15 de jun. de 2011

Ordem e Progresso.




Amanhecia na Rua da Magnólia, e nem mesmo a mais otimista das senhoras, aquela que varria com os olhos a rua três vezes ao dia procurando algo sobre o que comentar - Dona Carmem - era capaz de imaginar o que ocorreria naquele Logradouro.



A Rua da Magnólia existia há pouco tempo, e suas singelas sete casas se espalhavam pela avenida de forma simétrica, uma de cada cor, completando a simetria com a igreja do finzinho da rua.



O ambiente todo, sem falar de uma forma resumida (mesmo porque não há possibilidade alguma de se resumir algo tão resumido), abrangia uma rua, sete casas, uma igreja, uma mercearia, uma banca, duas latas de lixo, uma sorveteria, uma “mini-praça” com três árvores, um canteiro e dois bancos, um correio, uma escola, um cemitério e um botequim.



Dona Francisca, moradora da imponente casa amarela, voltava da mercearia do seu Adão com uma sacolinha contendo três pães de sal e um saquinho de leite. Nhá Isaura varria a rua em frente a sua casa, preço a se pagar por ter o domicílio mais invejado da rua - a desejada casa verde -, que ficava de frente para a praça. “Vô Lauro”, morador da casa azul, já lia o jornal matinal de dentro da sua banca, enquanto sua esposa, Dona Gilda, arrumava-se impecavelmente para a missa das sete. Dona Carmem, viúva com cinco filhos, tomava seu chá da janela branca de sua casa alaranjada; enquanto seu filho mais velho, Joaquim, abria o ruidoso portão do correio que administrava desde a morte de seu pai, Antônio. Gertrudes, mulher de Seu Adão, regava cuidadosamente o jardim nos fundos de sua casa rosa, e falava alegremente ao telefone com Cláudia, sua irmã tão bem falada, que ainda nova recebeu um convite para ser atriz de cinema, indo morar na cidade grande desde então. Padre Honório, que morava nas dependências da igreja, acabava de levantar-se da primeira oração do dia, e ajeitava o local para a missa de logo mais. Heloísa, anfitriã da casa vermelha, dormia a sono pesado, enquanto seu marido, José, já servia a primeira dose de pinga para Seu Zito, o andarilho que dormia num dos bancos da praça desde que a Rua da Magnólia se entendia por rua. Jorge, morador da casa branca, assim como Heloísa, dormia, pretendendo abrir sua sorveteria apenas depois das nove da manhã.



As coisas aconteciam como todo dia, e se um quadro fosse feito da Rua da Magnólia às seis da manhã, ele se confundiria facilmente com a morosidade da realidade, que se diferenciava a cada amanhecer apenas pela quantidade de folhas que caía das árvores. Assim, tal pintura traria em si a beleza morna de uma rua pacata, a serenidade inerente à simplicidade. Até o derradeiro dia oito de agosto.



O barulho ensurdecedor interrompeu toda a magia daquela manhã ensolarada de domingo, fazendo com que toda a rua permanecesse estática por um breve minuto, e no minuto seguinte, todas as cabeças da cidade se voltavam para o centro da praça, de onde subia uma fumaça cinzenta, com cheiro de enxofre.



Dona Carmem, o olhar atento, a certeza de que aquilo certamente renderia ainda mais assunto do que sua suspeita de que Dona Gilda tinha um caso com o Padre Honório, apressou-se à beira da cratera, seguida apenas por Latido, o cãozinho que acompanhava Seu Zito em suas madrugadas na rua. Lentamente, todos os moradores da Rua da Magnólia se aglomeravam ao redor daquele incidente incomum, esperando a fumaça se dissipar para poder ver o que diabos era aquilo. Padre Honório encontrava-se ajoelhado, seu terço firmemente seguro nas mãos, e nos olhos a certeza do fim do mundo, previsto e anunciado para aquele ano por Dom Célio.



Minutos se passaram até que toda aquela tensão se fosse, e a fenda revelou finalmente sua causa: uma caixa simples de madeira, já aberta, contendo uma espécie de máquina. Após calorosa discussão, Seu Zito foi chantageado a descer e pegar o objeto, sendo a ele prometida, por isso, uma garrafa inteira de pinga. Zito desceu no ato, trazendo a caixa para o banco da praça. Do lado de fora, lia-se:




“Vcs akbam de ganhar um passaporte para o futuro. Nessa caixa tá a eficiência junto com a facilidade, pra q vcs ñ precisem mais se estressar, se preocupar, pq ela reduzirá o tempo p/ vcs, e trará mta felicidade e conforto a tds!”




Em apenas um mês, a sorveteria virou lan house, a banca virou Mc Donald’s, o correio faliu, a mercearia virou supermercado, o cemitério precisou de alguém que o administrasse e de mais dois funcionários, o botequim virou boate, a praça ganhou um policial, as árvores viraram eucalipto, Seu Zito foi preso, Padre Honório começou a aceitar em sua igreja apenas quem estava em dia com o dízimo, as casas foram pintadas todas de marrom, a escola ganhou um diretor - Sr. John -, que trouxe consigo da cidade uma imobiliária e uma indústria automobilística, Dona Carmem tornou-se prefeita, seus cinco filhos tornaram-se vereadores, Latido foi atropelado, “Vô Lauro” morreu de Leptospirose, seu filho morreu de cirrose, seu neto morreu de overdose; e a Rua da Magnólia, que num presente não muito distante cheirava a lavanda, passou a ter um cheiro acre de enxofre, inevitável fragrância do futuro.



“mas não se preocupe, você se acostuma!”, dizia todos os dias o homem, o Deus de terno e gravata que fazia sua voz reverberar de dentro daquela misteriosa caixa...




Sabia das coisas, o velho Dom Célio.





Thuan Bigonha de Carvalho

10 de jun. de 2011

Ausência em Três Atos



Ato 1 - O caminho da percepção



Era noite na Floresta dos Séculos, extensa difusão de natureza e seres míticos que se situava na subida árdua do monte que levava Oráculo de Delfos. Ouvia-se cada sussurro, cada farfalhar de folhas carregadas pelo vento, cada pio sepulcral das aves noturnas.


Era julho.


A temperatura acompanhava o ritmo da noite, ambas caindo paulatinamente, valsando ao som cálido do inverno.


Incessantes e sonoros “cracks!” faziam com que o ar congelasse, e toda a floresta prestava atenção naquela energia estranha, aquele cosmo intenso e lancinante, aquele calor tão... humano.


Os passos furtivos se dirigiam ao coração da floresta, que, onde poucos sabiam, situava-se o altar de Cronos, o Deus do Tempo. Reza a lenda que Cronos cedia o tempo, mas comia cada um dos seres que dele usufruíam, demonstrando a efemeridade que lhe é inerente, e que muitas vezes é negligenciada pelos seres viventes.


O caminho até ali era árduo, mas o rapaz, impulsionado pela força que deveras lhe sustentava, enfim o atingiu.


