22 de jun de 2010

Anjos e Demônios


“Seu defeito e sua qualidade, seu ápice e sua ruína, unidos na loucura de suas concepções, tornavam-no anjo enquanto demônio. Um anjo sagaz e atuante, protetor e onipresente - um remédio a qualquer desatino; um demônio voraz e sufocante, malfeitor e inteligente - um veneno sem qualquer antídoto.”


Sem saber da profecia que o acompanhava, elas se apaixonavam. E com freqüência. A verdade nua e crua é que nem ele sabia que tais palavras haviam sido marcadas a ferro em sua alma, e que delas jamais conseguiria se livrar. Não que quisesse, claro.


E era sempre assim. Ele conseguia ser tudo o que elas desejavam de um homem, lendo olhares e pensamentos, sabendo de gostos e segredos, parecendo realmente não fazer parte daquele conglomerado de brutamontes que se diziam mais homens por terem mais mulheres, sem saberem dar o valor a cada uma delas. Tinha sempre nos lábios a palavra chave, o refrão correto, o poema oportuno, a gíria engraçada, o pensamento que completasse.


E num piscar de olhos, na simples reviravolta de um momento, ele sumia.


E não havia telefonema que tocasse, não existiam horas nas quais ele se encontrava em sua casa, ele não tinha mais vida social, não aparecia nos lugares, não retornava a caixa postal, e nem nada. Mas é claro. Seus lábios, doces e venenosos, com certeza já haviam profetizado algo do tipo; algo como uma “mudança de humor” que fosse explicá-lo posteriormente. E era simplesmente assim, parecia que seu lado demônio confabulava com seu lado anjo, e ele projetava teias complexas das quais somente ele saía, mas que prendiam em seu centro, completamente inativos e capturados, os sonhos intermináveis que ele prometia no terceiro encontro.


E quanto a você, você permanece em seu mundo, acreditando com veemência que a culpa foi toda sua. Que você não soube lidar com aquela perfeição em forma de humano, com aquele que finalmente seria o cara certo.


E se encontram dois meses depois, na mesa de um bar. Ele, sorrindo, levanta-se de onde estava para cumprimentá-la, dando um abraço apertado, e perguntando como vai sua vida. Ela sorri, apenas para retribuir o gesto, mas a interrogação em sua cabeça não é diferente das outras tantas. Ele parecia não conter mais aquela ligação, parecia não se lembrar mais dos momentos que viveram juntos. Ela procurava sentir aquela alma tão ofuscante, tão presente, tão imponente, mas tudo o que sua alma captava agora da alma daquele estranho era uma frase tão abstrata quanto aqueles momentos passados juntos pareciam agora:



“amor, eu não estou em lugar nenhum.”



~ Thuan B. Carvalho

18 de jun de 2010

Rima e Solidão



Na maioria das vezes não é escolha

Nem se trata simplesmente de opção

A poesia surge do nada - feito bolha

Que se sopra daquela “água com sabão”

E dali para frente pronto: é poeta

Com os conhecidos ônus da profissão

Incluindo o principal, que acarreta

A proximidade entre aquele e a solidão



Resta somente aprender a separar

E se apossar da solidão na hora certa

Naquela máxima de “dividir pra conquistar”

Sendo hora sol, hora lua, hora mar

Sem deixar a pobre alma inquieta



É aqui que me procuro e não me acho

E confesso até que às vezes choro baixo

Na ânsia trôpega de conseguir me rotular

Pois se o poeta é - fêmea e macho - união

Entre a vazia madrugada e a solidão

Como é que eu poderia me encontrar?



E esse medo de permanecer indefinido

Cogitando poeta nunca eu ter sido

Fez-me caçar o meu lugar a existir

E após breves delongas, o consentimento

Sou “meio-poeta”, e eis aqui o fundamento -

Tenho as palavras mas não tenho O sentimento.




- Thuan B. Carvalho

19 de mai de 2010

afinal; Sonhalidade.


O baque fez ensurdecer, e depois nada.

-

Ele se encontrava no paraíso, os braços dados com sua amada. Um campo aberto, com apenas duas árvores. Uma cadeira de balanço. Uma montanha. O mar. E pássaros cantando. Ali realmente era o paraíso.

-

Acordou numa cama de hospital, tubos enfiados nos dois braços, um aparelho respiratório preso à cabeça, e duas pessoas chorando ao redor.

-

Um segundo e tinha voltado ao paraíso. Levantava-se devagar de um tombo, e caminhava com a mulher até o topo da montanha. Riam juntos, conversavam alegremente. Comiam um pedaço de pizza enquanto caminhavam. A vista era perfeita. O calor do momento satisfazia sem se fazer sentir. Não era preciso estar ali para estar bem.

-

E de repente, voltou àquela cama dura do hospital. O remédio que lhe aplicaram fazia um efeito bom, e ele começava a se sentir bem. Mas as pessoas ainda choravam; por quê? Fechou os olhos novamente e...

-

...encontrava-se no paraíso. Subindo a montanha. Sua amada ali. Foi então que achou que entendeu. O paraíso era um sonho, e ele deveria estar realmente mal para ter apenas lapsos. E, se melhorava um pouco, e as pessoas ainda choravam, seu estado deveria ser mesmo grave. Lembrava-se de uma pancada como última lembrança. Será que era isso? Recebeu um beijo tenro da mulher, e abraçou-a fortemente. Ela olhou, sem entender, aquele abraço que mais parecia um adeus. Ela notava que os pensamentos dele ora iam, ora vinham. Ele parecia num estado de transe pelo tropeço que levara ao subir a montanha.

