22 de ago. de 2012

Ode à Moderna-Idade



Cabeças ocas e ainda assim preenchidas
Por ecos de morte em cantigas
Mal dormidas, repetidas
Em instantes de desatenção;

Sacolas vazias de amor
E cheias de vil pretensão
Olhos desatentos à cor
Ouvidos cautos à última liquidação;

Abjeta, qual caminhada chata
Passos se vão num compasso avulso
E seguem, de terno e gravata
O ritmo do relógio de pulso;

Mentes inertes, enclausuradas por inteiro
Em informações vindas não se sabe de onde
Crentes - Oh deus do dinheiro!
Descrentes - o amor já se esconde!

Cabeças baixas, olhos distantes
Do Céu, seguem distraídos
Mas sobem tão logo, hesitantes
Se encontram seus irmãos caídos;

Mendigos aos montes esbarram
Em muros de dignidade
Erguidos por poucos, que calam
Ante o doce som da modernidade;

O Sol, se pondo calado
A Lua, nascendo triste
Um, por sequer ser notado
Outra, sem dedos em riste.


À noite em silêncio então oro
Pela arte - flor que insiste em nascer
Orai junto a mim, eu imploro:

Que nesse solo de corações de pedra,
Regai, com suor e prazer,
Rogai, que de amor ela medra.


Thuan Carvalho.

14 de ago. de 2012

Prosa Doce.


Ando represando em ti meus devaneios
Repensando em destruir esses freios
Que mínguam o interior de meu ser,
É que ao sentir sentimentos alheios
Sou incapaz de expressar meus anseios
E gozar com esse estranho prazer;

Ando procurando teu rosto n'Alva Lua
Recitando poemas na rua
Para a pedra no meu caminho,
É que a estrada sempre se insinua
Em toda placa vejo a imagem tua
Vou seguindo, mas sigo sozinho;

Nesse avanço, mesmo que lento
Não te alcanço, e muito a descontento
Dou por mim a mirar meu reflexo,
E por dentre meu corpo cinzento
Tua imagem se forma do vento
E eu me prostro de todo perplexo;


Como eu posso fazer rima se ao piscar tu me alucina com esse olor de cor vermelha?
Inspiro e em mim já se deita o dogma de minha própria seita que em ti por inteira se espelha,
Tal poema já se inclina disfarçado de chacina e sussurra em sua orelha,
Deito a tinta na caneta e num garrancho de cor preta faço mel de tua abelha.





Thuan Carvalho

2 de ago. de 2012

Lamento.


E de tanto se conter,
Derramou em sua jornada;
Do nascer ao perecer,
Uma lágrima contada.

Não chorou quando neném,
Nem tampouco foi criança;
Completou meio vintém,
Sem de choro ter lembrança.

A primeira namorada,
Fez daquilo uma piada
E afastou-o de sua vida;

Foi então que, em agonia,
Derramou uma gota fria
No bilhete suicida.


Thuan Carvalho

21 de jul. de 2012

Fragmentos de Nostalgia.



Tijolo
Vermelho ou alaranjado,
Não importa, ela diria;
Que menino até comia,
Quando estava amarelado.


Hidrante
Vigiava minha entrada,
Com seu terno abotoado;
Ai de quando a molecada
Lhe chovia no molhado!


Entardecer
Vôvô, conte uma história?
Só depois do meu abraço!
Tudo bem. Conte agora?
(e ele olhava, sem demora
espantado em como Flora
era dona de seus traços.)


Xadrez
João, que era bom com o peão,
Não andava a cavalo;
Ritinha, que sonhava ser rainha,
Pôs-se a ensiná-lo.

Francisco, que era filho de um bispo,
Não andava na linha;
Ao provar do fruto proibido,
Se casou com Ritinha.

(Tiveram ainda um neném
Que batizaram Vanderlei;
Soltava pipa como ninguém
E chegou a ser Rei.)




Thuan Carvalho.

15 de jul. de 2012

Psicose.



Confesso que não sabia,
A hora em que você viria,
E por não saber, deixei por fazer
A barba que lhe arranharia.