As árvores pareciam ter sido plantadas numa espécie de “reverência” àquele pequeno pedaço de rocha branca, abrindo um clarão inimaginável no meio de uma mata tão densa. Em torno da rocha, três pequenas flores faziam um triângulo, sendo a primeira - uma bromélia - apenas em botão; a segunda - uma rosa - na flor de sua juventude e beleza; e a terceira - um lírio - parecendo ter sido recentemente morta pelo decurso inevitável do tempo.


Foi ali que o rapaz se ajoelhou, a dobra de seu joelho se encaixando perfeitamente na rocha fria; os pés descalços, marcados pela trilha penosa, agora levemente enterrados naquela terra macia; a coluna levemente curvada para frente; os braços, caídos ao lado do tronco, expressando o mais lívido desgosto; o corpo, completamente nu, sentindo cada parte de si com a intensidade do nascer do sol; e a cabeça mirando os céus, deixando que as lágrimas percorressem toda a vereda de sua face e que se misturassem, ato final, com a magia viva do local.


Foi então que sua voz, pela primeira vez, rasgou o silêncio sussurrante da floresta, fazendo vibrar toda a energia do local no ritmo da energia que guiava seu corpo.


- NNNNÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!



Ato 2 - O monólogo da ira


- Eu, que nunca quis me ver do avesso, que nunca soube ter cabresto, exijo hoje dos confins do tempo uma explicação detalhada sobre o motivo de tanta ausência! Deito aqui, sob a relva fresca dos campos do desentendimento, toda minha indignação quanto à contradição da passagem do tempo, que se faz efêmera na presença, mas que se veste com a mais maléfica das intenções para frear o ponteiro enquanto os corpos se fazem ausentes!


- Ouvi dizer que é a você, Cronos, que tenho que prestar queixas, e é o que eu vim fazer!


- Não, eu não me importo nem um pouco em sofrer com a “ira dos deuses”, em sentir na pele o gosto amargo de sangue e indeferimento, em me ultrajar sobre o altar da piedade... Contanto que me ouçam! Contanto que aliviem essa chaga que corrói cada vértebra de minh’alma! Essa ausência vil que oprime meus sentidos e me faz fraquejar!


-... Eu nunca exigi nada, nunca ergui minhas mãos um só centímetro acima do limite, nunca bradei aos céus contra a autoridade aflitiva de suas decisões; mas quando senti o néctar divino jorrar dos lábios dela, simplesmente senti esvaírem-se todas as concepções todas as leis, todos os sentidos... EU SINTO! Sinto as pontas das facas que transpõem meu corpo, sinto a sede insaciável consumir meu espírito, sinto o vazio contraditório de me sentir tão cheio, SINTO A AUSÊNCIA DE METADE DE MIM, AGORA QUE CONSEGUI ME SENTIR COMPLETO!


- HAHAHAHAHAHAHAHA! Eu não venho implorar sua clemência, Deus da tirania! Venho cobrar a vida que me foi prometida! Se é verdade que vocês regem o universo, então corrija o desacerto covarde de separar duas almas que são uma só! Leve-me de volta àquela que me governa! Permita que meu encontro estatize os ponteiros! Desacelere esse engenho vil que chamas de tempo! Deixe que eu seja a unidade, deixe que meu “eu” seja!


- É só o que peço. Devolva-me a metade que pertence à minha vida, OU EU DEVOLVO A VOCÊS A METADE INÚTIL QUE TEM SIDO A MINHA!



Ato 3 - O lamúrio das horas


Dizendo isso, o rapaz abriu semicerradamente os olhos, e viu refletir em sua frente dois instrumentos reluzentes: do lado direito, uma adaga com o cabo de prata ornado em rubis, extremamente afiada, com um traçado vermelho em sua ponta que era, indubitavelmente, sangue; do lado esquerdo, um jarro de cristal contendo um líquido verde fumegante em seu interior, engalanado externamente em esmeraldas minuciosamente moldadas.


Analisou os dois objetos, e entendeu.


Pegou a adaga com as duas mãos, mirou contra o próprio peito, e desferiu um golpe certo, que permitiu a penetração do metal quente em sua pele. Sentiu então o corpo todo estremecer, quando ouviu uma melodia vinda das copas das árvores, seu tom descendo levemente pelos galhos, flutuando sobre sua cabeça. Ao olhar para cima, reconheceu o espírito de sua metade ali, pairando em luz, derramando lágrimas e canto sobre sua ferida.


Tentou então voltar atrás, retirar o objeto de seu corpo e desfazer aquela ferida que o levaria ao derradeiro momento.


Em vão.


Ali, deitado de costas sobre o lírio da morte, vendo o espírito de sua amada lamuriar as horas, extenuada, foi que ele entendeu que era impossível voltar atrás.




Pois só sentirá a leveza do tempo aquele que prezar pela vida, e se dispuser a saciar sua sede através do líquido infinito da alma.






Thuan Bigonha de Carvalho.

19 de mai. de 2011

A vida é Longa em Curtas.






Artesão



Sol a pino

Meu dia eu entalho

e o pássaro azul me cumprimenta do galho.





Translação


O dia acelera

E reduz sem parar

é a terra que gira ou somos nós a girar?





Mãos Atadas


Ciganos na esquina

Cantando bem alto

jamais se extrairá o futuro do asfalto.





Atenção


Um homem, atento, observa

O outro, de longe, debocha

sentimentos diversos enquanto a flor desabrocha.





Papel


Na carta amassada

As letras pululam

e entre os borrões de lágrimas amores se juram.





Tinta Fresca


Em meio a tantas cores

São tantos os sabores

deixa eu me pintar de verde com a aquarela do seu coração?





Prazer


Livros abarrotam

A estante da mente

e no balanço da rede a história se acende.





Palhaços


A lona se ergue

O Circo vai partir

e de longe a criança de pés descalços sorri.





Rotina


Os que trabalham por trabalhar

Entediados, se confundem

enquanto o garoto, deitado, procura imagens na nuvem.





Passarela


Sem saber o que se passa

Sem saber se vai passar

a borboleta amarela desfila ao luar.





Coroa


O casal que se beija

Ao tropeçar numa pedra

sempre haverá o outro lado da moeda.





Agir


Já vai, mas tão cedo!

Quem irá te levar?

- o medo.





Volta.


Levado ao hospital

Com séria enfermidade

é bom e faz mal - saudade.





Até Logo


- te amo; - eu também, do fundo do coração

Os olhos se fecham

e as almas se vão.










Thuan Bigonha de Carvalho.

11 de mai. de 2011

O Medo do Escuro.



A cidade amanhecia como de costume. Num primeiro plano, perto das três da manhã, os galos afetados pela mudança do ambiente rural para o urbano começavam a cantar. Lentamente, com o aproximar das seis horas da manhã, as luzes dos postes já apagadas pelo sol, a cidade ia se levantando com seus habitantes, lançando sua miscelânea de sons, cheiros, sabores e suores ao ar.



O dia transcorria, e não poderia ser diferente, como de costume. Todos são corajosos durante o dia. Pessoas conversam, riem, buzinam, discutem, dizem, são. No entanto, a maioria dessas pessoas era consumida pelo trabalho, e via o dia passar, como veremos agora, num piscar de olhos.



