opaco. Vazio.

Súbito. Arrojo. Ímpeto. Mãos puxavam cordas. Unhas descascavam palavras. Rasgou todas as letras. Engoliu algumas, cuspiu outras. Destroçou incessantemente. O local começou a se revelar. Paredes tão vermelhas quanto poderiam ser. Um piso pulsante como um vulcão. E quente. Um calor imenso começou a preencher o local.

Num único rompante, rompeu o instante.

A pureza o tocou. Esvaziou-se de palavras. Dali para frente, seriam ações. Revigorava-se. Vigor. Energia. Sangue. Calor. Sentidos. Coração.

Satisfeito e coberto de sangue, deixou apenas encostada a porta que se Abril.  


Thuan Bigonha de Carvalho

14 de fev. de 2012

Verso do Só ___________________________ quando juntos as palavras são ações



Quão me atinge ser de longe
De teu suspiro violento
Me endoideço - feito monge
N’oração que, intensa, range
O altar do pensamento

Que infortúnio é a distância
Ao criar esse tabu
Me permanece na ânsia
De me perder na fragrância
Que envolve teu corpo nu

Até o aperto de teus dedos
Que na madrugada praticas
me tomam; Que mãos de rochedos!
A saudade me despe os segredos
O corvo da ausência me bica

Quem me dera teu tenro calor
Transformando saudade em ardor
E o tempo do “só” derretido


Para enfim preencher a noite, amor,
- estarrecido
Com o eterno silêncio de teu gemido








Thuan Bigonha de Carvalho

1 de fev. de 2012

Obaké



O horizonte de meus anseios já não põe o Sol
O céu se estatiza num inebriante furta-cor
As ondas se ajoelham perante a magistral
Eloqüência do amor

O ar falta a si de tão denso
Às sombras não existe saída
A areia que trás os teus pés
É a areia da vida

Os seres, arfantes, proclamam
Imóveis em suas pegadas
Com vozes suaves, que cantam
Boleros das Terras Sagradas

O caminho em ti é tão claro
Teus mares, teu corpo e tuas cores
Que cedo me sonho em teus laços
A morrer de amores

E essa tensão que afaga e conduz
É a expressão mais clara e sincera
De que vieste, ao longo das eras
a banhar-me em luz






Thuan B. Carvalho

7 de dez. de 2011

Deserto Amarelo



Sou de ti o mais novo escravo
Tocaste-me na mais plena imensidão
É em tua pura carne que me lavo
Dela própria, a eterna perdição

Sois em mim o certo e o errado
Tens em posse nobre coração
E eu, a ele atrelado
Sou prova do amor tão sagrado
Que explode a cada geração

E assim, pássaro ferido
Sem ti me comparo a uma trema
Me encontro deveras perdido
Só tu me desperta o sentido
És indescritível poema

E essa sede, quão desmedida
De poder-te sempre um pouco mais
Toca fundo a latente ferida
Que de partes já não se satisfaz

Ao mirar-te de relance já não creio
És miragem, utopia, devaneio
Pois que a imagem, tão funesta, da partida
Alimenta terrivelmente meu receio

E me pego então a questionar
Inda n’ânsia silente do deserto
Qual a cor de tão intenso verbo amar?
Como tê-lo de ausente tão concreto?



Eterno, imenso e belo:
O amor é um deserto
amarelo.




"e dele deserta,
quem, cego, na certa
não entende que AMAR
é um ELO..."




Thuan B. Carvalho


; assim como era no princípio, agora e sempre.

3 de nov. de 2011

Ações e Sensações



Passa,
E eu invento
O vento.

Anda,
E eu espanto
O pranto.

Dorme,
E o aconchego
Chega.

Clama,
E me acende
A chama.

Voa,
Vai feito nave
Ave.

Chamo,
E não me escuta
Bruta.

Cala,
E se não ouço
Fala.

Maga,
Se sou duende
Prende.

Bruxa,
Se me afasto
Puxa.

Artista,
Lutando esgrima
Rima.

Tento
Prendê-la em frase
Quase!

Leve,
Grão de poeira
Esgueira.

Próxima,
Sinto seu cheiro
Inteiro.

Morde,
A boca intensa
Tensa.

Sopra,
E de arrepio
Rio.

Navega,
E não firma o leme
Treme.