-

Abriu os olhos com o médico entrando na sala, com uma cara triste e o coração partido. A cara de um médico que sabe ser inevitável, mas não consegue aceitar.

-

Piscou os olhos, paraíso.

-

Piscou novamente, hospital. Flores na mesa de cabeceira, uma jarra de água, e tristeza quase concreta. Era a composição daquela sala fria e modorrenta. Mas e aquele paraíso?

-

Então se encontrou no topo da montanha, a mulher sorrindo para ele, e os filhos. OS FILHOS. Subindo atrás. Nem se lembrava que tinha filhos. Era realmente bom demais para ser verdade. Levou a mão na cabeça, e encontrou uma enorme marca de pancada. A mulher trazia um saco com gelos na mão, e levava-o à testa dele de vez em quando. Um filete de sangue escorria tímido de sua testa.

-

E então hospital novamente. E dor. Não queria mais aquilo!

-

Resolveu, já de volta ao paraíso, experimentar uma sensação nova. Afinal, era um sonho. O paraíso, na verdade, não existia. Beijou o casal de filhos, beijou a mulher intensamente, e sem dizer nada correu e pulou. Pulou do alto da montanha. Ouvia os gritos desesperados da mulher, que se agarrava aos filhos no cume da montanha, sentindo que se afastava cada vez mais, e mais rapidamente.

...

Era estranho, mas sentia como se fosse real o frio na barriga, enquanto despencava montanha abaixo.

...

E não sonhou mais com o hospital.





Thuan B. Carvalho

17 de mai de 2010

Verdades sobre o Verão


I - A palavra verão faz fazer calor.


II - O verão não consegue agradar todo mundo. Se faz calor, reclamam; se faz chover, reclamam. Eu se fosse o verão, chovia calor.


III - Eu não vejo muita poesia no verão.



Thuan B. Carvalho

Verdades sobre a Primavera


I - AS FLORES DESABROCHAM O ANO TODO!


II - Sou cada cor da primavera, cada cheiro, cada tom. Não sou ação, não tenho forma e nem tampouco sou palavra... Hoje rosa, amanhã bromélia. Ontem sequei, amanhã ressuscito. Você tem que ter fôlego para acompanhar o que me torno a cada instante.


III - Abelha, borboleta e beija-flor pensam que me enganam, mas sei que vieram dessa “era”.


IV - Em meu íntimo paraíso infinito imaginário é primavera, mas as rosas não têm espinhos.


V - Quem ama não escolhe, colhe.



Thuan B. Carvalho

Verdades sobre o Inverno


I - Com você meu inverno é parecido com o de um chuveiro elétrico.


II - Inverno e seu sorriso; primavera.


III - Você me olha assim e sorri, sem saber que torce o “v” em “f”.


IV - Realmente sentes frio? Experimenta não ter agasalho, não ter a capacidade de sentir. O que sentes não é frio, é mimo!


V - Eu não acredito nas estações do ano, nem nas horas do dia. Nada é exato; se de manhã anoiteço e colho flores do deserto.



Thuan B. Carvalho

Verdades sobre o Outono


I - Dizem que as folhas só caem no outono, e ninguém sabe que as árvores caem o ano todo.


II - Pisei naquela folha seca, e o barulho me lembrou pizza torrada.


III - É das carecas que ele gosta mais.


IV - Adoro começar textos no outono. As folhas esvoaçando ao vento são tão poéticas que me fazem esquecer o quão raras são essas ocasiões.


V - É sempre outono no coração de quem não acredita.



Thuan B. Carvalho

14 de mai de 2010

Nostalgia


Até hoje de manhã, eu realmente desconfiava das coisas. Desconfiava porque é da minha natureza desconfiar. Como é também da natureza do homem comprovar, testar, aprovar, afirmar! Tudo tem que ser certeza. E a certeza doeu amarelo-doença nos olhos, e ardeu cinza-chumbo no estômago. É a dor da nostalgia, a certeza de que não volta mais, a vontade de um dia-a-dia que simplesmente já se fora, de uma intensidade que infelizmente foi-se bruma, sombra de árvore em dia nublado. Sentado no banco daquela praça foi que eu acreditei nas coisas. E as coisas mudam.


Quem pediu bancos novos, chão pintado, canteiros sintéticos, ferros novos, luzes potentes, postes pintados; simetria exata de uma solidão moderna?

Quem encomendou esse futuro sem sorrisos, sem pés descalços e sangrentos, sem pipas, sem peões, sem futebol, sem terra, sem poeira, sem sujeira; assimetria inexata de uma coletividade ultrapassada?


Nunca imaginei que fosse dessa maneira. Em meus sonhos infantis, pensava em minha vida exatamente como está hoje, porém, achava que viriam outras crianças para assumirem o meu lugar subindo na árvore mais alta da praça. Ou na casinha de madeira. Ou na cabeça daquela estátua. Ou no alto do poste. Terrível engano. O poste é hoje perigoso para se subir, a estátua não existe mais, a casa de madeira é só um esboço do que outrora fora, e as poucas árvores estão lá, solitárias, olhando as poucas crianças que as deixam de lado para passarem, desatentas, distraídas demais com seu brinquedo eletrônico.


Porém, o que vejo agora é o pesadelo do que não vejo; e meu delírio é tentar achar um motivo, uma saída plausível para aquela destruição que se tornara factualmente normal. Tento de todas as formas achar normal a ausência de mim, de meu eu passado ali, não representado por uma alma sequer. As respostas não vem, e a falta delas traz uma vontade rouca de gritar, de culpar alguém; sobe de minha garganta o veneno mais mortal...


... e escorre pelos bueiros com o mar de meus olhos, levando consigo as cores vivas de um pretérito mais que perfeito; mas que jamais se conjugará no futuro.