E então, inegável que só ela, surgia a noite. Vale ressaltar que a noite da qual falamos não é uma noite normal. Hoje a noite não tem luar, nem estrelas, somente nuvens cor de chumbo tapando o céu, quase invisíveis, mas extremamente ameaçadoras. Invariavelmente, as luzes dos postes piscavam, fazendo com que a maioria das pessoas, aquela mesma maioria que deixou o dia passar num piscar de olhos, acelerasse o passo em direção à própria casa. É, esse é o medo de escuro.



E de repente ele vinha.



A passos lentos com seus pés tamanho quarenta, aproximadamente, ele vinha quase num arrasto, parecendo que flutuava. O corpo estava ligado por espécies de fios luminosos, e seus braços torneados permaneciam incólumes naquela expressão de puro vigor. Sobre a cabeça, uma coroa que refulgia mesmo na ausência de qualquer luz externa. Os ouvidos mais aguçados do que o de costume, a boca frouxa expressando tranquilidade, o olfato notoriamente dilatado, e os olhos, a fonte de toda aquela luz, abertos numa intensidade inalcançável, parecendo enxergar além das nuvens que acortinavam o infinito. O som que produzia era o de uma espécie de flauta, que saía naturalmente de cada poro de seu corpo. Seus movimentos eram completamente desordenados, uma desordem quase proposital, dando a impressão de que o ser se alinhava ao eterno desalinho. Tudo ali era uma espécie de harmonia contagiosa, e cada pedaço da natureza que rodeava aquele ser fazia-se prisma, refletindo imediatamente aquela luz, e fazendo com que o escuro recuasse cada vez mais... cada vez mais ........cada vez mais ......................cada vez mais...




Pois quem carrega a eternidade consigo jamais conhecerá o medo de escuro, mas fará com que o escuro reconheça seu próprio medo:


A Luz.






Thuan Bigonha de Carvalho

9 de mai. de 2011

parabéns, parabéns.



Existe na vida uma profissão


Que se equipara a um protetor de jardins


Mas nela se usa mais o coração


Do que em qualquer outro labor e afins.




A profissão em questão não se ensina


Nem se aprende durante o caminho


É um dom que carregas, menina


Esse cuidado com todo o teu ninho.




Abrir mão de tua própria vida


É tarefa muito da arriscada


Fazer tua vivência sofrida


Romper flores de uma margarida


Só pra ver os teus filhos na estrada.




Com a filha mais velha, desde cedo


Tens um zelo de se invejar


Portando-te feito um rochedo


Não deixando que ela tenha medo


De viver – pois viver é sonhar.



Para o filho mais novo és o herói


A referência na educação


Saiba que crias bem teu cowboy


E eu sei que é em ti que dói


Quando a saúde dele entra em questão.



Com o do meio tens o maior cuidado


Pois é o filho que não está mais em casa


E mesmo que ele esteja errado


Cuidas sempre de ficar do seu lado


Evitando limitar suas asas.




E então hoje, dia oito de maio


Dia em que finalmente a ficha cai


O dia das mães veio e entrou de soslaio


A gratidão descerá como um raio


E trará você, que já nasceu mãe e pai.






Thuan Bigonha de Carvalho

26 de abr. de 2011

Desperdida




A tarde avançava penosa, sem chuva e sem prosa, arrastando o dia


As horas - não queria ver, evitava saber! - mas ele já sabia


E junto ao clamor do coração, junto a toda a paixão, junto a toda magia


Junto ao outono que proclama o inverno, seu momento eterno lento se esvaía.





A sensação apertava seu peito, mas não tinha jeito, era a despedida


Por mais que o rapaz quisesse, com choro ou com prece, não tinha saída


Chegou a perder o respeito, bradou de mau jeito, contra a própria vida


E o tempo, mentor da quermesse, bradava: “se apresse!”, vou dar a partida.




Iansã, quão covarde e difícil é largar o meu vício por ter que partir!


Depois de tanta intimidade, lascívia, vontade que não vai sumir


Meu corpo em seu corpo era bruma, sereno e espuma, magos do porvir


E agora sou como orvalho que nasce do galho e não quer mais cair





Aquele momento infinito, cigano erudito, gravara-se a fundo


O amor sublimou tão sagrado, carícia e agrado, poema fecundo


E aquilo era contradição, pois seu coração comungava com o mundo


Mas já quando estrada pegava a saudade apertava no mesmo segundo.





Então toda aquela bonança ao virar lembrança era um tormento


Ele clamava sua Deusa de fogo - seu carma, seu jogo - no mesmo momento


E os Deuses se deliciavam porque se gabavam saber seu intento


E faziam se encontrar novamente, regavam a semente daquele amor violento.





O reencontro não era normal, o plano era astral, como antigamente


Quando os reis temiam pela magia, o padre só dormia com a igreja silente


Mas para ambos era o bastante, ele anjo errante ela estrela-cadente


Guiados pela coincidência, prazer da existência, num mundo doente.




A compreensão logo o tocou, seu corpo levou um pequeno recorte


E ele então se acalmava, não mais reclamava da falta de sorte


Sabia que mais cedo ou mais tarde a sua metade viria a pinote


E surgiria vestida de lua, tal qual alma nua, pra seu Dom Quixote.





Thuan B. Carvalho

28 de mar. de 2011

A luz na janela


Caminhava sem pressa numa tarde fria


A paz acossava de forma que eu ria


Estava tão só que eu nem sei se existia


Da luz da janela acesa eu a via.




Sem pestanejar, ela se despia


Girava, dançava e se sacudia


O drama em seus olhos, latente, doía


Da luz da janela a lágrima escorria.




Eu me perguntava: aonde ela ia?


Qual era o motivo que a impelia?


Solitária como eu, mas não se escondia!


Da luz da janela ela me confundia.




Ela me encarou, criador e a cria


Por trás de seus olhos a alma gania


De pronto içou vôo, perfeita poesia


A luz da janela lenta se esvaía




Então penetrou na frieza tardia


Seu doce sorriso de longe se ouvia


Compreensão me tocou; existiu - foi magia


E a luz se apagou (mas eu incandescia).


Thuan Bigonha de Carvalho

24 de mar. de 2011

Paulo Paulatino


Esse senhor que não vê minha pressa

Como pode lentidão como essa

Ante a vida que ruge entre nós?

Tento então, ágil, me esquivar

Mas meu caminho ele torna a fechar

Num gingado tal qual valsa a sós.



Vejo assim, como única opção

Dessa minha enorme pressa abrir mão

E a passos lentos fico a observá-lo;

E quando estou acompanhando seu ritmo

Sinto algo se alterando em meu íntimo

De modo que abismado eu me calo.



O sol incide em seus brancos cabelos

O impacto ouriça-me os pêlos

A realidade me fura como espinho;

E ao mirar a sombra daquela imagem

Ainda não sei se concreta ou miragem

Reparo que o senhor não vai sozinho.



O tempo vai caminhando consigo

Ele até o chama de amigo

Afinal, quanta intimidade!

E o chão TOCTOCando a bengala

Lento como o bocejo que se exala

Enquanto Paulo Paulatinava a cidade.


Thuan B. de Carvalho

2 de mar. de 2011

Equilíbrio dos Mundos.