Goza,
E se entrega
Rega;

Prosa,
E o céu de azul:
Rosa.


Thuan B. Carvalho

17 de set. de 2011

não chores mais, não.



(...) mas princesa, não chores não;
Que teu choro me parte, me quebra
Transforma meu pássaro em pedra
E sufoca.

Ei, amor, não chores não;
Que teu choro é o prelúdio da morte
É o som de uma faca no corte
E corta.

Vida, por favor, não chores não;
Que teu sorriso é a prece que rogo
Em teu choro eu somente me afogo
E me ardo.

Mas paixão, não chores mais não;
Que tua lágrima é dos venenos o mais mortal
Em contato com o ar me é letal
E castiga.

Ei, existência, não chores não;
Que teu choro molha os dias nefastos
Faz babel, interrompem-se os astros
E me rasga.

Sereia, por favor, não chores não;
Que teu choro é o meu mortuário
É o som que me lembra do horário
Um nocaute.


Psiu, mulher, não chores não;
Que teu choro me lança da ponte
É a água que escorre da fonte
E não sacia.

Mas deusa, por favor, não chores mais não;
Que teu sorriso é o sinal que me ala
E cada lágrima que teu olhar exala
Me aproxima do chão.






Thuan Bigonha de Carvalho.

2 de set. de 2011

A Mulher Tinteiro



Vem sem medo, insólita, e em sua expiração carrega a certeza de que, ato próximo, inspirará. Não se confunde jamais, líquido heterogêneo de uma mistura que, por mais materialmente separada que possa parecer, é monofásica.


Possui quatro fases, essa personificação lunar: Percorre a terra, durante o princípio do dia, com seu corpo ardente e inconstante, varrendo o choro das crianças e trazendo o amanhecer aos olhos dos animais; Extenuada, dorme e afoga seus cabelos no mar durante a tarde fresca, tornando-se a si um cardume de emoções que, pesadamente, baqueia o fundo do oceano e ilumina a profundeza de além-mar; Seu instante é breve, e tão logo laqueou as órbitas, resplandece num vôo clamando combate, exigindo do crepúsculo mais atitude do que - como ela mesma diz - “simplesmente levar o sol e trazer a lua”, rasando pelos confins da Terra e de todas as Terras, pintando estrelas no céu de todos os reinos com a energia que jamais lhe desampara; Até que então, fase derradeira, suspira e já não é mais suspiro, desabrocha o sentimento que já não tem, resume a madrugada em silêncio e colóquio, e os pássaros que não ouvimos na alvorada - são todos ela - espectro sublime, enobrecendo o sono do mundo com a ária que deriva do farfalhar das asas de sua alma.


Anormal, atípica, irregular, desnivela a ampulheta dos corações dispostos, altera a freqüência do tempo e do espaço, desmantela a noção de gravidade do momento que até então era grave, e que, após sua passagem, flutua entorpecido e pacífico, inativamente agravitacional.



Assim, borralheira e gata, princesa e feiticeira, emoldura minha abstração insípida, contorna meu semblante vago; e chove, no meio desse tornado de emoções sobrepostas, nada mais do que a certeza de que é ela a cor que dá aspecto aos versos que rabisco.




Thuan Bigonha de Carvalho.

4 de ago. de 2011

A Terra em que é Proibido Sofrer




Na terra em que é proibido sofrer, a morte vem a cavalo.
As placas nas cidades dão bom-dia e boa-noite, e indicam o melhor lugar para se sentar sob uma fresca e prazerosa sombra. Os dias muito quentes e muito frios passam rápido, assim como os dias de saudade; enquanto os dias agradáveis passam lentos - um pássaro que plana numa tarde de segunda-feira.

Na terra em que é proibido sofrer, a idade é experiência.
Não há chá que não cure, não há raça que não se misture, nem amor que não dure. Lá, de madrugada, é possível ouvir o som do mundo, sua leve respiração enquanto adormece lentamente, entrecortada de quando em vez pelo pio de uma coruja.
(reza a lenda que quem faz amor de madrugada na terra em que é proibido sofrer ouve os sons de um mundo diferente, mas isso é só uma lenda.)

Na terra em que é proibido sofrer, os sinais são de esperança.

