14 de ago. de 2012
Prosa Doce.
2 de ago. de 2012
Lamento.
E de tanto se conter,
Derramou em sua jornada;
Do nascer ao perecer,
Uma lágrima contada.
Não chorou quando neném,
Nem tampouco foi criança;
Completou meio vintém,
Sem de choro ter lembrança.
A primeira namorada,
Fez daquilo uma piada
E afastou-o de sua vida;
Foi então que, em agonia,
Derramou uma gota fria
No bilhete suicida.
21 de jul. de 2012
Fragmentos de Nostalgia.
Tijolo
Vermelho ou alaranjado,
Não importa, ela diria;
Que menino até comia,
Quando estava amarelado.
Hidrante
Vigiava minha entrada,
Com seu terno abotoado;
Ai de quando a molecada
Lhe chovia no molhado!
Entardecer
Vôvô, conte uma história?
Só depois do meu abraço!
Tudo bem. Conte agora?
(e ele olhava, sem demora
espantado em como Flora
era dona de seus traços.)
Xadrez
João, que era bom com o peão,
Não andava a cavalo;
Ritinha, que sonhava ser rainha,
Pôs-se a ensiná-lo.
Francisco, que era filho de um bispo,
Não andava na linha;
Ao provar do fruto proibido,
Se casou com Ritinha.
(Tiveram ainda um neném
Que batizaram Vanderlei;
Soltava pipa como ninguém
E chegou a ser Rei.)
Thuan Carvalho.
15 de jul. de 2012
Psicose.
Confesso que não sabia,
A hora em que você viria,
E por não saber, deixei por fazer
A barba que lhe arranharia.
A casa toda arrumei,
O álcool na pia entornei,
E por entornar, hei de embebedar
Seus restos que nunca encontrei.
Vesti o suéter vermelho,
Olhei-me defronte ao espelho,
E por refletir, pensei em partir
Por fim não segui meu conselho.
Quando foi a sua mudança?
Quem me roubou sua confiança?
E por me roubar, levou pra morar
O amor lado a lado à matança?
Aqui, cadente, inda estou,
Fixado, como me deixou,
E por me deixar, por não regressar
Foi como você me levou.
11 de jul. de 2012
Romântico.
9 de jul. de 2012
Esotérica.
28 de jun. de 2012
Transcendência.
27 de jun. de 2012
Frenesi.
26 de jun. de 2012
Aflição.
16 de jun. de 2012
EnForca.
6 de jun. de 2012
A Rosa do Amor
9 de abr. de 2012
O Abrir de Abril
14 de fev. de 2012
Verso do Só ___________________________ quando juntos as palavras são ações

De teu suspiro violento
Me endoideço - feito monge
N’oração que, intensa, range
O altar do pensamento
Que infortúnio é a distância
Ao criar esse tabu
Me permanece na ânsia
De me perder na fragrância
Que envolve teu corpo nu
Até o aperto de teus dedos
Que na madrugada praticas
me tomam; Que mãos de rochedos!
A saudade me despe os segredos
O corvo da ausência me bica
Quem me dera teu tenro calor
Transformando saudade em ardor
E o tempo do “só” derretido
Para enfim preencher a noite, amor,
- estarrecido
Com o eterno silêncio de teu gemido
1 de fev. de 2012
Obaké
O céu se estatiza num inebriante furta-cor
As ondas se ajoelham perante a magistral
Eloqüência do amor
O ar falta a si de tão denso
Às sombras não existe saída
A areia que trás os teus pés
É a areia da vida
Os seres, arfantes, proclamam
Imóveis em suas pegadas
Com vozes suaves, que cantam
Boleros das Terras Sagradas
O caminho em ti é tão claro
Teus mares, teu corpo e tuas cores
Que cedo me sonho em teus laços
A morrer de amores
E essa tensão que afaga e conduz
É a expressão mais clara e sincera
De que vieste, ao longo das eras
a banhar-me em luz
7 de dez. de 2011
Deserto Amarelo

Tocaste-me na mais plena imensidão
É em tua pura carne que me lavo
Dela própria, a eterna perdição
Sois em mim o certo e o errado
Tens em posse nobre coração
E eu, a ele atrelado
Sou prova do amor tão sagrado
Que explode a cada geração
E assim, pássaro ferido
Sem ti me comparo a uma trema
Me encontro deveras perdido
Só tu me desperta o sentido
És indescritível poema
E essa sede, quão desmedida
De poder-te sempre um pouco mais
Toca fundo a latente ferida
Que de partes já não se satisfaz
Ao mirar-te de relance já não creio
És miragem, utopia, devaneio
Pois que a imagem, tão funesta, da partida
Alimenta terrivelmente meu receio
E me pego então a questionar
Inda n’ânsia silente do deserto
Qual a cor de tão intenso verbo amar?
Como tê-lo de ausente tão concreto?
O amor é um deserto
amarelo.
"e dele deserta,
quem, cego, na certa
não entende que AMAR
é um ELO..."
3 de nov. de 2011
Ações e Sensações

E eu invento
O vento.
Anda,
E eu espanto
O pranto.
Dorme,
E o aconchego
Chega.
Clama,
E me acende
A chama.
Voa,
Vai feito nave
Ave.
Chamo,
E não me escuta
Bruta.
Cala,
E se não ouço
Fala.
Maga,
Se sou duende
Prende.
Bruxa,
Se me afasto
Puxa.
Artista,
Lutando esgrima
Rima.
Tento
Prendê-la em frase
Quase!
Leve,
Grão de poeira
Esgueira.
Próxima,
Sinto seu cheiro
Inteiro.
Morde,
A boca intensa
Tensa.
Sopra,
E de arrepio
Rio.
Navega,
E não firma o leme
Treme.
Goza,
E se entrega
Rega;
Prosa,
E o céu de azul:
Rosa.
17 de set. de 2011
não chores mais, não.