O ar trancafiado nos pulmões, por um breve instante, e depois sendo solto com desenvoltura invejável.



Aquele era um movimento constante naquela fração de segundo em que o equilibrista içava seu corpo galgaz para frente, cobrindo cada vez uma parte maior da pequena corda bamba sobre a qual caminhava.

A respiração, que fluía em seu corpo como bolero, era movimento raro na platéia. As pessoas encaravam aquele desafio às leis da gravidade com tamanha perplexidade que nem sequer se davam conta de inalar o ar ambiente, mistura homogênea de suspense, apreensão e paz.

E o artista seguia, pé ante pé, com maestria. E recebia aquela sensação conhecida, que só tal adrenalina era capaz de produzir. Nascera para aquilo.


Era como se sua existência fosse justificada. Atrevia-se a fechar os olhos, e deixar o corpo seguir, enquanto o sentimento de êxtase dominava seu corpo e acolhia sua alma. E então ele a ouvia.


O vazio era preenchido por sussurros em sua mente, que ele sabia ser de si. Eram afagos e suspiros satisfeitos misturados com aplausos alegres. Experimentava a ligação entre os mundos, e a abraçava como aquela experiência merecia.



E dentre os cem membros da platéia, apenas as vinte e seis crianças menores de quatro anos e aquela senhora de sobretudo verde conseguiam ver que, o que na verdade amparava o artista por sobre aquele pequeno fio da vida, não era o seu equilíbrio; e sim suas enormes, saudáveis e coloridas asas.



Thuan B. Carvalho

15 de fev. de 2011

Valsa em cores.


Quando ela me vem, alva

meatropelameafoba e seduz,

Me tira da solidão, me salva

e caminha de volta para a luz.


Vem tão branca que a Lua se ouriça

ao ver concorrente à altura

Então ela, ávida, se espreguiça

mas não consegue atingir tal candura.


E se ela aparece amarela

contra a sombra da minha janela

nem assim o medo me desperta.

Pois qualquer cor pode ser a cor dela

camaleão que fugiu d’uma tela

e me espia da cortina entreaberta.


E se negra ela vem, ao crepúsculo

dou-lhe astros e estrelas-cadentes

O estupor me retesa o músculo

e as noites se fazem mais quentes


E tão bem ela se porta de céu

que, intrigado, fico a pensar:

Seria o detalhe negro do chapéu

sua pele a se prolongar?


N’outro instante ela gira e é morena

caminhando ao chacoalhar da melena

pele jambo de sol e de sal

E na minha direção vem, serena

estendendo sua mão tão pequena

um segundo de eterno carnaval.


Thuan B. Carvalho

10 de fev. de 2011

Você acredita?


- Pronto general, vencemos! Agora voltaremos em paz para nossa terra, vitoriosos, ao braço de nossa família! - proferiu entusiasmado o soldado.


- Errado, soldado. Estamos apenas começando. Vencemos essa batalha, mas pelo visto teremos outras pela frente. - retrucou sorridente o general, tocando o leme do navio em que estavam.


- Mas general. Já conseguimos o que queríamos. Só haverá mais guerra se quisermos. E sobre o discurso de paz? - indagou o soldado, contrariado.


- Bom, foi realmente um discurso motivante. Eu quase acreditei nas minhas palavras. Mas responda, soldado. Intimamente: você acreditou? Você realmente acredita na paz? Acredita que algum dia pararemos de guerrear, pararemos de querer um pouco mais, deixaremos que a humildade freie a ganância? OLHE PARA MIM, SOLDADO! Você se imagina num mundo alegre, onde as pessoas se cumprimentam, onde a tristeza é passageira, onde não existe a guerra e a paz reina? ESSE MUNDO NÃO EXISTE, SOLDADO! Agora responda, RESPONDA! O que importa mais, uma condecoração momentânea, um sopro de poder sobre seus ombros, ou a paz? O príncipe nos receberá com festa, o mundo inteiro saberá nosso nome. Somos os homens que sobreviveram. E nas próximas guerras, todos nos temerão. Continuaremos essa guerra para sempre, tomando, quem sabe, todas as terras do mundo! Será uma guerra contra o mundo! É assim que funciona a mente de um general. Por isso você é soldado e não eu. Eu penso alto. Eu sei lidar com momentos de vitória e derrota. Então reflita, soldado. Reflita bastante, e responda: VOCÊ OUSA ACREDITAR NA PAZ?


Mas o soldado já havia refletido.


Retirou tranqüilo uma granada que sobrara de seu colete, e ergueu-a no ar. Retirou o pino como se aquilo fosse a coisa mais calma do mundo; e, antes de soltá-la sobre o navio e destruir tudo e todos os que haviam restado da guerra, sussurrou:


- Sim, eu acredito.



Thuan B. Carvalho

30 de jan. de 2011

Sem lenço e sem documento.


Caminhavam não se sabia há quanto tempo. Só se sabia que caminhavam; e que não se falavam.


O sol subia paulatino sobre a linha do horizonte enquanto as nuvens, que trouxeram o negror da noite de outrora, desfaziam-se levemente naquela agradável alvorada litorânea. Caminhavam um ao lado do outro, deixando as pegadas frescas na areia, que as ondas leves tratavam de apagar no instante seguinte. A água trazia-lhes uma sensação agradável aos pés, enquanto procuravam conchas. É, isso mesmo. Conchas.

Ela vinha à frente, agachando-se de hora em outra, e levantando-se em seguida com um punhado de pequenas conchas nas mãos. Ele vinha sempre dois passos atrás, trazendo um pequeno balde, onde depositava as conchas que ela lhe passava.

O único toque dos dois, durante todo o percurso, era aquele. Mãos sobre mãos, passando as conchas. E não se falavam. Desde que começaram a caminhar, naquela espécie de ritual, eles sequer se olhavam. Tinham as mentes vazias, os olhos perdidos entre tanta beleza mundana, e os pés pareciam caminhar sozinhos.

E lentamente o balde ia se enchendo de conchas, e todas pareciam seguir um mesmo padrão: eram diferentes.

E assim o tempo foi passando. O sol já havia expurgado qualquer nuvem do céu, que parecia refletir o mar de tão azul. E ambos caminhavam. Intrigante. Não diziam nada.


Então o balde se encheu, eles se olharam, sorriram, e se beijaram. E foi como se tudo já houvesse sido dito.


Thuan B. de Carvalho

17 de jan. de 2011

A Sina de George


George era covarde, e foi por isso que não conseguiu se suicidar.


O suicídio, em si, é o maior ato de covardia praticado por um ser humano, que simplesmente desiste, entrega os pontos, corta o fio da vida, extingue a chama de seu corpo - que nasceu para nunca se extinguir. Suicidar-se representa o fim crucial, o pedido de arrego, a cartada final de quem não consegue mais virar o jogo, o grito de covardia, a perda de uma chance.


Em pé sobre a cadeira de mogno em seu quarto, a corda fortemente enrolada sobre o pescoço, o rosto marcado por uma vida que não merecia ter sido recebida, ele olhava o retrato de seu avô a sua frente. Seu avô que lutara a guerra, que voltara sem uma perna, que vivera sete anos numa cadeira de rodas, mas que nem por isso tinha deitado sua alma no caixão do suicídio.