Thuan B. Carvalho

19 de abr de 2010

(…)




É exatamente aqui que você se engana


Você não começou a ler coisa alguma


Os versos que escrevo deitado na cama


Não têm sentido nem meta nenhuma


(só estou escrevendo para que mais cedo eu durma!)




Mas o desespero das pessoas é tão grande


Por algum conselho que faça a vida ter sentido


Que se passam por eternos ignorantes


E terminam de ler sem que o texto seja lido


(isso não é um anúncio de refrigerante!)




O que eu vejo nos seus olhos dói em mim


E a você, que agora lê, é que escrevo


Se procura dessa vida um próprio fim


Tais palavras de tão vãs não têm relevo


(se não valem como é que eu me atrevo?)




Para provar fiz uma mera inversão


Que é quase tão patética quanto banal


Quando no texto procurar a conclusão


Vai perceber que meu começo é o final
(...)






~ Thuan B. Carvalho

18 de abr de 2010

Indisposição



Besteira é pensar que essa vida vale

O valor que vai vigendo voraz

Que alguém dê uma resposta que me cale

Ou para mim é tanto fez e tanto faz

Sou enérgico porque vivo do vento

Sou sagaz porque danço o que canta

E não é fácil obter meu acalento

Nem energético nem sagaz, sou criança



Quero mesmo é que, como nos ditados

A água fure a pedra de tanto bater

Quero o caos instalado nas cidades

Latente, letárgico, longínquo

Não, na verdade eu quero o caos aqui

Ao alcance desses olhos afogueados

Que a Terra chora pois não haverá de comer



Há em mim um tanto de loucura

Que se expressa livremente em minhas artérias

Esse tanto é o que sou, verdade intrínseca

Sendo o resto apenas parte de matéria

E há gentes que se escondem entre máscaras

Trocando até mesmo o bem-estar pelo seu ego

Definitivamente, não sabem essas gentes

Que só tampam um olhar que já está cego



O que ecoa de mim é o que traduzes

Dessas linhas carregadas de madrugada

A cidade já acende suas luzes

Galos cantam de forma desregulada



Existe agora uma questão bem relevante (cruzes!)

Para meu texto, é questão primordial (que furada!)

Espero que já tenha sido o bastante

Vou explicar então preste atenção:

Já voltei ao meu Estado Natural

Tenho rimas mas não tenho Inspiração.




~ Thuan B. Carvalho

Um tanto quanto Ryan



Ryan era diferente.


Ryan odiava usar máscaras de realidade.



Ryan chorava quando via alguém caído pelas ruas, sem provimento.


Ryan queria um mundo melhor; sem achar que vivia num mundo ruim.



Ryan não deixou que atrocidades se tornassem “comuns” em sua vida.


Ryan chorava.



Ryan não admitia as coisas que ouvia dizer sobre pessoas serem más.


Ryan pensava por livre e espontânea vontade.



Ryan ignorava ao máximo a influência da máquina do quarto poder.


Ryan ajudava quem achava que precisasse, quando podia.



Ryan acreditava no amor.



Ryan buscava seu caminho.


Ryan era diferente.



Ryan deveria ser você, ou você deveria ser Ryan?



~ Thuan B. "R." de Carvalho

11 de abr de 2010

Incandescente - Incansubinte



Passava das duas da manhã, e apesar de o outono mais gelado do que o de costume amedrontar a maioria das pessoas, ele cambaleava pelas ruas. Mas tinha destino. Arthur era loiro, olhos azuis penetrantes, corpo atlético levemente descuidado, barbas sempre feitas, pele oleosa e nariz adunco, lábios finos e bem desenhados. O que mais chamava a atenção, no entanto, era sua forma de caminhar. Era notado sempre, fosse qual fosse o lugar onde estivesse. Resumindo, o nome não remetia a um grande Rei à toa: Arthur tinha potencial.


As ruas estavam desertas, e uns poucos homens saíam dos poucos bares ainda abertos naquela madrugada de quinta-feira. Um vento gélido percorria as calçadas, trazendo o montante de folhas secas caídas com o decorrer do dia, enquanto uma umidade perceptível no ar indicava que, em algum lugar perto dali, havia chuva chegando. Arthur puxou o agasalho para junto de si, enfiou as mãos nos bolsos, e continuou seguindo seu caminho rumo à casa da esquina. Mantinha o cigarro preso entre os lábios, soprando a fumaça com uma graça inconfundível: fumar desde os quinze anos conferira-lhe certa habilidade naquilo, e ele constantemente se gabava. Era um pouco metido, na verdade.


Ele encontrou a casa, enfiou as chaves com dificuldade na fechadura, abriu o portão e entrou, tateando as paredes laterais para acender a luz.


A luz foi acesa e lá estava ela, sentada no sofá com os olhos ainda inchados. Rebecca conservava-se ao lado da lareira, meias grossas cobrindo os pequenos pés, o bonito rosto virando-se lentamente na direção da porta que se abrira.


- Você tem certeza mesmo dessa decisão, Beck? - Ele perguntou, a primeira coisa que disse quando a viu. Tinha jurado a si mesmo que não insistiria mais, e mantinha uma das mãos na maçaneta, enquanto aguardava ansiosamente a resposta. Suas mãos suavam e tremiam levemente, e seu coração pulava mais do que o normal dentro do peito.