Que teu choro me parte, me quebra
Transforma meu pássaro em pedra
E sufoca.
Ei, amor, não chores não;
Que teu choro é o prelúdio da morte
É o som de uma faca no corte
E corta.
Vida, por favor, não chores não;
Que teu sorriso é a prece que rogo
Em teu choro eu somente me afogo
E me ardo.
Mas paixão, não chores mais não;
Que tua lágrima é dos venenos o mais mortal
Em contato com o ar me é letal
E castiga.
Ei, existência, não chores não;
Que teu choro molha os dias nefastos
Faz babel, interrompem-se os astros
E me rasga.
Sereia, por favor, não chores não;
Que teu choro é o meu mortuário
É o som que me lembra do horário
Um nocaute.
Psiu, mulher, não chores não;
Que teu choro me lança da ponte
É a água que escorre da fonte
E não sacia.
Mas deusa, por favor, não chores mais não;
Que teu sorriso é o sinal que me ala
E cada lágrima que teu olhar exala
Me aproxima do chão.
Thuan Bigonha de Carvalho.
2 de set. de 2011
A Mulher Tinteiro
Possui quatro fases, essa personificação lunar: Percorre a terra, durante o princípio do dia, com seu corpo ardente e inconstante, varrendo o choro das crianças e trazendo o amanhecer aos olhos dos animais; Extenuada, dorme e afoga seus cabelos no mar durante a tarde fresca, tornando-se a si um cardume de emoções que, pesadamente, baqueia o fundo do oceano e ilumina a profundeza de além-mar; Seu instante é breve, e tão logo laqueou as órbitas, resplandece num vôo clamando combate, exigindo do crepúsculo mais atitude do que - como ela mesma diz - “simplesmente levar o sol e trazer a lua”, rasando pelos confins da Terra e de todas as Terras, pintando estrelas no céu de todos os reinos com a energia que jamais lhe desampara; Até que então, fase derradeira, suspira e já não é mais suspiro, desabrocha o sentimento que já não tem, resume a madrugada em silêncio e colóquio, e os pássaros que não ouvimos na alvorada - são todos ela - espectro sublime, enobrecendo o sono do mundo com a ária que deriva do farfalhar das asas de sua alma.
Anormal, atípica, irregular, desnivela a ampulheta dos corações dispostos, altera a freqüência do tempo e do espaço, desmantela a noção de gravidade do momento que até então era grave, e que, após sua passagem, flutua entorpecido e pacífico, inativamente agravitacional.
Assim, borralheira e gata, princesa e feiticeira, emoldura minha abstração insípida, contorna meu semblante vago; e chove, no meio desse tornado de emoções sobrepostas, nada mais do que a certeza de que é ela a cor que dá aspecto aos versos que rabisco.
Thuan Bigonha de Carvalho.
4 de ago. de 2011
A Terra em que é Proibido Sofrer

As placas nas cidades dão bom-dia e boa-noite, e indicam o melhor lugar para se sentar sob uma fresca e prazerosa sombra. Os dias muito quentes e muito frios passam rápido, assim como os dias de saudade; enquanto os dias agradáveis passam lentos - um pássaro que plana numa tarde de segunda-feira.
Na terra em que é proibido sofrer, a idade é experiência.
Não há chá que não cure, não há raça que não se misture, nem amor que não dure. Lá, de madrugada, é possível ouvir o som do mundo, sua leve respiração enquanto adormece lentamente, entrecortada de quando em vez pelo pio de uma coruja.
(reza a lenda que quem faz amor de madrugada na terra em que é proibido sofrer ouve os sons de um mundo diferente, mas isso é só uma lenda.)
Na terra em que é proibido sofrer, os sinais são de esperança.
Reis, magos, bruxas, anões, dragões, gnomos, cavaleiros, amazonas, duendes, elfos e anciãos já se perderam incontáveis vezes ao procurar a terra em que é proibido sofrer; sem saber que ela não passa de um X incrustado no mapa da alma de cada um.
Ou seja, para encontrar a terra em que é proibido sofrer, basta encontrar a si.
Afinal, quanto custa?