Suicidar-se, no entanto, em detrimento de ser um ato covarde, exigia coragem. E se o ato é o maior de covardia que pode ser praticado, a coragem exigida para a consumação é, concomitantemente, a maior. Puxar o gatilho, cortar o pulso, pular do prédio, chutar a cadeira, não importa. Qualquer desses atos exige o máximo de coragem existente no coração do ser.


E ali permaneceu George por extensas vinte horas, até que cortou a corda que envolvia seu pescoço, desceu calmamente de seu mortuário, e seguiu para fora de sua casa, sem ter coragem para sequer olhar no espelho e encarar a face debochada de seu outro lado, que zombava de seu ato covarde.


Caminhou pela praça procurando o sentido de sua vida, e não sentiu quando ele passou em forma de mulher ao seu lado, derrubando um lenço pardo que ele sequer teve a decência de pegar. Pensava agora em como conseguiria se suicidar, sem precisar ser corajoso.


Passaria todos os dias por Rita, filha do dono do mercado, sem reparar que sua alma trazia consigo o encaixe perfeito para a alma da moça.


E tentaria suicídio no outro dia, e no outro, e no outro, sem sucesso; porque jamais seria corajoso o bastante para executar um ato tão covarde.


Tratava-se, pois, da Sina de George, que não findaria nunca sua procura vazia, sua procura desnorteada, sua procura que, no fim das contas, tornara-se vã; já que por não saber o que procurava, jamais perceberia quando houvesse encontrado.



Thuan B. de Carvalho

10 de jan. de 2011

Nem tão certo, quanto o calor do fogo.


Dali de cima, a vista era tão quente quanto se poderia ser. Seus olhos curiosos percorriam cada esquina da pequena cidade que se lhe abria de sobre a sacada de seu apartamento módico na segunda avenida. Uma brisa quente transpassava-o, enquanto seu cotovelo esquentava a cada minuto sobre a pedra mal construída na beira da sacada.


Lá em baixo, lá onde a vida acontecia, o reflexo do sol incandescia pelo vidro dos carros, dando a impressão de que o calor era três vezes maior do que o era na verdade. E estava quente. Quente ao ponto de todos os pássaros que sobrevoavam aquele céu denso abrigarem-se sob uma enorme mangueira no centro da praça. Ali onde a vista alcançava, ele viu uma mãe carregar o filho de pés descalços no colo pelo asfalto, poupando-lhe as futuras e infalíveis bolhas.


A moça caminhava torpe, buscando a sombra das marquises, e o calor fez suas roupas tão curtas, que afoguearam os olhos do rapaz de sobre a sacada.


Seus olhos ardiam, seu cotovelo se abrasava, seu ombro inflamava, seus cabelos começavam a ficar mais claros, os pés guinchavam, os carros incendiavam, os pássaros conflagravam; e era impressionante como nada daquilo - nada daquela dança do fogo ao redor do astro-rei, nada daquela miragem da porta do inferno, nada daquele calor que consumia seu corpo - conseguia aquecer seu coração.


Thuan B. Carvalho

25 de dez. de 2010

Nature.


A caminhada não era longa, nem tampouco nova, mas havia alguma coisa estranha. Pressentimentos. O garoto caminhava a passos lentos sobre blocos de concreto bem encaixados uns entre os outros, e a coisa mais legal que conseguia fazer era coordenar as passadas e tentar não pisar nas linhas e rachaduras proeminentes do tempo. Suas feições mantinham-se da mesma forma, enquanto, sobre si, um céu cinza-pálido possibilitava a previsão de chuva.


Incisiva e delicada, a borboleta pousava e despousava na orelha do garoto, fazendo-o abanar o braço vigorosamente de tempos em tempos, mesmo assim sem olhar para o lado. Quando finalmente olhou para sua direita, um novo mundo se abriu diante de sua retina, bem debaixo do seu nariz.


Reparou, estarrecido, em cada detalhe daquela natureza particular que se lhe abria no meio daquele pântano de cimento sujo e sem-graça. Sua visão perscrutava cada canto, cada cheiro e cada cor. De primeiro pano, uma pequena goiabeira se entrecortava contra o lago imenso ao fundo. Ao lado da goiabeira, a vista do garoto pegava apenas o tronco de uma palmeira nem tão grande, mas que se curvava ao centro do lago, sem cair. A grama era muito verde ao redor do lago, e estava levemente úmida. Um pequeno dente-de-leão brotava tímido perto dos pés, agora já descalços, do garoto. Não tinha como, ele já havia se misturado. Um besouro lutava contra a gravidade tentando escalar aqueles pés.


Lá, bem adiante, no meio do lago, dois pássaros mergulhavam de tempos em tempos, mas não bicavam nada. Apenas se refrescavam, e era possível ao rapaz ouvir-lhes os sorrisos em forma de canto. En-canto.


Ao redor do lago, árvores e flores fechavam o ambiente, tornando-o uma ilha à parte do mundo cinza que os abraçava. E o garoto ficou ali, não sabe quanto tempo, nem quantos dias, nem meses. Soube apenas, ao sair, que tinha sido agraciado com os olhos da inversão.


Ao invés de ver prédios onde havia matas - comum olhar do ser humano moderno; ele via, onde havia prédios, abastados e carregados pés de jabuticaba.



Thuan B. Carvalho

2 de dez. de 2010

Wall Exchange


É tão estranho. Eu achei que estava pronto. Mas não, você é mais diferente da parede do meu quarto do que eu imaginava.



Hoje mais cedo eu ensaiei essa conversa, e, tenho certeza, com todos os pingos nos “i”s e cortes nos “t”s. Como sua reação pode ter sido tão diferente? A parede do meu quarto continuou cinza, dura, fria e silenciosa ao me ouvir; enquanto você ficou vermelha, mole, quente e emitiu sons, que ecoam até agora no labirinto de meus ouvidos. Você gritou comigo, jogou seu sentimento na minha cara, e me disse para crescer. É claro que eu não esperava! Você queria o que? Ensaiei milhões de vezes, e tudo o que recebi em resposta foi o vazio. Você era mais tranqüila quando feita de concreto. Quando foi que você se derreteu? Você é mais pesada agora em minha consciência do que a parede que cerca meu quarto. Como você pôde reverter a situação em um instante, e me fazer chafurdar nos argumentos que eu mesmo expus? E você me explicou. E me mandou implantar um coração na parede do meu quarto antes de discutir qualquer coisa com ela. E eu entendi. Entendi que um coração muda tudo, que onde há um coração, há reações as mais obtusas, as mais inesperadas, as mais surpreendentes. E através de suas palavras, de meu orgulho que me cega, de meus argumentos infundados, foi que eu vi que eu sou frio, duro, incolor, vazio, silencioso.



É tão estranho. Eu achei que estava pronto. Mas não, eu sou mais parecido com a parede do meu quarto do que eu imaginava.