- Acho que sim... - Ela respondeu. O cheiro de bebida e cigarro era sentido facilmente quilômetros de distância pela garota, e isso fez com que ela ficasse ainda mais tendenciosa a querer realmente aquela separação. Olhou Arthur de cima abaixo, não conseguindo esconder certo desejo daquele homem que tanto amava, mas que tanto a machucava. Ela sabia que não era culpa dele, mas como explicar isso ao coração? Ficar com ele a estava matando, e ela decidira pouco tempo atrás a dar um fim naquilo tudo. O problema foi que três horas sem ele já a fizeram repensar. Tudo bem em ficarem separados, mas o que fazer com o amor que subsistia?


Ele, bom leitor de mentes que era, entrou de vez no hall com a cabeça baixa e fechou a porta atrás de si. Caminhou decididamente para perto dela, e chegou muito perto. Foi quando a levantou pelo braço que ela viu no rosto dele o desejo, e entendeu. Ele jogou-a no chão como um macho trata uma fêmea, e aquele chão de hall de repente se transformou. Ambos tiravam suas roupas trôpegos, enquanto um novo odor se misturava ao álcool e ao cigarro. Cheiro de excitação, suor e desejo; o amor estava presente, mas quase não teve vez ante tanto sentimento. Ela mordia como se fosse o último ato de sua vida. Ele apertava como se ela fosse a última mulher de sua vida. Entrelaçaram os corpos atônitos, as chamas da lareira incendiando ainda mais aquela união, enquanto ele a beijava ardentemente. Tudo ardia naquela sala. Palavras foram dispensadas por gestos, e os gestos diziam tudo.


~


Ela acordou letárgica, atordoada sem saber o que acontecera. Copos quebrados e garrafas na mesa de centro, roupas rasgadas e os seios descobertos. Apenas uma réstia de luz brilhava na lareira, que ainda aquecia. Braços fortes envolvendo-a febrilmente. E pensou que o chão do Hall nunca fora tão aconchegante.

- Thuan B. Carvalho

Tempos (do) (Presente)s


Ei, você, que observa minha estupidez

Não vá me julgar, como se fosse um juiz

Na vida é assim, cada um sabe do que fez

E nem sempre as coisas saem como a gente quis.


Eu queria era a chance de tentar mais uma vez

E quem sabe entrar no time que se sente feliz...




Ei, você que me observa sou eu?

Privacidade parece não ser o forte

Eu olho meu rosto e vejo é o seu

O espelho me fez um perfeito recorte.


E esse recorte, será que doeu?

Dor, tensão, saudade, morte...


~


E aquele sorriso que é meu, cadê?

Guardou para quando estivermos a sós?

Não quero que seja um mero clichê

Mas por essa ausência, tornei-me um algoz.


Não existo mais eu, não existe você

O plural do presente agora somos nós.

~ Thuan B. Carvalho

6 de abr de 2010

Des Amor


- Amor, tenho algo importante a lhe dizer. Podemos nos ver hoje? - ele disse ao telefone, todo carinhoso.


- Hmm, eu também tenho algo a dizer, então um encontro hoje seria ideal - ela confirmou, nem tão amistosa assim.


~~


E naquela hora, naquele dia chuvoso, sentaram-se no restaurante que ele havia escolhido (previamente, bem previamente)


O garçom veio anotar os pedidos, até então tudo era formalidade.


- O que você tem para me dizer? - perguntou ela, um poço de curiosidade.


- Ah não, acho melhor você primeiro - revidou ele, um lago de cavalheirismo.


- Eu não tenho certeza mais se quero dizer... - ela ponderou, olhando para tudo menos para o rosto do namorado.


- Nem vem com essa, agora você vai ter que dizer. Eu só digo depois de você.


- Eu acho melhor não...


- Eu tenho CERTEZA de que é melhor SIM - definiu ele, olhando o garçom que já trazia a bandeja com as taças de vinho.


O olhar dele parou numa das taças e brilhou num suspense mudo.


- É a sua última chance, amor. Diga logo o que tem para me dizer! - ele suplicou, a última das súplicas.


- Independente do que eu diga, você vai me dizer o que tem para dizer depois? - ela protelou, já tendendo a falar


- Sim, prometo. Acho até que o que queremos dizer se parece - ele sorriu, achando mesmo aquilo.


Talvez tenha sido essa a frase que tenha mudado o destino dos dois para sempre, porque a partir daí ela percebeu que ele só falaria se ela falasse e que talvez ele quisesse a mesma coisa; e resolveu seguir em frente com o que vinha pensando em fazer há tempos. Tomou coragem (porque a bebida ainda não tinha chegado para ela tomar), inspirou, e começou:


- É que, bem... eu não sei como dizer isso. Na verdade eu tenho pensado durante todo esse último mês em como dizer, e o jeito eu já achei. Só não achei a forma de dizer sem te machucar. Então é o seguinte, espero que você não fique magoado. - Ela suava frio, mas sentia a coragem brotar - Eu tenho outro homem. E nós precisamos terminar.


Então o garçom colocou as duas taças de vinho em cima da mesa, e sorria num tom de “eu sei de tudo”. Deu uma piscadela para o rapaz, e saiu levando a bandeja. O rapaz olhou para todos os lados, menos para a namorada. Não conseguia. Não dava


- E então, o que você tinha para me dizer? - arriscou ela, para confirmar suas expectativas de que ele também queria aquilo


~


E ele olhou exasperado para a aliança de ouro que permanecia intragável no fundo da taça de vinho dela.




Thuan B. Carvalho

Des Encontro



Seguiu imponente percorrendo os trilhos


Na velocidade que o corpo suportava


Ungido da fé que umedecia os cílios


Atrás, bem atrás é que o orgulho ficava



De repente, faminta, por entre os ladrilhos; uma loba feroz os seus dentes mostrava; apenas defendia o território e os filhos; e por isso, só por isso é que ela rosnava. Girou nos calcanhares, esperto menino; e se embrenhou naquela mata densa; evitou que a loba lhe cravasse o canino; mas não evitou que ao fracasso sua busca fosse propensa.