Um sopro de verdade,
Andar pela cidade; quanto custa?
Amor na flor da idade,
Chuva de fim de tarde,
Tensão que mansa invade - e que assusta!
Quanto custa?
Um pingo de piedade,
Boiar sem densidade,
Ser a própria gravidade! Quanto custa?
Diz! Quanto custa?!
Que eu vendo a mocidade,
Leilôo a tempestade,
Dispenso a qualidade, tão fajuta!
Depeno essa maldade,
Transbordo de bondade,
Encaro a cristandade - vou à luta!
E se acaso, dia funesto
Seu Deus, quão desonesto!
Quiser a minha vida
Por achar a troca injusta;
Darei-a, não interessa
Para o amor não terei pressa
Se me for respondido
Quanto custa.
30 de jun. de 2011
Translucidez

O casarão, a quem olhasse à primeira vista, encontrava-se inteiramente na escuridão. As dezenas de janelas de ferro frio abrigavam em si a intensa cor da noite, exceto pela última delas, a mais alta - visão minuciosa, que continha em si uma nesga de luz bruxuleante. E no interior daquele cômodo, à luz de três velas, ele escrevia.
***
... Corria como nunca o havia feito, deixando atrás de si o grito insuperável das noites sombrias, que somente uma noite como aquelas poderia proferir. Sua respiração era dificultada pela densidade do ar naquela altura, mas nem a escassez de oxigênio a fazia parar. Nada a faria.
Os agouros noturnos a perseguiam em forma de grito, mote que a fez parar, colocar as mãos na cabeça, massagear a têmpora por um breve instante, com os olhos castanhos fechados, tentando sentir qualquer coisa que a livrasse daquela sensação ruim de estar sendo seguida, de estar confrontando a realidade, de estar cansada por remar contra a maré.
***
Prazeroso, ele conseguiu extrair sua mente do papel por um instante, sentindo fluírem por seu corpo todas aquelas energias que ele já conhecia, e deu uma olhada narcisista no calo em sua mão, deixando a pena respingar levemente no papel onde escrevia. Levantou-se da cadeira, afastou-se da escrivaninha e foi até a janela, pensando ter ouvido um som estranho da pequena reserva florestal que margeava sua casa. Feliz por notar na noite a magia que queria transcrever, tornou a mergulhar a pena no tinteiro.
***
... Um corvo crocitou ao longe simultaneamente ao momento em que um espinho penetrava-lhe a sola calejada dos pés, fazendo com que ela se sentasse num tronco oco, vendo o sangue escorrer lentamente do pequeno orifício. Eu mereço isso, pensou. EU MEREÇO TUDO ISSO! E com tal convicção, abraçou a dor que a noite lhe afligia com a mesma afeição com que se abraça um amigo íntimo, e sentindo-se mais forte, recomeçou a caminhar, já podendo ver ao longe as pilastras brancas da entrada do paraíso. Ou inferno. Um lobo emitiu um uivo triste, e aquela nuvem enorme e cinza insistia em manter o luar por detrás de si, alimentando-se de sua luz para parecer mais forte, mais intensa.
***
Um arrepio percorreu-lhe o corpo, quando ouviu um uivo forte saindo da noite, invadindo a janela do cômodo onde se encontrava, e eriçando seu corpo por inteiro. Levantou-se pela segunda vez, o copo de scotch em mãos, e encaminhou-se até a janela. A noite permanecia intocável como uma pintura, mas o rapaz tinha a sensação de que algo se movia ali. Chacoalhou a cabeça, tentando afastar a imagem dela, que novamente começava a lhe acossar. Levantou por um instante a foto na estante, recolocando-a virada para baixo após uma breve admirada. Aquela não era uma lembrança que lhe fazia bem. Freou o ímpeto egoístico que lhe surgia com mais uma golada de scotch, tomou a pena novamente em mãos e sentiu a mente se distanciar novamente, enquanto a tinta acariciava o papel.
***
...O momento último de percepção pareceu-lhe afagar a alma, e a caminhada pareceu transcorrer, dali para frente, como se certa fosse, como se a guerra com os astros fosse incomum e necessária. Ao finalmente conseguir ver os contornos da casa, apertou a carta dele contra o peito, sentindo as lágrimas já começarem a brotar. Não. Não iria fraquejar agora. Durou dois anos sua briga interior, mas alguém, enfim, havia vencido. Empurrou forte o portão de ferro da entrada, encarando de igual as criaturas da noite que ali se encontravam, estátuas sem rosto, cinzas e sem luz, todas com o olhar ferino indagando sua presença ali.
Conhecedora do local, retirou das vestes o pedaço de metal que havia trazido consigo, e traçou um círculo ao redor de si, delineando em seguida traços disformes dentro do mesmo, percorrendo toda a extensão da terra, passando por sob seus pés, mas não excedendo o espaço circular, que agora recebia uma fina cortina de luz.
Ao som dos agouros da noite, deixou-se movimentar sem qualquer coordenação, enquanto lentamente recebia marcas azuis por todo o corpo, sentindo cada pedaço de si esquentar na medida em que o sangue fluía mais rápido. E ali, no auge do fluxo sanguíneo, retirou o espinho que lhe mostrara a dificuldade do caminho, e que ela havia guardado, fazendo com ele um pequeno furo na palma da mão direita, pressionando-a em seguida contra a terra fria. Girou as mãos até onde a flexibilidade de seu braço permitiu, e ao erguer os olhos, viu cada estátua ganhar vida, abrir as asas e subir tão alto quanto as nuvens, deixando o caminho finalmente livre.
Levantou-se com dificuldade, ergueu o pescoço à última janela da casa, e notou a luz que ali bruxuleava, em contraste com toda a imensidão sem cor que cobria o resto da visão.
***
O suor de suas mãos passava a deixar marcas em seu manuscrito, motivo que o fez parar pela terceira vez. Releu o que já tinha escrito até o momento, sentindo uma estranha familiaridade com aquilo tudo. Não se recordava de onde tinha acendido aquela inspiração, mas tinha certeza de que já a conhecia.
A estranheza do calor que lhe subia naquela madrugada fria fez com que ele enchesse o copo novamente, sentindo que o álcool já influenciava em seu discernimento. A pintura na parede atrás da escrivaninha, sua preferida, que retratava a constelação de Lynx - o Lince, parecia delinear-se num enorme Lince Negro, fitando-o com seus olhos amarelos e censurosos, antevendo o ponto de exclamação do grito de sua alma.
Voltou os olhos para seu manuscrito, que parecia emitir uma energia incomum, sugando sua mente para dentro de si, fazendo com que suas mãos voltassem a, involuntariamente, traçar linhas e formar palavras, que eram sugadas uma a uma para dentro daquela folha de papel. E a pena voltou a cortar o papel.
***
... Seu corpo inteiro tremia à medida em que se aproximava daquela enorme porta. Será que ele lhe perdoaria? Será que toda aquela caminhada, todo aquele sacrifício, valeria realmente a pena? Ele a amara tanto, e ela fizera tão pouco caso. Tinha realmente o direito de estar ali, naquele templo, reclamando um amor que nem sabia se ainda existia? Estaria ela agindo corretamente ao tentar fazer resgatar um sentimento que ela sabia ter existido, e que a arrebatara a ponto de trazê-la até ali?
Sem pensar tanto, para não ter a chance de desistir novamente, levou sua mão direita à porta, apertando a campainha ao passo em que sentia o medo do erro invadir-lhe...
***
Foi extraído novamente de seu texto ao pensar ter ouvido o som da campainha em sua casa, e foi então que finalmente percebeu. Releu o manuscrito pela última vez, incrédulo, entendendo finalmente o que se passava ali. Não estava criando um texto, estava simplesmente expressando, por meio de uma “meia-ficção”, o que ele queria que acontecesse em sua vida. Via ali tudo o que queria ouvir de seu antigo amor, tudo o que desejava que acontecesse, numa miscelânea entre a dolorosa realidade de seu sentimento incompreendido e a utopia dos rituais e dos agouros da noite.
Sentindo as lágrimas escorrerem tímidas e quentes, jogou a garrafa já vazia de seu scotch barato na parede, vendo sua esperança despedaçar-se ali, sentindo que sua alma estava quebrada em mais pedaços do que aqueles vidros que povoavam o chão do cômodo. Amassou o manuscrito com mãos empenhadas, e jogou-o pela janela, sendo a queda do papel frágil contra o atrito eloqüente do vento a última coisa da qual se lembrava antes de cair num sono profundo, insano e inconsciente sobre aquele chão desfragmentado em cacos.
Então, dormindo a sono profundo, não ouviu quando a campainha soou por mais duas vezes.
Thuan Bigonha de Carvalho
15 de jun. de 2011
Ordem e Progresso.