Quem espera sempre alcança, todo mundo indé criança, e a vingança não passa de um prato que não se come nunca. O planeta gira ao contrário, o pesar é imaginário, e hospitais são canários que devolvem a alma ao infinito.

Reis, magos, bruxas, anões, dragões, gnomos, cavaleiros, amazonas, duendes, elfos e anciãos já se perderam incontáveis vezes ao procurar a terra em que é proibido sofrer; sem saber que ela não passa de um X incrustado no mapa da alma de cada um.
Ou seja, para encontrar a terra em que é proibido sofrer, basta encontrar a si.







Thuan Bigonha de Carvalho

Afinal, quanto custa?



Um choro de saudade,
Um sopro de verdade,
Andar pela cidade; quanto custa?
Amor na flor da idade,
Chuva de fim de tarde,
Tensão que mansa invade - e que assusta!
Quanto custa?
Um pingo de piedade,
Boiar sem densidade,
Ser a própria gravidade! Quanto custa?
Diz! Quanto custa?!
Que eu vendo a mocidade,
Leilôo a tempestade,
Dispenso a qualidade, tão fajuta!
Depeno essa maldade,
Transbordo de bondade,
Encaro a cristandade - vou à luta!

E se acaso, dia funesto
Seu Deus, quão desonesto!
Quiser a minha vida
Por achar a troca injusta;
Darei-a, não interessa
Para o amor não terei pressa
Se me for respondido
Quanto custa.


Thuan Bigonha de Carvalho

30 de jun. de 2011

Translucidez




O casarão, a quem olhasse à primeira vista, encontrava-se inteiramente na escuridão. As dezenas de janelas de ferro frio abrigavam em si a intensa cor da noite, exceto pela última delas, a mais alta - visão minuciosa, que continha em si uma nesga de luz bruxuleante. E no interior daquele cômodo, à luz de três velas, ele escrevia.


***


... Corria como nunca o havia feito, deixando atrás de si o grito insuperável das noites sombrias, que somente uma noite como aquelas poderia proferir. Sua respiração era dificultada pela densidade do ar naquela altura, mas nem a escassez de oxigênio a fazia parar. Nada a faria.



Os agouros noturnos a perseguiam em forma de grito, mote que a fez parar, colocar as mãos na cabeça, massagear a têmpora por um breve instante, com os olhos castanhos fechados, tentando sentir qualquer coisa que a livrasse daquela sensação ruim de estar sendo seguida, de estar confrontando a realidade, de estar cansada por remar contra a maré.



***


Prazeroso, ele conseguiu extrair sua mente do papel por um instante, sentindo fluírem por seu corpo todas aquelas energias que ele já conhecia, e deu uma olhada narcisista no calo em sua mão, deixando a pena respingar levemente no papel onde escrevia. Levantou-se da cadeira, afastou-se da escrivaninha e foi até a janela, pensando ter ouvido um som estranho da pequena reserva florestal que margeava sua casa. Feliz por notar na noite a magia que queria transcrever, tornou a mergulhar a pena no tinteiro.


***


... Um corvo crocitou ao longe simultaneamente ao momento em que um espinho penetrava-lhe a sola calejada dos pés, fazendo com que ela se sentasse num tronco oco, vendo o sangue escorrer lentamente do pequeno orifício. Eu mereço isso, pensou. EU MEREÇO TUDO ISSO! E com tal convicção, abraçou a dor que a noite lhe afligia com a mesma afeição com que se abraça um amigo íntimo, e sentindo-se mais forte, recomeçou a caminhar, já podendo ver ao longe as pilastras brancas da entrada do paraíso. Ou inferno. Um lobo emitiu um uivo triste, e aquela nuvem enorme e cinza insistia em manter o luar por detrás de si, alimentando-se de sua luz para parecer mais forte, mais intensa.



***


Um arrepio percorreu-lhe o corpo, quando ouviu um uivo forte saindo da noite, invadindo a janela do cômodo onde se encontrava, e eriçando seu corpo por inteiro. Levantou-se pela segunda vez, o copo de scotch em mãos, e encaminhou-se até a janela. A noite permanecia intocável como uma pintura, mas o rapaz tinha a sensação de que algo se movia ali. Chacoalhou a cabeça, tentando afastar a imagem dela, que novamente começava a lhe acossar. Levantou por um instante a foto na estante, recolocando-a virada para baixo após uma breve admirada. Aquela não era uma lembrança que lhe fazia bem. Freou o ímpeto egoístico que lhe surgia com mais uma golada de scotch, tomou a pena novamente em mãos e sentiu a mente se distanciar novamente, enquanto a tinta acariciava o papel.