E desembestou, comum desatino


A batida do coração parecendo mais tensa


Se aproximou do vilarejo pequenino


O nó na garganta denunciando sua presença



Então ele a viu, brilho matutino; desceu-lhe ao estômago a sensação mais intensa; sua voz lhe estrondava com a sutileza de um sino; ela era nele a personificação da doença. Tentou se esconder, mas fora em vão; seus olhos se encontraram com a força da dor; então ela veio em sua direção; nos olhos inda as mágoas de certo rancor.



Ele só queria uma explicação


Ela fora embora antes de o sol se pôr


Ela explicava que em seu coração


Brotava a semente de um novo amor



Ele não se conformava, cega paixão; perdera na hora todo o seu pudor; usou as palavras de baixo calão; transformou em ódio todo o seu calor. E ela chorou o mais triste pranto; choro da ave que abandona o ninho; mas não abandona porque tem outro canto; e sim porque sente da flor um espinho.



(...)



Voltou atordoado, cambaleando tonto


A mente tentando refazer o caminho


E dentro o coração, que outro queria tanto


Encabulado por voltar sozinho




Thuan B. Carvalho

18 de mar de 2010

Qual o nome do Filme?


- Eu gosto mais de você do que você de mim - disse ela, deitada ao lado dele no colchão.


- Você acha mesmo? - disse ele olhando para ela de esguelha, sem desvirar o rosto que encarava o teto da sala, e sem retirar a mão que a acariciava o ventre.


- Não, eu tenho certeza - reafirmou ela, reflexiva - É impossível pensar que pode existir alguém que consiga gostar de outrem mais do que eu gosto de você. Impossível!


Então ele se moveu;


Virou-se de sobressalto no colchão, sentando na cintura dela, e segurou-lhe as duas mãos em cima da cabeça. Olhou profundamente nos olhos dela, e declamou.


- Quando eu acordo, é em você que eu penso. Quando eu vou dormir, é em você que eu penso. Há dias em que o que eu mais quero é um abraço seu. Porém há dias em que o que mais quero é seu sorriso. Eu não suporto ficar longe de você. Eu não consigo me lembrar dos motivos que eu tinha pra sorrir antes de estar com você. Eu não consigo olhar para outra mulher. Eu imagino a minha filha com o seu sorriso. Eu tenho certeza de que quero acordar todas as manhãs e ver seu rosto tranqüilo a inspirar e respirar, e sentir seu hálito, e lhe acordar com um beijo, e sentir você. - Ele disparou tudo isso com os olhos fixos nos dela, e não parecia ser o rapaz em si. Era uma energia, uma força que não podia vir do cérebro. E completou - e fique sabendo você que eu não disse NEM A METADE dos motivos que eu tenho para...


- Ah, mas eu gosto MUITO de você - retalhou ela, olhando também nos olhos dele.


Ele abaixou a cabeça levemente, colou seu rosto no dela, deixando os lábios “semi-tocados”, e sussurrou claramente - Eu amo você.




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~ Romeu pegou o controle do DVD e pressionou “Power”, sem retirar os braços que envolviam Julieta. Ambos choravam com o bonito final do filme romântico que tinham alugado, e trocaram um beijo ardentemente apaixonado em homenagem ao amor consagrado no filme, que instigava os corações a se amarem mais do que o amor poderia suportar.




~Thuan B. Carvalho

Inflexões


Ouvia música, e lia textos; deixou sua atenção vagar; via, em sua própria cabeça, as idéias passarem rápidas; pensou em como as capturar; queria mesmo era escrever; indignava-se; via que tinha idéias; sabia que elas estavam ali; só não conseguia apanhá-las; olhou o quarto, desarrumado; olhou as horas, tarde; olhou para a tela do computador; voltou a concentração para si; ouvia U2; lia um blog; QUERIA ESCREVER!


Ele viu;

Ele entendeu;

Ele sentiu.

Ele escreveu;

Ele concluiu...



...releu e sorriu.



~Thuan B. Carvalho

6 de mar de 2010




Não quero saber
Como vai ser
Quando o que é Ser
Não for.

Não quero prever
O que pode não acontecer
Para cedo eu me ver
Sentir dissabor.

Não quero já tremer
Vou ver para crer
Se tenho que ter
Tremor.

Eu quero é viver
Eu quero você
E me enaltecer
Amor.


~ Thuan B. Carvalho

23 de fev de 2010

1 + 1 = 1


- Eu vou ficar com você para sempre.
- Suas promessas são tão palpáveis quanto um sonho - ela rebateu.
- Depende do jeito como você trata seus sonhos... - ele sorriu, dono da verdade.
- O que você quis dizer? - ela desafiou. Queria ouvir aquilo.
- Bom, eu costumo correr atrás de meus sonhos até que se tornem palpáveis. Realmente são abstratos no início, mas com o tempo ficam concretos. Estar com você aqui, por exemplo, no começo era só um sonho que eu tinha.
~
E o que ela conseguiu fazer foi sorrir, derrotada. Ele tinha mania de inverter a realidade, até que o preto virasse branco ou vice-versa.
~
- Eu gosto de você...
~
~
E aquele sentimento pairou acima dos dois, inabalável, enquanto só as mãos permaneciam entrelaçadas sobre os lençóis.


Thuan B. Carvalho

15 de fev de 2010

Help me.