A casa toda arrumei,
O álcool na pia entornei,
E por entornar, hei de embebedar
Seus restos que nunca encontrei.

Vesti o suéter vermelho,
Olhei-me defronte ao espelho,
E por refletir, pensei em partir
Por fim não segui meu conselho.

Quando foi a sua mudança?
Quem me roubou sua confiança?
E por me roubar, levou pra morar
O amor lado a lado à matança?

Aqui, cadente, inda estou,
Fixado, como me deixou,
E por me deixar, por não regressar
Foi como você me levou.




Thuan Bigonha de Carvalho.

11 de jul. de 2012

Romântico.




Maria, meu curto amor de infância,
Foi uma que amei entre mil;
Mas esta me permaneceu na ânsia,
Mudou-se em meados de abril.

Dez anos sem qualquer notícia,
E quem me aparece na porta?
Maria - meu deus, que delícia -
Quem és é o que menos importa.

Com o corpo inteiro movido,
Pela solidão que me consumia;
Fui ter com ela embebido
de minha alforria.

E constatei, assaz entristecido:

Também não havia
poesia
No gemido
de
Maria.



Thuan B. Carvalho

9 de jul. de 2012

Esotérica.


Fechou os olhos, consternada, e rolou novamente os búzios por sobre a mesa...

O movimento daquela vez fora diferente. A graciosidade envolvida superou qualquer lance anterior. Ambos os braços em concha, dois suspiros, os olhos fechados, narinas dilatadas, a boca numa prece silenciosa, e as pernas cruzadas numa prece inconsciente. O movimento com o pulso fez as tranças balançarem como se dançassem junto à fumaça que provinha dos incensos. Três incensos. Três lamparinas.


O pio da coruja foi trazido por uma coluna de vento que se arrastou molemente pela janela entreaberta, emprestando segredos os mais diversos ao ambiente, deitando contornos finais ao ato. 

Pensou em suicídio quando abriu os olhos, levantou-se, e, pela terceira vez naquela noite, encarou o rosto dele lançando luz àquela penumbra com seus olhos de amêndoa estrelada.



Nádja acordou com as mãos formigando, e a imagem retorcida de um homem que lhe parecia familiar povoando sua mente.

 Amaldiçoou seu sangue cigano, deu um beijo seco no marido e saiu para trabalhar.




Thuan B. Carvalho

28 de jun. de 2012

Transcendência.


Desejou boa noite ao porteiro do clube, amarrou o cadarço do tênis, colocou o fone de ouvido e seguiu para casa.

Distraída no caminho, lembrou-se subitamente do sonho da noite passada, em que voava. Olhou para o céu, como que por instinto, e foi quando recebeu o primeiro pingo de chuva diretamente no queixo. O céu era tomado por um tom cinza-chumbo relampejado de quando em vez por clarões. Uma beleza exótica. 

Parou por um segundo, os olhos fixos nos pingos que desciam cada vez mais rápido, e permitiu-se saborear.

Respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada; amarrou os cabelos, para sentir melhor a chuva; retirou o fone de ouvido, para ouvir os sons do mundo; fechou os olhos, para ver apenas com os outros sentidos; estendeu ambos os braços, a fim de tocar a água que descia do céu; abriu a boca, deixando a água preenchê-la totalmente; largou a bolsa ao chão, para suportar apenas a leveza da chuva. 

Enfim, durante aquele milésimo de eternidade, comungou com seu espírito e foi tudo o que nasceu para ser...


Daí para frente, quem a descreve é o silêncio.
(...)



Thuan B. Carvalho

27 de jun. de 2012

Frenesi.



Etérea, a feminina louca
Armou-se de si, quão desvairada;
Jorrava encantamentos pela boca
Que, ditos, já não valiam nada;

Girava o mundo todo, e sacudia,
Diziam “esta jaz enlouquecida”;
Mas a verdade só ela sabia,
Estava no apogeu, cheia de vida;

A tapas, sem cessar, dispunha a cara
Dor em si era coisa muito pouca
Perto da alegria conquistada;

Jurava que a vida lhe segredara
Naquela voz tão sua, baixa e rouca:
“O mundo, meu amor, é uma piada”.