***


...O momento último de percepção pareceu-lhe afagar a alma, e a caminhada pareceu transcorrer, dali para frente, como se certa fosse, como se a guerra com os astros fosse incomum e necessária. Ao finalmente conseguir ver os contornos da casa, apertou a carta dele contra o peito, sentindo as lágrimas já começarem a brotar. Não. Não iria fraquejar agora. Durou dois anos sua briga interior, mas alguém, enfim, havia vencido. Empurrou forte o portão de ferro da entrada, encarando de igual as criaturas da noite que ali se encontravam, estátuas sem rosto, cinzas e sem luz, todas com o olhar ferino indagando sua presença ali.



Conhecedora do local, retirou das vestes o pedaço de metal que havia trazido consigo, e traçou um círculo ao redor de si, delineando em seguida traços disformes dentro do mesmo, percorrendo toda a extensão da terra, passando por sob seus pés, mas não excedendo o espaço circular, que agora recebia uma fina cortina de luz.



Ao som dos agouros da noite, deixou-se movimentar sem qualquer coordenação, enquanto lentamente recebia marcas azuis por todo o corpo, sentindo cada pedaço de si esquentar na medida em que o sangue fluía mais rápido. E ali, no auge do fluxo sanguíneo, retirou o espinho que lhe mostrara a dificuldade do caminho, e que ela havia guardado, fazendo com ele um pequeno furo na palma da mão direita, pressionando-a em seguida contra a terra fria. Girou as mãos até onde a flexibilidade de seu braço permitiu, e ao erguer os olhos, viu cada estátua ganhar vida, abrir as asas e subir tão alto quanto as nuvens, deixando o caminho finalmente livre.



Levantou-se com dificuldade, ergueu o pescoço à última janela da casa, e notou a luz que ali bruxuleava, em contraste com toda a imensidão sem cor que cobria o resto da visão.



***


O suor de suas mãos passava a deixar marcas em seu manuscrito, motivo que o fez parar pela terceira vez. Releu o que já tinha escrito até o momento, sentindo uma estranha familiaridade com aquilo tudo. Não se recordava de onde tinha acendido aquela inspiração, mas tinha certeza de que já a conhecia.


A estranheza do calor que lhe subia naquela madrugada fria fez com que ele enchesse o copo novamente, sentindo que o álcool já influenciava em seu discernimento. A pintura na parede atrás da escrivaninha, sua preferida, que retratava a constelação de Lynx - o Lince, parecia delinear-se num enorme Lince Negro, fitando-o com seus olhos amarelos e censurosos, antevendo o ponto de exclamação do grito de sua alma.


Voltou os olhos para seu manuscrito, que parecia emitir uma energia incomum, sugando sua mente para dentro de si, fazendo com que suas mãos voltassem a, involuntariamente, traçar linhas e formar palavras, que eram sugadas uma a uma para dentro daquela folha de papel. E a pena voltou a cortar o papel.


***


... Seu corpo inteiro tremia à medida em que se aproximava daquela enorme porta. Será que ele lhe perdoaria? Será que toda aquela caminhada, todo aquele sacrifício, valeria realmente a pena? Ele a amara tanto, e ela fizera tão pouco caso. Tinha realmente o direito de estar ali, naquele templo, reclamando um amor que nem sabia se ainda existia? Estaria ela agindo corretamente ao tentar fazer resgatar um sentimento que ela sabia ter existido, e que a arrebatara a ponto de trazê-la até ali?



Sem pensar tanto, para não ter a chance de desistir novamente, levou sua mão direita à porta, apertando a campainha ao passo em que sentia o medo do erro invadir-lhe...



***


Foi extraído novamente de seu texto ao pensar ter ouvido o som da campainha em sua casa, e foi então que finalmente percebeu. Releu o manuscrito pela última vez, incrédulo, entendendo finalmente o que se passava ali. Não estava criando um texto, estava simplesmente expressando, por meio de uma “meia-ficção”, o que ele queria que acontecesse em sua vida. Via ali tudo o que queria ouvir de seu antigo amor, tudo o que desejava que acontecesse, numa miscelânea entre a dolorosa realidade de seu sentimento incompreendido e a utopia dos rituais e dos agouros da noite.