Pensou ser uma maldição ser o único sobrevivente daquele naufrágio. Flutuou por um dia inteiro sobre uma das peças do navio até que, já desacordado, bateu numa ilha inóspita; totalmente selvagem. Bebeu da água dos cocos, comeu das frutas das árvores; satisfez-se. Mesmo depois de um ano passado, ele ainda via, invariavelmente, helicópteros de salvamento rondando aquela área, talvez procurando por sobreviventes do tal naufrágio. Sem pestanejar, escondia-se o máximo que podia, desarmava sua pequena cabana feita para se proteger dos temporais, e aguardava, até que o monstro aéreo fosse embora. E foi assim por um bom tempo.



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No litoral brasileiro, a criança nadava eufórica, jogando seu pequeno corpo contra a espuma das ondas. Foi numa dessas que ela sentiu algo sólido bater em sua coxa esquerda, e se perder na espuma. Ligeira como só uma criança curiosa pode ser, enfiou a mão e pegou a garrafa causadora do choque. Olhou atentamente, e correu até a beira, onde o pai vigilante observava-a.


- papai, olha só o que eu achei. Tem um papel aqui. - disse ela, totalmente excitada pela nova aventura iminente.

- deixa o papai ver... - e pegou a garrafa das mãos da filha, abrindo-a com certa dificuldade, e extraindo o papel velho e amassado.

- e então pai, o que diz? - a curiosidade não cabia naquele corpo esguio.

- er... não é nada. Nada mesmo. Está em outra língua. Veja só aquela onda!


E a filha correu, excitada por mais uma aventura no dia, que era voltar a chocar-se contra as ondas. A aventura anterior da garrafa secreta lançada ao mar por piratas já fora apagada de sua mente.



Enquanto isso, seu pai sentou-se na areia e refletiu sobre aquele papel agora em seu bolso.



Uma frase bem formada, em letra de fôrma: DEIXEM-ME EM PAZ!




Thuan B. Carvalho




Só para pontuar, eu prefiro deixar com a mágica da imaginação a maneira como o náufrago conseguiu uma garrafa, caneta e papel. Porém, se quiser uma alternativa real, pode começar a pensar em onde pode chegar o lixo com o qual você polui os rios e o mar.

9 de fev de 2010

Quotidiano V - Seriedade para Poucos





















Na cobertura do prédio, bebiam e faziam acontecer. Estavam bebendo há seis horas, um grupo de dez pessoas, cinco casais; todos amigos de faculdade fazia dois anos. O céu enluarado estava digno de um quadro no hall de entrada.

Ele rumou para a varanda, seguido de dois amigos e três amigas. Quando se debruçava no parapeito a fim de sentir o ar limpo dos lugares mais altos, sentiu o cheiro que lhe desagradava em maior proporção. Principalmente por se tratar de amigos seus. Cheiro de fumaça de cigarro.

Olhou com desdém para seus amigos, desafiando-lhes a oferecer. Quatro dos quais entenderam o olhar ácido, mas a garota, talvez pelo elevado nível de álcool no sangue, estendeu-lhe a mão com o objeto.


- ah, vamos lá. Só uma vez não vai fazer mal para você. É sério.

- Meu pulmão vai muito bem, obrigado.

- Deixe de ser careta. Uma vez só, poxa. Como você vai saber que é ruim sendo que nunca provou? E outra, eu não sou viciada. Paro quando quiser.
Ele não pôde deixar de sorrir. Estava ouvindo aquilo fazia dois anos, desde quando ela entrou na faculdade e começou a fumar. Antes realmente não era viciada.




- Tudo bem, passe para cá.
Pegou o cigarro das mãos dela, e jogou do último andar do prédio. Ela olhou surpreendida, e disparou.


- Você é maluco? Isso custa DINHEIRO! Putz, não esperava isso de você.. Não mesmo. Sua criança.



Era a hora.


- Ah, não esperava isso de mim? Então finalmente temos algo em comum. Eu não esperava que você fosse me oferecer algo que me fizesse mal, algo em que eu poderia ficar viciado, algo que você compra e usa SABENDO QUE FAZ MAL.
Dizendo isso, pegou a caixa das mãos dela, que estava prestes a acender outro, e virou. Na parte de trás, o retrato de um câncer provocado pela ingestão de cigarro. E fechou a cara. Olhava para a garota com o mais sério dos olhares, passando a imagem de alguém ofendido e enraivecido.

Ela enfim se tocou, e olhou para os dois lados, ruborizada.


- É que eu... Desculpe-me.


E não fumou mais, naquele dia.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano IV - Light out, Black in



Plaft! Também pudera, com um relâmpago daquele porte não haveria como a luz não acabar. Acendeu uma vela, usou o fundo do copo como suporte, e iluminou o quarto para continuar lendo. Não ouviu a multidão gritando apavorada, nem sentiu o medo das pessoas nas ruas, simplesmente porque do claro veio o escuro. Ignorou os muitos pedidos a deus para que a luz voltasse, simplesmente para que terminassem de assistir à novela.



Não, ele realmente não fazia parte dos outroscentos que choravam o fim do mundo só porque a energia elétrica havia se esvaído. A luz da qual ele necessitava emanava de si.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano III - Reflexão


Hoje fizeram com que eu pensasse;


É bem verdade que eu amo o português e as palavras ..


mas escrevo mesmo é pra fugir da realidade.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano II - Milésimo de Segundo da Eternidade



Ele passava no passeio da praça. Ela, vinha no passeio contrário. A contramão do amor.



Foi quando os olhares se encontraram.