Amanhecia na Rua da Magnólia, e nem mesmo a mais otimista das senhoras, aquela que varria com os olhos a rua três vezes ao dia procurando algo sobre o que comentar - Dona Carmem - era capaz de imaginar o que ocorreria naquele Logradouro.
A Rua da Magnólia existia há pouco tempo, e suas singelas sete casas se espalhavam pela avenida de forma simétrica, uma de cada cor, completando a simetria com a igreja do finzinho da rua.
O ambiente todo, sem falar de uma forma resumida (mesmo porque não há possibilidade alguma de se resumir algo tão resumido), abrangia uma rua, sete casas, uma igreja, uma mercearia, uma banca, duas latas de lixo, uma sorveteria, uma “mini-praça” com três árvores, um canteiro e dois bancos, um correio, uma escola, um cemitério e um botequim.
Dona Francisca, moradora da imponente casa amarela, voltava da mercearia do seu Adão com uma sacolinha contendo três pães de sal e um saquinho de leite. Nhá Isaura varria a rua em frente a sua casa, preço a se pagar por ter o domicílio mais invejado da rua - a desejada casa verde -, que ficava de frente para a praça. “Vô Lauro”, morador da casa azul, já lia o jornal matinal de dentro da sua banca, enquanto sua esposa, Dona Gilda, arrumava-se impecavelmente para a missa das sete. Dona Carmem, viúva com cinco filhos, tomava seu chá da janela branca de sua casa alaranjada; enquanto seu filho mais velho, Joaquim, abria o ruidoso portão do correio que administrava desde a morte de seu pai, Antônio. Gertrudes, mulher de Seu Adão, regava cuidadosamente o jardim nos fundos de sua casa rosa, e falava alegremente ao telefone com Cláudia, sua irmã tão bem falada, que ainda nova recebeu um convite para ser atriz de cinema, indo morar na cidade grande desde então. Padre Honório, que morava nas dependências da igreja, acabava de levantar-se da primeira oração do dia, e ajeitava o local para a missa de logo mais. Heloísa, anfitriã da casa vermelha, dormia a sono pesado, enquanto seu marido, José, já servia a primeira dose de pinga para Seu Zito, o andarilho que dormia num dos bancos da praça desde que a Rua da Magnólia se entendia por rua. Jorge, morador da casa branca, assim como Heloísa, dormia, pretendendo abrir sua sorveteria apenas depois das nove da manhã.
As coisas aconteciam como todo dia, e se um quadro fosse feito da Rua da Magnólia às seis da manhã, ele se confundiria facilmente com a morosidade da realidade, que se diferenciava a cada amanhecer apenas pela quantidade de folhas que caía das árvores. Assim, tal pintura traria em si a beleza morna de uma rua pacata, a serenidade inerente à simplicidade. Até o derradeiro dia oito de agosto.
O barulho ensurdecedor interrompeu toda a magia daquela manhã ensolarada de domingo, fazendo com que toda a rua permanecesse estática por um breve minuto, e no minuto seguinte, todas as cabeças da cidade se voltavam para o centro da praça, de onde subia uma fumaça cinzenta, com cheiro de enxofre.
Dona Carmem, o olhar atento, a certeza de que aquilo certamente renderia ainda mais assunto do que sua suspeita de que Dona Gilda tinha um caso com o Padre Honório, apressou-se à beira da cratera, seguida apenas por Latido, o cãozinho que acompanhava Seu Zito em suas madrugadas na rua. Lentamente, todos os moradores da Rua da Magnólia se aglomeravam ao redor daquele incidente incomum, esperando a fumaça se dissipar para poder ver o que diabos era aquilo. Padre Honório encontrava-se ajoelhado, seu terço firmemente seguro nas mãos, e nos olhos a certeza do fim do mundo, previsto e anunciado para aquele ano por Dom Célio.
Minutos se passaram até que toda aquela tensão se fosse, e a fenda revelou finalmente sua causa: uma caixa simples de madeira, já aberta, contendo uma espécie de máquina. Após calorosa discussão, Seu Zito foi chantageado a descer e pegar o objeto, sendo a ele prometida, por isso, uma garrafa inteira de pinga. Zito desceu no ato, trazendo a caixa para o banco da praça. Do lado de fora, lia-se:
“Vcs akbam de ganhar um passaporte para o futuro. Nessa caixa tá a eficiência junto com a facilidade, pra q vcs ñ precisem mais se estressar, se preocupar, pq ela reduzirá o tempo p/ vcs, e trará mta felicidade e conforto a tds!”
Em apenas um mês, a sorveteria virou lan house, a banca virou Mc Donald’s, o correio faliu, a mercearia virou supermercado, o cemitério precisou de alguém que o administrasse e de mais dois funcionários, o botequim virou boate, a praça ganhou um policial, as árvores viraram eucalipto, Seu Zito foi preso, Padre Honório começou a aceitar em sua igreja apenas quem estava em dia com o dízimo, as casas foram pintadas todas de marrom, a escola ganhou um diretor - Sr. John -, que trouxe consigo da cidade uma imobiliária e uma indústria automobilística, Dona Carmem tornou-se prefeita, seus cinco filhos tornaram-se vereadores, Latido foi atropelado, “Vô Lauro” morreu de Leptospirose, seu filho morreu de cirrose, seu neto morreu de overdose; e a Rua da Magnólia, que num presente não muito distante cheirava a lavanda, passou a ter um cheiro acre de enxofre, inevitável fragrância do futuro.
“mas não se preocupe, você se acostuma!”, dizia todos os dias o homem, o Deus de terno e gravata que fazia sua voz reverberar de dentro daquela misteriosa caixa...
Sabia das coisas, o velho Dom Célio.
Thuan Bigonha de Carvalho
10 de jun. de 2011
Ausência em Três Atos