Sentindo as lágrimas escorrerem tímidas e quentes, jogou a garrafa já vazia de seu scotch barato na parede, vendo sua esperança despedaçar-se ali, sentindo que sua alma estava quebrada em mais pedaços do que aqueles vidros que povoavam o chão do cômodo. Amassou o manuscrito com mãos empenhadas, e jogou-o pela janela, sendo a queda do papel frágil contra o atrito eloqüente do vento a última coisa da qual se lembrava antes de cair num sono profundo, insano e inconsciente sobre aquele chão desfragmentado em cacos.


Então, dormindo a sono profundo, não ouviu quando a campainha soou por mais duas vezes.




Thuan Bigonha de Carvalho

15 de jun. de 2011

Ordem e Progresso.




Amanhecia na Rua da Magnólia, e nem mesmo a mais otimista das senhoras, aquela que varria com os olhos a rua três vezes ao dia procurando algo sobre o que comentar - Dona Carmem - era capaz de imaginar o que ocorreria naquele Logradouro.



A Rua da Magnólia existia há pouco tempo, e suas singelas sete casas se espalhavam pela avenida de forma simétrica, uma de cada cor, completando a simetria com a igreja do finzinho da rua.



O ambiente todo, sem falar de uma forma resumida (mesmo porque não há possibilidade alguma de se resumir algo tão resumido), abrangia uma rua, sete casas, uma igreja, uma mercearia, uma banca, duas latas de lixo, uma sorveteria, uma “mini-praça” com três árvores, um canteiro e dois bancos, um correio, uma escola, um cemitério e um botequim.



Dona Francisca, moradora da imponente casa amarela, voltava da mercearia do seu Adão com uma sacolinha contendo três pães de sal e um saquinho de leite. Nhá Isaura varria a rua em frente a sua casa, preço a se pagar por ter o domicílio mais invejado da rua - a desejada casa verde -, que ficava de frente para a praça. “Vô Lauro”, morador da casa azul, já lia o jornal matinal de dentro da sua banca, enquanto sua esposa, Dona Gilda, arrumava-se impecavelmente para a missa das sete. Dona Carmem, viúva com cinco filhos, tomava seu chá da janela branca de sua casa alaranjada; enquanto seu filho mais velho, Joaquim, abria o ruidoso portão do correio que administrava desde a morte de seu pai, Antônio. Gertrudes, mulher de Seu Adão, regava cuidadosamente o jardim nos fundos de sua casa rosa, e falava alegremente ao telefone com Cláudia, sua irmã tão bem falada, que ainda nova recebeu um convite para ser atriz de cinema, indo morar na cidade grande desde então. Padre Honório, que morava nas dependências da igreja, acabava de levantar-se da primeira oração do dia, e ajeitava o local para a missa de logo mais. Heloísa, anfitriã da casa vermelha, dormia a sono pesado, enquanto seu marido, José, já servia a primeira dose de pinga para Seu Zito, o andarilho que dormia num dos bancos da praça desde que a Rua da Magnólia se entendia por rua. Jorge, morador da casa branca, assim como Heloísa, dormia, pretendendo abrir sua sorveteria apenas depois das nove da manhã.



As coisas aconteciam como todo dia, e se um quadro fosse feito da Rua da Magnólia às seis da manhã, ele se confundiria facilmente com a morosidade da realidade, que se diferenciava a cada amanhecer apenas pela quantidade de folhas que caía das árvores. Assim, tal pintura traria em si a beleza morna de uma rua pacata, a serenidade inerente à simplicidade. Até o derradeiro dia oito de agosto.



O barulho ensurdecedor interrompeu toda a magia daquela manhã ensolarada de domingo, fazendo com que toda a rua permanecesse estática por um breve minuto, e no minuto seguinte, todas as cabeças da cidade se voltavam para o centro da praça, de onde subia uma fumaça cinzenta, com cheiro de enxofre.