Ele fixou seus olhos nos dela, e o ambiente urbano voou para longe, como num filme de ficção, trazendo para si uma praia deserta. Ele Adão e ela Eva; os únicos seres na face da Terra. Imaginou o signo do amor da sua vida, se combinaria com seus sonhos aquarianos. Pensou se ela gostaria de guerra de travesseiros numa manhã de domingo, quando acordassem embebidos de amor e álcool. Imaginou-a entrando consigo num restaurante formal mineiro, onde seriam os únicos na pista a dançarem enquanto os outros jantavam. Viu perfeitamente ambos andando de mãos dadas no calçadão da cidade, enquanto ele carregava a filha dos dois nos ombros. Quase chegou a perguntar com o olhar se ela gostaria de presentes feitos à mão, de sítio, de praia, de família, de piadas, de advogados, de surpresas, de viagens, de amor...


Ela olhava aquele rapaz que a encarava. Tinha um “quê” que a atraía. Pelas roupas que usava, apostaria tudo como tinha mau gosto para escolher sua combinação. Chegou a ver a mãe do rapaz escolhendo as roupas para ele vestir, e armou um sorriso de canto de boca. Os óculos até conferiam um ar intelectual, e ela pensou se ele estudava, se garantiria um bom futuro aos seus filhos. Barbas mal feitas agradavam-na. Sem piscar os olhos, pensou que ele seria uma ótima companhia para tomar um açaí na beira da praia, que parecia ser do tipo de caras que surpreendiam, e que talvez fosse ser um ótimo pai. Pai dos filhos dela, quem sabe? Ruborizou levemente com o pensamento e conseguiu, inexplicavelmente, balançar a cabeça para afastar o pensamento sem que seus olhos se desviassem dos dele.



E quando se cruzaram...


Simplesmente continuaram a andar, deixando que a timidez e a covardia superassem a vontade daqueles corpos de se unirem. E foi essa troca de olhares o chamado “milésimo de segundo da eternidade” em que mais duas almas deixaram de se satisfazer.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano I - Almas que Choram



Ele voltava do clube a passos assimétricos, o calor extremo incomodando cada célula de seu corpo, mas mesmo assim cantarolava baixo um samba do qual queria se lembrar fazia uns minutos.


Repentinamente, chuva. Olhou para o céu intrigado, e havia apenas uma nuvem tímida, mas que se esforçava bastante, fazendo cair uma chuva mensurável. Ele fechou os olhos, e levantou as duas mãos ao céu, agradecendo a chuva sem desmerecer o calor. Ao seu redor, os pequenos rebuliços de transeuntes que há pouco praguejavam sobre o calor infernal agora corriam para baixo das marquises a fim de não se molharem com a chuva. Eterna complexidade do ser humano.


O tempo pareceu gostar de ser repentino, e do jeito que trouxe a chuva, levou. Porém, deixou um arco-íris, fragmento sublime que o rapaz não pôde deixar de perceber enquanto olhava para o céu. Flagrou o ocorrido por uns minutos, até que retirou o celular do bolso e começou a tirar fotos, pensando em mostrar para as pessoas depois como era lindo o tal do arco-íris.


Os transeuntes, por serem só transeuntes, ainda transitavam paralelos ao rapaz, com pressa de chegar a um lugar qualquer, novamente reclamando do calor. Viam o rapaz tirando fotos, olhavam para o céu, e exalavam um “ah, um arco-íris”. Contudo, eles já haviam deixado que aquilo se tornasse corriqueiro. O arco-íris passou a ser só mais um acontecimento efêmero de um dia em que chove enquanto faz sol, e até tinha sido explicado fisicamente. Olhavam para o rapaz, e pensavam “louco, coitado”.



Enquanto isso, no interior dos transeuntes, as respectivas almas que jamais compreenderam o comodismo de seus corpos choravam por não terem nascido no corpo do “louco”, do “coitado”. Desejavam intimamente renascer num corpo daqueles da próxima vez.




Alheia àquilo tudo, a alma do rapaz sorria, extasiada. Jamais se acostumaria com a mania boba de seu corpo de achar a vida linda todos os dias. Achava até que estava apaixonada.





Thuan B. Carvalho

5 de fev de 2010

Fatalmente Amor.






Viviam bem, obrigado. Pareciam feitos um para o outro: almas que se separaram na maternidade, ou qualquer outra coincidência trovada por Cazuza. Completavam-se tanto que às vezes ela se pegava encarando o espelho, de tanto que o via em si. Amor de verdade.

Moravam numa casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada! Sonharam viver num lugar aberto, para fazer livre o amor até fisicamente, quando trançavam pelos corredores sentindo a luz do sol, a brisa da noite, ou os respingos de chuva. A liberdade transcrevia-se ali.


Porém, (já reparou em como tudo tem um porém?) fez-se sólida a máxima de que o amor é mortal, posto que é chama. Ela quis seguir sua vida, lançar a âncora em outras ilhas, içar velas e zarpar. Ele, o último dos românticos, jamais aceitaria ter que deixar ir a menina de seus olhos. Sua vida. Sua luz.


O que ele não entendia é que a estava sufocando com amor. É, isso mesmo. O lado possessivo do amor, aquele lado com o qual ninguém faz poesia. Era tanto amor, tanto viver, tanto tempo passado juntos, que ela queria ver a si mesma no espelho, e às vezes só conseguia vê-lo. Não se encontrava mais no corpo que vestia! E isso incomoda qualquer ser alado, qualquer humano que sonha, que precisa respirar, que não sobreviveria sem poder voar.


E ele não entendia, ou não queria entender. Só fazia amar mais, até ver que não conseguiria. E trancou sua amada no quarto onde tanto foram livres. Fechou as janelas com amor, enquanto cadeava a porta com mágoa. Sabia que só fazia adiar a partida, pois se a mulher que tinha a sua frente era a mulher que conhecera, não seria aquilo que a seguraria.