Ato 1 - O caminho da percepção
Era noite na Floresta dos Séculos, extensa difusão de natureza e seres míticos que se situava na subida árdua do monte que levava Oráculo de Delfos. Ouvia-se cada sussurro, cada farfalhar de folhas carregadas pelo vento, cada pio sepulcral das aves noturnas.
Era julho.
A temperatura acompanhava o ritmo da noite, ambas caindo paulatinamente, valsando ao som cálido do inverno.
Incessantes e sonoros “cracks!” faziam com que o ar congelasse, e toda a floresta prestava atenção naquela energia estranha, aquele cosmo intenso e lancinante, aquele calor tão... humano.
Os passos furtivos se dirigiam ao coração da floresta, que, onde poucos sabiam, situava-se o altar de Cronos, o Deus do Tempo. Reza a lenda que Cronos cedia o tempo, mas comia cada um dos seres que dele usufruíam, demonstrando a efemeridade que lhe é inerente, e que muitas vezes é negligenciada pelos seres viventes.
O caminho até ali era árduo, mas o rapaz, impulsionado pela força que deveras lhe sustentava, enfim o atingiu.
As árvores pareciam ter sido plantadas numa espécie de “reverência” àquele pequeno pedaço de rocha branca, abrindo um clarão inimaginável no meio de uma mata tão densa. Em torno da rocha, três pequenas flores faziam um triângulo, sendo a primeira - uma bromélia - apenas em botão; a segunda - uma rosa - na flor de sua juventude e beleza; e a terceira - um lírio - parecendo ter sido recentemente morta pelo decurso inevitável do tempo.
Foi ali que o rapaz se ajoelhou, a dobra de seu joelho se encaixando perfeitamente na rocha fria; os pés descalços, marcados pela trilha penosa, agora levemente enterrados naquela terra macia; a coluna levemente curvada para frente; os braços, caídos ao lado do tronco, expressando o mais lívido desgosto; o corpo, completamente nu, sentindo cada parte de si com a intensidade do nascer do sol; e a cabeça mirando os céus, deixando que as lágrimas percorressem toda a vereda de sua face e que se misturassem, ato final, com a magia viva do local.
Foi então que sua voz, pela primeira vez, rasgou o silêncio sussurrante da floresta, fazendo vibrar toda a energia do local no ritmo da energia que guiava seu corpo.
- NNNNÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!
Ato 2 - O monólogo da ira
- Eu, que nunca quis me ver do avesso, que nunca soube ter cabresto, exijo hoje dos confins do tempo uma explicação detalhada sobre o motivo de tanta ausência! Deito aqui, sob a relva fresca dos campos do desentendimento, toda minha indignação quanto à contradição da passagem do tempo, que se faz efêmera na presença, mas que se veste com a mais maléfica das intenções para frear o ponteiro enquanto os corpos se fazem ausentes!
- Ouvi dizer que é a você, Cronos, que tenho que prestar queixas, e é o que eu vim fazer!
- Não, eu não me importo nem um pouco em sofrer com a “ira dos deuses”, em sentir na pele o gosto amargo de sangue e indeferimento, em me ultrajar sobre o altar da piedade... Contanto que me ouçam! Contanto que aliviem essa chaga que corrói cada vértebra de minh’alma! Essa ausência vil que oprime meus sentidos e me faz fraquejar!
-... Eu nunca exigi nada, nunca ergui minhas mãos um só centímetro acima do limite, nunca bradei aos céus contra a autoridade aflitiva de suas decisões; mas quando senti o néctar divino jorrar dos lábios dela, simplesmente senti esvaírem-se todas as concepções todas as leis, todos os sentidos... EU SINTO! Sinto as pontas das facas que transpõem meu corpo, sinto a sede insaciável consumir meu espírito, sinto o vazio contraditório de me sentir tão cheio, SINTO A AUSÊNCIA DE METADE DE MIM, AGORA QUE CONSEGUI ME SENTIR COMPLETO!
- HAHAHAHAHAHAHAHA! Eu não venho implorar sua clemência, Deus da tirania! Venho cobrar a vida que me foi prometida! Se é verdade que vocês regem o universo, então corrija o desacerto covarde de separar duas almas que são uma só! Leve-me de volta àquela que me governa! Permita que meu encontro estatize os ponteiros! Desacelere esse engenho vil que chamas de tempo! Deixe que eu seja a unidade, deixe que meu “eu” seja!
- É só o que peço. Devolva-me a metade que pertence à minha vida, OU EU DEVOLVO A VOCÊS A METADE INÚTIL QUE TEM SIDO A MINHA!
Ato 3 - O lamúrio das horas
Dizendo isso, o rapaz abriu semicerradamente os olhos, e viu refletir em sua frente dois instrumentos reluzentes: do lado direito, uma adaga com o cabo de prata ornado em rubis, extremamente afiada, com um traçado vermelho em sua ponta que era, indubitavelmente, sangue; do lado esquerdo, um jarro de cristal contendo um líquido verde fumegante em seu interior, engalanado externamente em esmeraldas minuciosamente moldadas.
Analisou os dois objetos, e entendeu.
Pegou a adaga com as duas mãos, mirou contra o próprio peito, e desferiu um golpe certo, que permitiu a penetração do metal quente em sua pele. Sentiu então o corpo todo estremecer, quando ouviu uma melodia vinda das copas das árvores, seu tom descendo levemente pelos galhos, flutuando sobre sua cabeça. Ao olhar para cima, reconheceu o espírito de sua metade ali, pairando em luz, derramando lágrimas e canto sobre sua ferida.
Tentou então voltar atrás, retirar o objeto de seu corpo e desfazer aquela ferida que o levaria ao derradeiro momento.
Em vão.
Ali, deitado de costas sobre o lírio da morte, vendo o espírito de sua amada lamuriar as horas, extenuada, foi que ele entendeu que era impossível voltar atrás.
Pois só sentirá a leveza do tempo aquele que prezar pela vida, e se dispuser a saciar sua sede através do líquido infinito da alma.
Thuan Bigonha de Carvalho.
19 de mai. de 2011
A vida é Longa em Curtas.