Dona Carmem, o olhar atento, a certeza de que aquilo certamente renderia ainda mais assunto do que sua suspeita de que Dona Gilda tinha um caso com o Padre Honório, apressou-se à beira da cratera, seguida apenas por Latido, o cãozinho que acompanhava Seu Zito em suas madrugadas na rua. Lentamente, todos os moradores da Rua da Magnólia se aglomeravam ao redor daquele incidente incomum, esperando a fumaça se dissipar para poder ver o que diabos era aquilo. Padre Honório encontrava-se ajoelhado, seu terço firmemente seguro nas mãos, e nos olhos a certeza do fim do mundo, previsto e anunciado para aquele ano por Dom Célio.



Minutos se passaram até que toda aquela tensão se fosse, e a fenda revelou finalmente sua causa: uma caixa simples de madeira, já aberta, contendo uma espécie de máquina. Após calorosa discussão, Seu Zito foi chantageado a descer e pegar o objeto, sendo a ele prometida, por isso, uma garrafa inteira de pinga. Zito desceu no ato, trazendo a caixa para o banco da praça. Do lado de fora, lia-se:




“Vcs akbam de ganhar um passaporte para o futuro. Nessa caixa tá a eficiência junto com a facilidade, pra q vcs ñ precisem mais se estressar, se preocupar, pq ela reduzirá o tempo p/ vcs, e trará mta felicidade e conforto a tds!”




Em apenas um mês, a sorveteria virou lan house, a banca virou Mc Donald’s, o correio faliu, a mercearia virou supermercado, o cemitério precisou de alguém que o administrasse e de mais dois funcionários, o botequim virou boate, a praça ganhou um policial, as árvores viraram eucalipto, Seu Zito foi preso, Padre Honório começou a aceitar em sua igreja apenas quem estava em dia com o dízimo, as casas foram pintadas todas de marrom, a escola ganhou um diretor - Sr. John -, que trouxe consigo da cidade uma imobiliária e uma indústria automobilística, Dona Carmem tornou-se prefeita, seus cinco filhos tornaram-se vereadores, Latido foi atropelado, “Vô Lauro” morreu de Leptospirose, seu filho morreu de cirrose, seu neto morreu de overdose; e a Rua da Magnólia, que num presente não muito distante cheirava a lavanda, passou a ter um cheiro acre de enxofre, inevitável fragrância do futuro.



“mas não se preocupe, você se acostuma!”, dizia todos os dias o homem, o Deus de terno e gravata que fazia sua voz reverberar de dentro daquela misteriosa caixa...




Sabia das coisas, o velho Dom Célio.





Thuan Bigonha de Carvalho

10 de jun. de 2011

Ausência em Três Atos



Ato 1 - O caminho da percepção



Era noite na Floresta dos Séculos, extensa difusão de natureza e seres míticos que se situava na subida árdua do monte que levava Oráculo de Delfos. Ouvia-se cada sussurro, cada farfalhar de folhas carregadas pelo vento, cada pio sepulcral das aves noturnas.


Era julho.


A temperatura acompanhava o ritmo da noite, ambas caindo paulatinamente, valsando ao som cálido do inverno.


Incessantes e sonoros “cracks!” faziam com que o ar congelasse, e toda a floresta prestava atenção naquela energia estranha, aquele cosmo intenso e lancinante, aquele calor tão... humano.


Os passos furtivos se dirigiam ao coração da floresta, que, onde poucos sabiam, situava-se o altar de Cronos, o Deus do Tempo. Reza a lenda que Cronos cedia o tempo, mas comia cada um dos seres que dele usufruíam, demonstrando a efemeridade que lhe é inerente, e que muitas vezes é negligenciada pelos seres viventes.


O caminho até ali era árduo, mas o rapaz, impulsionado pela força que deveras lhe sustentava, enfim o atingiu.


As árvores pareciam ter sido plantadas numa espécie de “reverência” àquele pequeno pedaço de rocha branca, abrindo um clarão inimaginável no meio de uma mata tão densa. Em torno da rocha, três pequenas flores faziam um triângulo, sendo a primeira - uma bromélia - apenas em botão; a segunda - uma rosa - na flor de sua juventude e beleza; e a terceira - um lírio - parecendo ter sido recentemente morta pelo decurso inevitável do tempo.