Thuan B. Carvalho

26 de jun. de 2012

Aflição.



Olhou para trás pela sétima vez enquanto corria desabaladamente, entrando em vielas que julgava nem existirem. Sentia o coração bater no pulso, as pernas cederem ao cansaço, o sangue povoando o corpo, e a adrenalina brotar de cada poro de sua pele. Mas não podia parar. A tensão do momento se intensificava a cada passo, mas ela via luz à frente de uma esquina. Reuniu todas as forças sobressalentes e impulsionou o corpo desgastado rua a frente, na ânsia de alcançar aquele ponto luminoso. Sabia que era sua última chance. Tinha que continuar. Por si, por seus filhos, por seus pais. Inspirou pelo que parecia ser a última vez, levou os pés com sua força derradeira, e chegou finalmente ao fim da rua.

Mas então, quando virou a esquina...



Thuan Carvalho.

16 de jun. de 2012

EnForca.




_ O _ A _ _ O


...

Estranho é viver num mundo em que cada vez mais se coloca horário onde sempre vai caber o coração.



Thuan Bigonha de Carvalho.

6 de jun. de 2012

A Rosa do Amor














Quando o Amor fora moleque arteiro,
Nos Jardins da Eternidade,
Desafiou quem seria o primeiro
A pecar pela quantidade.

Havia em teus rosais um letreiro
Vestido da perene verdade
Gritando: “espinho faceiro!
Toque e ficarás por metade.”

O amante, achando absurdo,
Vestido de amor e paixão,
Fez-se então de ouvinte a surdo;

A mensagem transpassou suas orelhas,
Seu regado fez das rosas vermelhas,
Com o sangue de seu Coração.


                                 Thuan B. Carvalho

9 de abr. de 2012

O Abrir de Abril


Abril. Abriu. Abril. Abriu. ...

Abriu-se. O trinco pende de lado, opaco. Havia ali antes uma porta? Não saberia dizer. O cheiro de mofo intrínseco à madeira sugeria velhice. As cores inerentes ao arabesco em sua maçaneta sugeriam juventude. Cedo ou tarde, era tempo de atravessar. Olhos abertos. Respiração lenta. Força. Coragem. Suor e lágrimas.

Folhas, muitas delas. Caídas. Arrancadas. Leves e secas. Vermelhas. O Verão passou por ali, pensou. Árvores nuas. Despidas de si. Paredes acinzentadas, construídas por pequenos ramos disformes de galhos. Não, espera... Na verdade são... palavras? Palavras de todas as classes e gêneros. A composição do local era a página de um livro borrada. Palavras. Outrora lhe disseram tanto!

Sentou-se. Vazio. Onde é que estava o silêncio? Em seu ouvido zumbiam a algazarra de mil vozes. Vozes. Vozes. Palavras. Nenhum acorde. Cordas grossas passavam por todos os lados. Cordas vocais que transportavam uma espécie de líquido. Opaco. Vazio.

Súbito. Arrojo. Ímpeto. Mãos puxavam cordas. Unhas descascavam palavras. Rasgou todas as letras. Engoliu algumas, cuspiu outras. Destroçou incessantemente. O local começou a se revelar. Paredes tão vermelhas quanto poderiam ser. Um piso pulsante como um vulcão. E quente. Um calor imenso começou a preencher o local.

Num único rompante, rompeu o instante.

A pureza o tocou. Esvaziou-se de palavras. Dali para frente, seriam ações. Revigorava-se. Vigor. Energia. Sangue. Calor. Sentidos. Coração.

Satisfeito e coberto de sangue, deixou apenas encostada a porta que se Abril.  