Sol a pino
Meu dia eu entalho
e o pássaro azul me cumprimenta do galho.
Translação
O dia acelera
E reduz sem parar
é a terra que gira ou somos nós a girar?
Mãos Atadas
Ciganos na esquina
Cantando bem alto
jamais se extrairá o futuro do asfalto.
Atenção
Um homem, atento, observa
O outro, de longe, debocha
sentimentos diversos enquanto a flor desabrocha.
Papel
Na carta amassada
As letras pululam
e entre os borrões de lágrimas amores se juram.
Tinta Fresca
São tantos os sabores
deixa eu me pintar de verde com a aquarela do seu coração?
Prazer
Livros abarrotam
A estante da mente
e no balanço da rede a história se acende.
Palhaços
A lona se ergue
O Circo vai partir
e de longe a criança de pés descalços sorri.
Rotina
Entediados, se confundem
enquanto o garoto, deitado, procura imagens na nuvem.
Passarela
Sem saber o que se passa
Sem saber se vai passar
a borboleta amarela desfila ao luar.
Coroa
O casal que se beija
Ao tropeçar numa pedra
sempre haverá o outro lado da moeda.
Agir
Já vai, mas tão cedo!
Quem irá te levar?
- o medo.
Volta.
Levado ao hospital
Com séria enfermidade
é bom e faz mal - saudade.
Até Logo
Os olhos se fecham
e as almas se vão.
11 de mai. de 2011
O Medo do Escuro.