Foi ali que o rapaz se ajoelhou, a dobra de seu joelho se encaixando perfeitamente na rocha fria; os pés descalços, marcados pela trilha penosa, agora levemente enterrados naquela terra macia; a coluna levemente curvada para frente; os braços, caídos ao lado do tronco, expressando o mais lívido desgosto; o corpo, completamente nu, sentindo cada parte de si com a intensidade do nascer do sol; e a cabeça mirando os céus, deixando que as lágrimas percorressem toda a vereda de sua face e que se misturassem, ato final, com a magia viva do local.


Foi então que sua voz, pela primeira vez, rasgou o silêncio sussurrante da floresta, fazendo vibrar toda a energia do local no ritmo da energia que guiava seu corpo.


- NNNNÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!



Ato 2 - O monólogo da ira


- Eu, que nunca quis me ver do avesso, que nunca soube ter cabresto, exijo hoje dos confins do tempo uma explicação detalhada sobre o motivo de tanta ausência! Deito aqui, sob a relva fresca dos campos do desentendimento, toda minha indignação quanto à contradição da passagem do tempo, que se faz efêmera na presença, mas que se veste com a mais maléfica das intenções para frear o ponteiro enquanto os corpos se fazem ausentes!


- Ouvi dizer que é a você, Cronos, que tenho que prestar queixas, e é o que eu vim fazer!


- Não, eu não me importo nem um pouco em sofrer com a “ira dos deuses”, em sentir na pele o gosto amargo de sangue e indeferimento, em me ultrajar sobre o altar da piedade... Contanto que me ouçam! Contanto que aliviem essa chaga que corrói cada vértebra de minh’alma! Essa ausência vil que oprime meus sentidos e me faz fraquejar!


-... Eu nunca exigi nada, nunca ergui minhas mãos um só centímetro acima do limite, nunca bradei aos céus contra a autoridade aflitiva de suas decisões; mas quando senti o néctar divino jorrar dos lábios dela, simplesmente senti esvaírem-se todas as concepções todas as leis, todos os sentidos... EU SINTO! Sinto as pontas das facas que transpõem meu corpo, sinto a sede insaciável consumir meu espírito, sinto o vazio contraditório de me sentir tão cheio, SINTO A AUSÊNCIA DE METADE DE MIM, AGORA QUE CONSEGUI ME SENTIR COMPLETO!


- HAHAHAHAHAHAHAHA! Eu não venho implorar sua clemência, Deus da tirania! Venho cobrar a vida que me foi prometida! Se é verdade que vocês regem o universo, então corrija o desacerto covarde de separar duas almas que são uma só! Leve-me de volta àquela que me governa! Permita que meu encontro estatize os ponteiros! Desacelere esse engenho vil que chamas de tempo! Deixe que eu seja a unidade, deixe que meu “eu” seja!


- É só o que peço. Devolva-me a metade que pertence à minha vida, OU EU DEVOLVO A VOCÊS A METADE INÚTIL QUE TEM SIDO A MINHA!



Ato 3 - O lamúrio das horas


Dizendo isso, o rapaz abriu semicerradamente os olhos, e viu refletir em sua frente dois instrumentos reluzentes: do lado direito, uma adaga com o cabo de prata ornado em rubis, extremamente afiada, com um traçado vermelho em sua ponta que era, indubitavelmente, sangue; do lado esquerdo, um jarro de cristal contendo um líquido verde fumegante em seu interior, engalanado externamente em esmeraldas minuciosamente moldadas.


Analisou os dois objetos, e entendeu.


Pegou a adaga com as duas mãos, mirou contra o próprio peito, e desferiu um golpe certo, que permitiu a penetração do metal quente em sua pele. Sentiu então o corpo todo estremecer, quando ouviu uma melodia vinda das copas das árvores, seu tom descendo levemente pelos galhos, flutuando sobre sua cabeça. Ao olhar para cima, reconheceu o espírito de sua metade ali, pairando em luz, derramando lágrimas e canto sobre sua ferida.


Tentou então voltar atrás, retirar o objeto de seu corpo e desfazer aquela ferida que o levaria ao derradeiro momento.


Em vão.


Ali, deitado de costas sobre o lírio da morte, vendo o espírito de sua amada lamuriar as horas, extenuada, foi que ele entendeu que era impossível voltar atrás.




Pois só sentirá a leveza do tempo aquele que prezar pela vida, e se dispuser a saciar sua sede através do líquido infinito da alma.






Thuan Bigonha de Carvalho.