Thuan Bigonha de Carvalho

14 de fev. de 2012

Verso do Só ___________________________ quando juntos as palavras são ações



Quão me atinge ser de longe
De teu suspiro violento
Me endoideço - feito monge
N’oração que, intensa, range
O altar do pensamento

Que infortúnio é a distância
Ao criar esse tabu
Me permanece na ânsia
De me perder na fragrância
Que envolve teu corpo nu

Até o aperto de teus dedos
Que na madrugada praticas
me tomam; Que mãos de rochedos!
A saudade me despe os segredos
O corvo da ausência me bica

Quem me dera teu tenro calor
Transformando saudade em ardor
E o tempo do “só” derretido


Para enfim preencher a noite, amor,
- estarrecido
Com o eterno silêncio de teu gemido








Thuan Bigonha de Carvalho

1 de fev. de 2012

Obaké



O horizonte de meus anseios já não põe o Sol
O céu se estatiza num inebriante furta-cor
As ondas se ajoelham perante a magistral
Eloqüência do amor

O ar falta a si de tão denso
Às sombras não existe saída
A areia que trás os teus pés
É a areia da vida

Os seres, arfantes, proclamam
Imóveis em suas pegadas
Com vozes suaves, que cantam
Boleros das Terras Sagradas

O caminho em ti é tão claro
Teus mares, teu corpo e tuas cores
Que cedo me sonho em teus laços
A morrer de amores

E essa tensão que afaga e conduz
É a expressão mais clara e sincera
De que vieste, ao longo das eras
a banhar-me em luz






Thuan B. Carvalho

7 de dez. de 2011

Deserto Amarelo



Sou de ti o mais novo escravo
Tocaste-me na mais plena imensidão
É em tua pura carne que me lavo
Dela própria, a eterna perdição

Sois em mim o certo e o errado
Tens em posse nobre coração
E eu, a ele atrelado
Sou prova do amor tão sagrado
Que explode a cada geração

E assim, pássaro ferido
Sem ti me comparo a uma trema
Me encontro deveras perdido
Só tu me desperta o sentido
És indescritível poema

E essa sede, quão desmedida
De poder-te sempre um pouco mais
Toca fundo a latente ferida
Que de partes já não se satisfaz

Ao mirar-te de relance já não creio
És miragem, utopia, devaneio
Pois que a imagem, tão funesta, da partida
Alimenta terrivelmente meu receio

E me pego então a questionar
Inda n’ânsia silente do deserto
Qual a cor de tão intenso verbo amar?
Como tê-lo de ausente tão concreto?



Eterno, imenso e belo:
O amor é um deserto
amarelo.




"e dele deserta,
quem, cego, na certa
não entende que AMAR
é um ELO..."




Thuan B. Carvalho


; assim como era no princípio, agora e sempre.

3 de nov. de 2011

Ações e Sensações



Passa,
E eu invento
O vento.

Anda,
E eu espanto
O pranto.

Dorme,
E o aconchego
Chega.

Clama,
E me acende
A chama.

Voa,
Vai feito nave
Ave.

Chamo,
E não me escuta
Bruta.

Cala,
E se não ouço
Fala.

Maga,
Se sou duende
Prende.

Bruxa,
Se me afasto
Puxa.

Artista,
Lutando esgrima
Rima.

Tento
Prendê-la em frase
Quase!

Leve,
Grão de poeira
Esgueira.

Próxima,
Sinto seu cheiro
Inteiro.

Morde,
A boca intensa
Tensa.

Sopra,
E de arrepio
Rio.

Navega,
E não firma o leme
Treme.

Goza,
E se entrega
Rega;

Prosa,
E o céu de azul:
Rosa.


Thuan B. Carvalho

17 de set. de 2011

não chores mais, não.



(...) mas princesa, não chores não;
Que teu choro me parte, me quebra
Transforma meu pássaro em pedra
E sufoca.

Ei, amor, não chores não;
Que teu choro é o prelúdio da morte
É o som de uma faca no corte
E corta.

Vida, por favor, não chores não;
Que teu sorriso é a prece que rogo
Em teu choro eu somente me afogo
E me ardo.

Mas paixão, não chores mais não;
Que tua lágrima é dos venenos o mais mortal
Em contato com o ar me é letal
E castiga.

Ei, existência, não chores não;
Que teu choro molha os dias nefastos
Faz babel, interrompem-se os astros
E me rasga.