A cidade amanhecia como de costume. Num primeiro plano, perto das três da manhã, os galos afetados pela mudança do ambiente rural para o urbano começavam a cantar. Lentamente, com o aproximar das seis horas da manhã, as luzes dos postes já apagadas pelo sol, a cidade ia se levantando com seus habitantes, lançando sua miscelânea de sons, cheiros, sabores e suores ao ar.
O dia transcorria, e não poderia ser diferente, como de costume. Todos são corajosos durante o dia. Pessoas conversam, riem, buzinam, discutem, dizem, são. No entanto, a maioria dessas pessoas era consumida pelo trabalho, e via o dia passar, como veremos agora, num piscar de olhos.
E então, inegável que só ela, surgia a noite. Vale ressaltar que a noite da qual falamos não é uma noite normal. Hoje a noite não tem luar, nem estrelas, somente nuvens cor de chumbo tapando o céu, quase invisíveis, mas extremamente ameaçadoras. Invariavelmente, as luzes dos postes piscavam, fazendo com que a maioria das pessoas, aquela mesma maioria que deixou o dia passar num piscar de olhos, acelerasse o passo em direção à própria casa. É, esse é o medo de escuro.
E de repente ele vinha.
A passos lentos com seus pés tamanho quarenta, aproximadamente, ele vinha quase num arrasto, parecendo que flutuava. O corpo estava ligado por espécies de fios luminosos, e seus braços torneados permaneciam incólumes naquela expressão de puro vigor. Sobre a cabeça, uma coroa que refulgia mesmo na ausência de qualquer luz externa. Os ouvidos mais aguçados do que o de costume, a boca frouxa expressando tranquilidade, o olfato notoriamente dilatado, e os olhos, a fonte de toda aquela luz, abertos numa intensidade inalcançável, parecendo enxergar além das nuvens que acortinavam o infinito. O som que produzia era o de uma espécie de flauta, que saía naturalmente de cada poro de seu corpo. Seus movimentos eram completamente desordenados, uma desordem quase proposital, dando a impressão de que o ser se alinhava ao eterno desalinho. Tudo ali era uma espécie de harmonia contagiosa, e cada pedaço da natureza que rodeava aquele ser fazia-se prisma, refletindo imediatamente aquela luz, e fazendo com que o escuro recuasse cada vez mais... cada vez mais ........cada vez mais ......................cada vez mais...
Pois quem carrega a eternidade consigo jamais conhecerá o medo de escuro, mas fará com que o escuro reconheça seu próprio medo:
A Luz.
Thuan Bigonha de Carvalho
9 de mai. de 2011
parabéns, parabéns.

Existe na vida uma profissão
Que se equipara a um protetor de jardins
Mas nela se usa mais o coração
Do que em qualquer outro labor e afins.
A profissão em questão não se ensina
Nem se aprende durante o caminho
É um dom que carregas, menina
Esse cuidado com todo o teu ninho.
Abrir mão de tua própria vida
É tarefa muito da arriscada
Fazer tua vivência sofrida
Romper flores de uma margarida
Só pra ver os teus filhos na estrada.
Com a filha mais velha, desde cedo
Tens um zelo de se invejar
Portando-te feito um rochedo
Não deixando que ela tenha medo
De viver – pois viver é sonhar.
Para o filho mais novo és o herói
A referência na educação
Saiba que crias bem teu cowboy
E eu sei que é em ti que dói
Quando a saúde dele entra em questão.
Com o do meio tens o maior cuidado
Pois é o filho que não está mais em casa
E mesmo que ele esteja errado
Cuidas sempre de ficar do seu lado
Evitando limitar suas asas.
E então hoje, dia oito de maio
Dia em que finalmente a ficha cai
O dia das mães veio e entrou de soslaio
A gratidão descerá como um raio
E trará você, que já nasceu mãe e pai.
Thuan Bigonha de Carvalho
26 de abr. de 2011
Desperdida