Thuan Bigonha de Carvalho

30 de nov. de 2010

Crise de Inconsciência


Na verdade eu não sou. Não existe quem sou eu. Me encontro no intervalo vago entre um suspiro e outro de meu próprio coração. Estou entre as batidas salpicadas de amor. No lapso temporal TUM - TUM. E ali estou eu. Sou o que não posso ser, sou a parte ruim, o lado negro. Sou a parte de mim que te assustaria, se você soubesse que existe, claro. Sou suprimido. Sufocado. Costumo não ser exprimido por nem uma hora sequer do dia. Mas há dias em que apareço. E nesses dias, ah nesses dias! Sou o veneno mais colorido. A picada que mais fere. Sou a noite da sexta-feira 13. O eclipse de meu próprio coração. Para que você tenha noção de quão perigoso é o chão onde agora você pisa, prendi sua atenção por dois preciosos minutos tentando explicar quem eu sou, sendo que na verdade, na verdade que mais chega perto de mim - uma contradição de uma inverdade mais do que clara -, não sou.

Thuan Bigonha de Carvalho

26 de nov. de 2010

Vem.


Vem, vem ver a felicidade da janela

Vem, não demora.

Vem, receber esse sopro de primavera

Não a deixe ir embora



Vem, vem correndo ao encontro dessa paz

Vem, tá na hora.

Vem, que ela à nossa negligência se desfaz

Não a deixe ir embora



Vem, vem depressa te aquecer em sentimento

Vem, não chora.

Vem, encontrar na felicidade um acalento

Não a deixe ir embora


Vem, vem comigo trançar este caminho

Vem, é agora.

Vem, que eu não quero ser feliz sozinho

Não me deixe ir embora.



Thuan B. Carvalho

25 de nov. de 2010

Existe vida após o amor?

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Sentou-se no sofá, como quem descansa. Acabara de chegar do trabalho, abriu uma “longneck” bem gelada, e agora conferia as mensagens na secretária eletrônica, enquanto ligava a televisão para assistir ao jornal. Apertou então o botão verde, descontraído, para ouvir a primeira das mensagens.

“amor, infelizmente...”

Sobressaltou-se imediatamente, apertando o botão que cancelava a mensagem. “A voz dela novamente?” pensou. Olhou para todos os lados no apartamento. Seria possível? Por onde quer que fosse, ouvia aquela voz, e aquela mesma frase. Cancelou então todas as mensagens.

“Você deseja excluir todas as cinco mensagens?”

Sim! Sim! Era a resposta dele. Acomodou-se novamente na poltrona, relaxado. E de repente...

PI PI PI. “oi, você tem cinco novas mensagens. Deseja ouvi-las?”

Não! Ele não desejava. Não entendeu como aquilo era possível. Apertou então o botão novamente, para ouvir, resolvendo enfrentar seu medo mais temido: a perda.

“amor, infelizmente não posso mais ficar. Percebi, nesse tempo todo, que nossos caminhos se cruzaram mas não continuarão juntos. Somos tão diferentes quanto o sol e a lua, quanto o dia e a noite. Espero ter feito tudo certo no dia de hoje, porque tentei. Tentei fazer com que nosso último dia juntos fosse realmente bom para você. Bom, mas não inesquecível, porque na verdade, eu quero que você esqueça. Não queria ter que dizer isso, mas amanhã...”

E ele não agüentou mais. Apertou o botão que cancelava a mensagem com muita força, correu pelo apartamento, ergueu o vidro da janela, e pulou. Se aquilo era realmente verdade, não tinha mais objetivo continuar ali, respirando. E flutuou por muito tempo. Tempo até demais. Começou a se indagar, enquanto caía, sobre a realidade daquilo tudo. E num baque surdo, que deveria ser sua caída, pulou sobre os lençóis, ávido e desesperado, com o suor frio inundando-lhe os poros. Olhou para o lado, e o que viu confirmou suas expectativas. Aquele pedaço de carta borrado de lágrimas continuava ali, intacto, deitado no travesseiro onde antes estaria a cabeça dela, e gritando suas últimas palavras legíveis dentro da mente dele: “não volto mais”. Apertava-o com muita força, quando ouviu o despertador. Oito da manhã. Hora de se levantar.

Arrumou sua cama, chorou silenciosamente, tomou um banho demorado, releu a carta, tomou um café reforçado, lamentou a partida dela, trocou de roupa, rasgou pedaços das cartas que nunca havia entregado, pegou a chave do carro e, antes de sair, lacrou seus sentimentos todos em casa. Claro, não podia expressá-los no quotidiano, na vida que todos julgavam normal.

E, afinal, fazia isso há treze anos.

 

Thuan B. Carvalho

9 de nov. de 2010

E se fosse?


Não.

Hoje não falarei de sentimento

Nem da dor, nem do amor ou sofrimento

Içarei simplesmente letras ao vento

E hei de trovar o dia - impaciente e lento

É.

Descreverei assim o Romeu das telas

Encarnarei Pierrot e suas donzelas

E no final, por pena, quem sabe elas

Como Geni, hão de amar minhas mazelas

Sim!

Vou cantar aquela música do Aladin

Mas para a flor - e não mulher - Jasmin

Vou aos céus, convidar o Querubim

Para ver o pôr-do-sol perto de mim

Há.

Vou ao rio me benzer e me banhar

Ver São Jorge e o dragão a duelar

E nesse banho, que é de rio e de luar

Vou ver fundir-se em raiz meu calcanhar

Pronto.

Não vou tocar nesses assuntos delicados

Só quero o cheiro da bromélia - quente e doce

Queria eu vê-los fundidos, transformados

Sei que flor não é amor, mas e se fosse?



Thuan B. Carvalho

5 de nov. de 2010

02/11


- Olá senhor. Por que choras?

- A perda foi grande. Desculpe-me a pomposidade, mas sou sentimental de nascença.

- Não vejo males nos sentimentais, vejo mal na tristeza que te ronda.

- E haveria de ser de outro jeito? É dia de celebrar os mortos.

- É certo que não, mas há o outro lado.

- Que outro lado?

- O outro. Há sempre dois lados. O difícil é enxergar ambos. Hoje é o dia dos mortos, então lamentamos as mortes. Ou. Comemoramos a vida. Entende? Ou seja, no dia dos mortos você comemora o fato de estar vivo, e nos outros 364 dias do ano, é dia do vivo!

- Entendo, mas pensando assim, os dias seriam todos felizes...

- Exato.

- Sempre sorrindo, sempre alegre.

- Sim.

- E não haveria um diazinho sequer para sofrer?

- Não senhor ....


Mas que mal lhe pergunte, PARA QUE VOCÊ QUER SOFRER?

...



Thuan B. Carvalho

15 de out. de 2010

São “o que” e “quem”?