Sereia, por favor, não chores não;
Que teu choro é o meu mortuário
É o som que me lembra do horário
Um nocaute.


Psiu, mulher, não chores não;
Que teu choro me lança da ponte
É a água que escorre da fonte
E não sacia.

Mas deusa, por favor, não chores mais não;
Que teu sorriso é o sinal que me ala
E cada lágrima que teu olhar exala
Me aproxima do chão.






Thuan Bigonha de Carvalho.

2 de set. de 2011

A Mulher Tinteiro



Vem sem medo, insólita, e em sua expiração carrega a certeza de que, ato próximo, inspirará. Não se confunde jamais, líquido heterogêneo de uma mistura que, por mais materialmente separada que possa parecer, é monofásica.


Possui quatro fases, essa personificação lunar: Percorre a terra, durante o princípio do dia, com seu corpo ardente e inconstante, varrendo o choro das crianças e trazendo o amanhecer aos olhos dos animais; Extenuada, dorme e afoga seus cabelos no mar durante a tarde fresca, tornando-se a si um cardume de emoções que, pesadamente, baqueia o fundo do oceano e ilumina a profundeza de além-mar; Seu instante é breve, e tão logo laqueou as órbitas, resplandece num vôo clamando combate, exigindo do crepúsculo mais atitude do que - como ela mesma diz - “simplesmente levar o sol e trazer a lua”, rasando pelos confins da Terra e de todas as Terras, pintando estrelas no céu de todos os reinos com a energia que jamais lhe desampara; Até que então, fase derradeira, suspira e já não é mais suspiro, desabrocha o sentimento que já não tem, resume a madrugada em silêncio e colóquio, e os pássaros que não ouvimos na alvorada - são todos ela - espectro sublime, enobrecendo o sono do mundo com a ária que deriva do farfalhar das asas de sua alma.


Anormal, atípica, irregular, desnivela a ampulheta dos corações dispostos, altera a freqüência do tempo e do espaço, desmantela a noção de gravidade do momento que até então era grave, e que, após sua passagem, flutua entorpecido e pacífico, inativamente agravitacional.



Assim, borralheira e gata, princesa e feiticeira, emoldura minha abstração insípida, contorna meu semblante vago; e chove, no meio desse tornado de emoções sobrepostas, nada mais do que a certeza de que é ela a cor que dá aspecto aos versos que rabisco.




Thuan Bigonha de Carvalho.

4 de ago. de 2011

A Terra em que é Proibido Sofrer




Na terra em que é proibido sofrer, a morte vem a cavalo.
As placas nas cidades dão bom-dia e boa-noite, e indicam o melhor lugar para se sentar sob uma fresca e prazerosa sombra. Os dias muito quentes e muito frios passam rápido, assim como os dias de saudade; enquanto os dias agradáveis passam lentos - um pássaro que plana numa tarde de segunda-feira.

Na terra em que é proibido sofrer, a idade é experiência.
Não há chá que não cure, não há raça que não se misture, nem amor que não dure. Lá, de madrugada, é possível ouvir o som do mundo, sua leve respiração enquanto adormece lentamente, entrecortada de quando em vez pelo pio de uma coruja.
(reza a lenda que quem faz amor de madrugada na terra em que é proibido sofrer ouve os sons de um mundo diferente, mas isso é só uma lenda.)

Na terra em que é proibido sofrer, os sinais são de esperança.

Quem espera sempre alcança, todo mundo indé criança, e a vingança não passa de um prato que não se come nunca. O planeta gira ao contrário, o pesar é imaginário, e hospitais são canários que devolvem a alma ao infinito.

Reis, magos, bruxas, anões, dragões, gnomos, cavaleiros, amazonas, duendes, elfos e anciãos já se perderam incontáveis vezes ao procurar a terra em que é proibido sofrer; sem saber que ela não passa de um X incrustado no mapa da alma de cada um.
Ou seja, para encontrar a terra em que é proibido sofrer, basta encontrar a si.







Thuan Bigonha de Carvalho