A tarde avançava penosa, sem chuva e sem prosa, arrastando o dia
As horas - não queria ver, evitava saber! - mas ele já sabia
E junto ao clamor do coração, junto a toda a paixão, junto a toda magia
Junto ao outono que proclama o inverno, seu momento eterno lento se esvaía.
A sensação apertava seu peito, mas não tinha jeito, era a despedida
Por mais que o rapaz quisesse, com choro ou com prece, não tinha saída
Chegou a perder o respeito, bradou de mau jeito, contra a própria vida
E o tempo, mentor da quermesse, bradava: “se apresse!”, vou dar a partida.
Iansã, quão covarde e difícil é largar o meu vício por ter que partir!
Depois de tanta intimidade, lascívia, vontade que não vai sumir
Meu corpo em seu corpo era bruma, sereno e espuma, magos do porvir
E agora sou como orvalho que nasce do galho e não quer mais cair
Aquele momento infinito, cigano erudito, gravara-se a fundo
O amor sublimou tão sagrado, carícia e agrado, poema fecundo
E aquilo era contradição, pois seu coração comungava com o mundo
Mas já quando estrada pegava a saudade apertava no mesmo segundo.
Então toda aquela bonança ao virar lembrança era um tormento
Ele clamava sua Deusa de fogo - seu carma, seu jogo - no mesmo momento
E os Deuses se deliciavam porque se gabavam saber seu intento
E faziam se encontrar novamente, regavam a semente daquele amor violento.
O reencontro não era normal, o plano era astral, como antigamente
Quando os reis temiam pela magia, o padre só dormia com a igreja silente
Mas para ambos era o bastante, ele anjo errante ela estrela-cadente
Guiados pela coincidência, prazer da existência, num mundo doente.
A compreensão logo o tocou, seu corpo levou um pequeno recorte
E ele então se acalmava, não mais reclamava da falta de sorte
Sabia que mais cedo ou mais tarde a sua metade viria a pinote
E surgiria vestida de lua, tal qual alma nua, pra seu Dom Quixote.
Thuan B. Carvalho
28 de mar. de 2011
A luz na janela
Caminhava sem pressa numa tarde fria
A paz acossava de forma que eu ria
Estava tão só que eu nem sei se existia
Da luz da janela acesa eu a via.
Sem pestanejar, ela se despia
Girava, dançava e se sacudia
O drama em seus olhos, latente, doía
Da luz da janela a lágrima escorria.
Eu me perguntava: aonde ela ia?
Qual era o motivo que a impelia?
Solitária como eu, mas não se escondia!
Da luz da janela ela me confundia.
Ela me encarou, criador e a cria
Por trás de seus olhos a alma gania
De pronto içou vôo, perfeita poesia
A luz da janela lenta se esvaía
Então penetrou na frieza tardia
Seu doce sorriso de longe se ouvia
Compreensão me tocou; existiu - foi magia
E a luz se apagou (mas eu incandescia).
Thuan Bigonha de Carvalho
24 de mar. de 2011
Paulo Paulatino

Esse senhor que não vê minha pressa
Como pode lentidão como essa
Ante a vida que ruge entre nós?
Tento então, ágil, me esquivar
Mas meu caminho ele torna a fechar
Num gingado tal qual valsa a sós.
Vejo assim, como única opção
Dessa minha enorme pressa abrir mão
E a passos lentos fico a observá-lo;
E quando estou acompanhando seu ritmo
Sinto algo se alterando em meu íntimo
De modo que abismado eu me calo.
O sol incide em seus brancos cabelos
O impacto ouriça-me os pêlos
A realidade me fura como espinho;
E ao mirar a sombra daquela imagem
Ainda não sei se concreta ou miragem
Reparo que o senhor não vai sozinho.
O tempo vai caminhando consigo
Ele até o chama de amigo
Afinal, quanta intimidade!
E o chão TOCTOCando a bengala
Lento como o bocejo que se exala
Enquanto Paulo Paulatinava a cidade.
Thuan B. de Carvalho
2 de mar. de 2011
Equilíbrio dos Mundos.

O ar trancafiado nos pulmões, por um breve instante, e depois sendo solto com desenvoltura invejável.
Aquele era um movimento constante naquela fração de segundo em que o equilibrista içava seu corpo galgaz para frente, cobrindo cada vez uma parte maior da pequena corda bamba sobre a qual caminhava.
A respiração, que fluía em seu corpo como bolero, era movimento raro na platéia. As pessoas encaravam aquele desafio às leis da gravidade com tamanha perplexidade que nem sequer se davam conta de inalar o ar ambiente, mistura homogênea de suspense, apreensão e paz.
E o artista seguia, pé ante pé, com maestria. E recebia aquela sensação conhecida, que só tal adrenalina era capaz de produzir. Nascera para aquilo.
Era como se sua existência fosse justificada. Atrevia-se a fechar os olhos, e deixar o corpo seguir, enquanto o sentimento de êxtase dominava seu corpo e acolhia sua alma. E então ele a ouvia.
O vazio era preenchido por sussurros em sua mente, que ele sabia ser de si. Eram afagos e suspiros satisfeitos misturados com aplausos alegres. Experimentava a ligação entre os mundos, e a abraçava como aquela experiência merecia.
E dentre os cem membros da platéia, apenas as vinte e seis crianças menores de quatro anos e aquela senhora de sobretudo verde conseguiam ver que, o que na verdade amparava o artista por sobre aquele pequeno fio da vida, não era o seu equilíbrio; e sim suas enormes, saudáveis e coloridas asas.
Thuan B. Carvalho