Parou, pensou duas vezes, e então caminhou nem tão decidida quanto queria, os pequenos pés descalços trançando incertos sobre os paralelepípedos daquela rua sem saída. Erguia-se imponente diante de Madaleine uma casa de três andares, que a cobria temerariamente com sua sombra. Tocou a campainha apenas uma vez, sendo imediatamente recebida por uma moça de aparentemente 23 anos, que parecia estar saindo de casa naquele exato momento. A moça olhou Madaleine de cima a baixo, e disparou com uma voz doce: “olá menininha. O que posso fazer por você?” “bom, é que hoje é dia de São Cosme e Damião”, respondeu a menina, não sabendo como as palavras saíam de sua boca, tamanha era sua timidez. “eu queria saber se vocês estão dando docinhos aí... eu ainda não peguei.” Ao ouvir aquilo, a primeira sensação de Kate foi choque. Como não havia se lembrado do dia? Como não ouvira sequer falar? Sem sair do lugar, o choque deu lugar a uma onda de pensamentos que a sugou para um passado distante, onde uma multidão corria - mais parecendo uma revolução infantil - em busca das casas que davam mais doces - porque todas davam! E toda a cidade parava para ver a alegria nos olhos daqueles garotos que saíam cheios de si, e cheios de doces.


Kate retornou de seus devaneios e encontrou os olhos cansados de Madeleine, que pareciam já esperar pela resposta negativa. Inesperadamente, a moça foi tomada por uma alegria insuportável, e decidiu-se. Entrou em casa novamente, pegou em sua carteira a nota mais alta que havia, tomou a pequena criança pelas mãos e a levou à mercearia, onde “torrou” tudo em balas, doces, chicletes, pirulitos. Juntou tudo numa sacola e entregou à Madaleine, que não cabia em si de alegria. “Tome, é tudo seu. Só quero um abraço como retribuição”; e assim, recebeu o mais gostoso dos abraços, como fazia tempos não recebia. E aquilo lhe valeu o dia.


Enquanto acompanhava Madaleine, que voltava para casa saltitando com sua sacola cheia de doces, Kate pensou:


“Extinguiam-se paulatinamente os jogos de peão, as brincadeiras de queimada, de bandeirinha, as voltas de bicicleta, a praça, o kinder-ovo, a bala chita, os piqueniques, o pique-esconde, a bola de gude, a bola de meia, a manga furtada, o polícia-ladrão, a areia nos pés, os pés descalços, a roupa de ontem, a brincadeira de hoje, a travessura de amanhã; extinguia-se lentamente sua infância."


E como se não bastasse, levavam-lhe também o dia de Cosme e Damião.



~ Thuan B. Carvalho

1 de out. de 2010

Ouro Preto:


Idade que ensina

Luzes que cegam

Poço de alto-astral

Riqueza sobre riqueza que faz de mim

- borrão dessa noite fria -

Apenas um referencial



Donde haverás de ser eternamente admirada, cidade formosa;

Pedra sobre pedra, prosa sobre prosa.



Thuan B. Carvalho

16 de set. de 2010

regnad, noisop.

É cedo e meu coração explode veneno

Cada veia pulsa epilética

Trazendo um gosto amargo do meu corpo

E cada artéria deixa, extasiada, meu coração

Carregadas da sinfonia sádica que de lá soa

“Amor bandido cachorro trem!”

Meu coração é bandido, ele às vezes se cala

E deixa minha mente resolver a situação

É isso o que me faz chegar mais cedo em casa

E não despertar você de um sonho bom

Pra dizer contrariado que estou sofrendo de amor

“Que o teu afeto me afetou é fato agora faça-me o favor!”

Não posso dizer que estou escrevendo

Na verdade essas letras são puras peçonhas

Invadindo o coração de cada qual quem as lê

E dividindo as toxinas que entorpecem meu corpo

Roto; barulhento; insalubre; árduo, arde.

“É ferida que dói e não se sente”?

Tomara que eu não esteja errado

Por agir assim, tão doador universal

Poupando sempre você das próprias faltas

Que eu nem sei se realmente as são

Mas devem ser senão por que me fariam mal?

É que eu não quero fazer de você a toalha

Que vai enxugar essas lágrimas tóxicas

Que você mesmo derrama através de meus olhos

Passo a tentar enxugar tais lágrimas com poesia

Mas elas corroem minhas palavras, lentamente

E deixo você ver amanhecer o dia

Na companhia dos lençóis, somente.

Thuan B. Carvalho

13 de set. de 2010

Prólogo da Guerra



Os sinos já badalam, chega a hora

De provar para os antigos a coragem

E aqueles que o medo da morte já devora

E aqueles cujo peito ainda chora

São a morte anunciando sua passagem




Flechas pintam o céu negro de vermelho

Silvando pontiagudas entre os ossos

E olhar para a frente é olhar num espelho

Em cada olhar a sombra firme de um guerreiro

No duelo contumaz daqueles povos




Os cavalos, amedrontados, relinchando

A cada ferida um grito de cortar

E devagar os cavaleiros se desmontando

A lança em punhos, a voz sempre bradando

A magia da batalha está no ar.

As mulheres, em suas casas, a rezar

Vão sentindo o coração se apertando

E o máximo que podem fazer é esperar

Ouvindo a morte em seus ouvidos sussurrar

Ao ver o fogo da batalha se apagando




Nada mais resta, além de corpos no chão

E o sino que ainda badala lentamente.

Aos guerreiros heróicos, o perdão

Quem restou os esfaqueia o coração

Concedendo-lhes uma morte mais decente

O povo vitorioso ergue sua bandeira

O orgulho invadindo os corações

Mas já receia outro ataque na fronteira

E vai fechando suas portas de madeira

Recarregando de flechas seus arpões




E a morte, que nada tem com aquilo

Vai colhendo os cacos da matança

Esperta, esgueira feito esquilo

Fria, pesa os corpos: quilo a quilo

Faz da guerra brincadeira de criança.



~ Thuan B. Carvalho

Sobre a Abstração

Vento vida voe

Pronde a proa aponte

Siga sozinho sua sina

Traça tua trilha

Haverá de haver um horizonte

 

doe

conte,

menina.

                  Ilha

       ponte.

 

Thuan B. Carvalho

4 de set. de 2010

HCl


Quero transitar num mundo caduco

De olhares etéreos e insatisfeitos

Quero do sangue de meus ancestrais

Suco.


Quero ser a pedra no seu caminho

A corda no pescoço

E quando você tropeçar

Fosso.


Erguer-me-ei de sua desgraça

Cuspirei em todos os epitáfios

E minha gargalhada nem soará

Sem-graça.


Cobiçarei sua mulher, próximo

Trapacearei em seu jogo inútil

E jamais me desculparei por ser tão

Fútil.


Serei tão vil e sem pudor

Que quando em flor

Mulher;

Desabrocharás em mal’mequer.



~ Thuan B. Carvalho

9 de ago. de 2010

Sobre as falhas



Olhou para trás, sentindo o corpo todo tremer, mas não parou de andar. Cristine acordara com a sensação de estar sendo seguida, e desde quando colocara os pés para fora de casa, até o atual momento, a sensação não lhe abandonara. Levantou-se sonolenta naquela quarta-feira morna de primavera sul-americana, abrindo as cortinas de seu conjugado e deixando a luz finalmente desvendar o ambiente. O quarto tinha uma pintura branca, cortinas verdes com black-out, uma mesa grande e uma pequena, todas de um marrom bem claro, e a cama do mesmo material, forrada com um lençol azul escuro com listras brancas. Dois quadros Monet decoravam o ambiente, e dois guardanapos usados ao lado do notebook sugeriam a rotina da garota. Trabalhava muito e comia mal. Cristine acordou normalmente, vestiu-se e foi trabalhar. Ao caminhar pela calçada, não notou uma viga que caiu 9 segundos após ela passar por uma construção. E aquela sensação de estar sendo seguida que não sumia. Das dezenove vezes nas quais atravessara a rua no dia, em quatorze delas sofrera buzinadas e raspões dos carros, que pareciam mais apressados naquele dia. E invariavelmente olhava para trás. Várias pessoas na rua olhavam para onde Cristine olhava, pensando que a garota via alguma coisa, e alguns começaram a rir-se da situação dela. Estava totalmente paranóica. Dois cães avançaram nela, e na fuga, a garota escapou por pouco de um ciclista desgovernado que pedia desculpas pelo seu péssimo freio. Como podia aquela sensação perdurar até mesmo dentro do banco? Encontrava-se na fila para pagar suas contas, e reparava em todos os cantos, mas ninguém parecia estar se importando com ela. Ninguém prestava-lhe atenção, então como estava sendo seguida? Pagou suas contas e saiu. Parou num café, e por pouco não tomou o chá de mel do rapaz ao lado, substância essa que causava uma alergia quase letal na garota. Cristine suou frio, quando andava, naquela hora, ainda olhando para trás, e pensava em seu dia. Quase chegava a olhar se havia um alvo pintado em suas costas. O corpo tremia, involuntariamente. Mas conseguiu. Quase pisou num prego enferrujado com as botas ao chegar em casa, mas desviou em tempos, abriu a porta da residência e entrou rapidamente, deixando aquela sensação para trás finalmente. Tomou um banho demorado, comeu alguma coisa, desligou o notebook e deitou-se para dormir.




Já dormindo, teve um ataque cardíaco fulminante e morreu. Levantou-se Alma, deixando o corpo deitado imóvel na cama. Sua confusão durou pouco, e ela logo entendeu que havia morrido. Chorou copiosamente, e foi sorte não poder arrancar os cabelos de sua alma. Onde estava a justiça da vida? A vida falhara com ela. 27 ANOS! Por que ela? Por que?

E bastou um olhar para aquela que a seguia durante todo o dia para que fosse respondida. Aquela velhinha com um capuz preto e uma foice estava sentada ao seu lado, e seus olhos de jabuticaba divertidos traziam uma mensagem nem tão legal quanto real.

A morte, essa sim; tarda, mas não falha.”



Thuan B. Carvalho

23 de jul. de 2010

Desespero em Cores


*

Trace uma linha imaginária

Erga um muro de contas ao redor de si

E grite.

Tão alto quanto conseguir

*

Mas se mesmo assim

Mesmo depois de gritar

Espalhar sua acústica monótona pelo ar

Se ainda quiser me odiar

Entenda.

O mais rápido que puder entender

*

Foi você meu mais iluminado céu

Amarelo-estelar

Branco-lunar

E quando descobri seu véu

Provei do seu fel

Desilusão.

*

Então fizeram sentido minhas dores

Cores.

amarelo-anemia; branco-nada

*

Meu mundo agora é fosco

Céu negro

Mar cinza

Ar de metal

e palpita meu coração enterrado no quintal.



~ Thuan Bigonha de Carvalho

16 de jul. de 2010

Am… (?)

A campainha.

Impressionante como aquela leve badalada vinda da porta produzia a sensação equivalente a de uma injeção de adrenalina em seu corpo. Seu coração batia no ritmo das batidas da visitante, enquanto ele passava as mãos nervosas no cabelo, em frente ao espelho, para ficar mais apresentável.

Seguiu até o hall e abriu a porta, encontrando aquela princesa ali parada, observando. Marie trazia os olhos levemente umedecidos, o que John logo percebeu, quando tomou-a pelas mãos e a abraçou. John pensava no motivo de os povos até hoje não tomarem o perfume de Marie como uma arma potencialmente perigosa. Bastava que soltassem a garota com seu cheiro num país, e John tinha certeza de que tal país cairia de joelhos aos seus pés.

Marie é demais.

- John, muito obrigado por me receber nessa noite de sábado. Sei que estou atrapalhando algum encontro seu, mas obrigado mesmo; eu realmente estou precisando. Você é um ótimo amigo.

Amigo. Amigo. Amigo.

Aquelas palavras ressoaram na cabeça do rapaz, fazendo com que ele se perdesse da admiração por uns breves instantes, para se lembrar do panorama pelo qual a garota o via. E ela o tinha como amigo.

Era bem verdade que ela deveria conhecer as intenções de John, que desde que se entendia por homem era apaixonado por Marie, mas ela o via como um amigo. Enquanto ele só pensava em mergulhar naqueles lábios borrados de batom, ela queria um abraço e um conforto. E sobre o cancelamento do encontro, era mentira. John ia ligar o computador e acessar qualquer site de sacanagem. Mas quem precisa saber disso?

- Você sabe que pode contar comigo, Marie. Para o que quiser.

John sorriu. Marie sorriu, entre algumas lágrimas. E se sentaram na cama. Foi lá que Marie desabou. Contou sobre seu problema, sobre como estava infeliz, sobre como queria que as coisas fossem diferentes com os homens. E John sabia.

Marie nunca assumiria, mas também amava John. Enquanto não assumia, mantinha aquele relacionamento como uma amizade, e tratava todos os outros relacionamentos como um lance, nada mais do que prazer. Curtia, “recurtia”, e sempre repercutia ali: ambos conversando, ela chorando, ele acalmando. Era uma sina dolorosa. Principalmente para ele.

Continuaram conversando, até que Marie pegou no sono. John tirou-lhe os sapatos, ajeitou-a na cama, e cobriu-a com sua colcha. Deitou-se ao lado dela, terminou de ver o filme, depois ficou encarando o “sobe-desce” do corpo da garota, que respirava pesadamente enquanto dormia.

Quão indescritivelmente lindos eram aqueles olhos fechados?

Quão indubitavelmente linda era aquela respiração cansada?

Quão irremediavelmente apaixonado John estava?

Sacudiu a cabeça, passou a mão levemente pelo rosto de Marie, e acabou adormecendo.

E no outro dia, mais uma batalha a ser vencida. John acordou, e encontrou Marie de pé, vestindo apenas calcinha e uma camisa larga dele, fazendo o café. Sentou-se na mesa, atordoado. Marie sorriu, deu-lhe um beijo na bochecha, e serviu ovos mexidos e torrada. Ele queria MARIE mexida com torradas no café, mas não disse nada. Guardou o pensamento para si, enquanto observava, sem que ela percebesse, aqueles contornos que ele tanto amava.

- John, muito obrigada MESMO. Você é um anjo e não sabe.

Os pensamentos de John no momento estavam longe dos afazeres de um anjo, e ele só conseguiu sorrir.

- Quando precisar, Marie... Quando precisar.

E a frase ficou no ar, enquanto ela se despediu, vestiu suas roupas e saiu. Virou-se para trás por um breve momento, jogou um beijo e piscou os olhos. E se foi.

Levou consigo todo o seu perfume, toda a essência e toda a vida de John.

“Esse rebolado um dia me mata”, pensou John.

Sem saber que.

Dia após dia.

Morria.

- Thuan B. Carvalho