- Infelizmente, terei que partir. Queria que você aceitasse, e me deixasse ir como alguém que passou por sua vida, regou seu jardim, mas que agora parte para regar outros.

- Mas como vou viver? Quem vai regar o meu jardim? Isso é UMA LOUCURA!

- É, e exatamente por isso que eu estou partindo. Você se esqueceu das loucuras DE AMOR. Só faz me sufocar, não percebe que eu quero sentir saudades? Não vê que eu queria receber uma carta sua de muito longe, para querer te ver não mais que de repente?

- ... Já sei! Vou buscar um jantar romântico, alugar um filme romântico, e nós veremos com muito amor!


E quando voltou, ela não estava mais lá. Como poderia, se a chave de sua mágoa ainda estava consigo? Vasculhou em sua casa de amor pela amada, mas só o que encontrou foi o silêncio. Foi então que entendeu. Voltou ao quarto, e olhou para o alto. Viu um ponto negro se afastando no céu, bem longe.


Na ignorância de seu amor sufocante, esqueceu-se de que enquanto a razão caminha pelos corredores, o coração possui asas.



Thuan B. Carvalho

26 de jan de 2010

Num restaurante, 15/06, 21h35min.




Ele sorri, demonstrando timidez. Ela sabe que aquela timidez é apenas máscara, escondendo qualquer outra coisa que seja. Passou um bom tempo tentando decifrar essa "outra coisa", mas já tinha concordado com a conclusão de que o homem que se encontrava em sua frente era um mistério sem pistas, aquilo que não se entende, claridade sem luz.


- Se a lua nascesse mulher, ela teria o brilho dos seus olhos..


Ela olhou para os dois lados, enquanto um leve assopro percorria seu corpo fazendo-a estremecer. Ela sentiu frio. Ele sentia calor.


Não pôde conter o sorriso, pois mesmo que aquelas palavras soassem como a cantada mais usada nos últimos dez anos, ouvidas da boca dele elas pareciam melhores..ele sabia lidar com as palavras, o cretino.


- Você não tem vergonha? Disparou ela, levando a taça de vinho à boca, ainda sorrindo pela cantada lisonjeira. - Eu sei o que você é. Acusou em tom de superioridade.


E realmente sabia. Sabia e tinha medo.


- Sabe, é? Ele olhava. E ela não resistia àquele olhar.


Ela não só sabia, como tinha certeza. Ele era uma espécie de arquiteto da própria liberdade, um anjo errante, mudando sua teia do destino a cada passo dado. Ela tinha medo de o acompanhar. Tinha medo de estar ao lado dele quando aquele olhar calmo virasse erupção. Tinha medo e era por isso que ainda não estavam juntos...porque ela ainda podia, e o ignorava.


Ele bebeu de sua vodka, e sentiu o estômago dar uma volta. Notou, olhando nos olhos dela, que ela compreendia toda sua essência. Compreendia, mas não entendia. Tudo o que queria naquele momento era levantar-se da cadeira, imaginar não ter ninguém mais naquele restaurante, e beijá-la. Era o que queria, porém, seu bom senso dizia para ter cautela. Fazia tempo que não se viam, e não era por conta daquele sentimento antigo que ele deixaria-se levar, fazendo talvez uma besteira. Um perfeito cavalheiro.



Ela, que não tinha obrigação nenhuma de ser "cavalheira", não era aspirante a poeta, não dava a mínima para quem estava ao redor e não costumava seguir seu bom senso; levantou-se da cadeira, puxou o rosto dele mais para perto, e fez acontecer.





Thuan B. Carvalho

17 de jan de 2010

Ponto (final) de Vista.



A pés descalços e passos firmes, esperando sinceramente que o nascer do sol fizesse renascer, rumou para a areia da praia, bem ali onde a espuma das ondas calmas tocasse seus pés, e sentou-se a esperar.


Um fino traço anil cobria o horizonte, sinal de que em pouco tempo o espetáculo do dia-a-dia iria começar. Notou que estava sozinho na praia àquela hora, e sorriu ao perceber que tudo parecia se encaixar.


Enquanto olhava distraído, uma das mãos traçava involutariamente um desenho na areia. Foi quando parou, e reparou. Notou que o desenho não era um coração, nem continha iniciais, como ocorria sempre. Percebeu então que seu subconsciente, que vinha usando de trapaças para confrontar o consciente, havia finalmente cedido.


Levantou-se de sobressalto, correu o mais rápido que pôde, e mergulhou no mar. Saiu da água sentindo-se o primeiro na Terra e o último em Plutão, enquanto o sol nascia em ritmo acelerado, iluminando suas costas sorridentes e salgadas. Nem se deu ao trabalho de olhar para trás.




No entardecer, numa conversa informal com a Lua durante a troca de turnos, o Sol então comentou:


- Demorei para sair da cama, tive que nascer com pressa, e quase perdi o renascer de um ser. Pelo menos deu pra pegar o finalzinho, quando ele já subia, imponente e radiante, por aquela camada de areia. Foi lindo.





Thuan B. Carvalho

13 de jan de 2010

Inter-rompido






Duas horas da manhã. Terça-feira. Suor. Chinelo, pijama, e óculos. Abre a janela do seu quarto e o que vê são as mesmas ruas de sempre, porém diferentes. A madrugada muda as coisas. No banheiro, faz a barba. Um pequeno corte na curva onde se acentua seu sorriso, por descuido das mãos sonolentas, faz escorrer um filete de um líquido vermelho-acinzentado. Não, não era sangue o que escorria; era sentimento. Não doía!




Deixou o relógio e o celular em casa. Queria o tempo a seu bel prazer. Levou apenas pensamentos, e a chave de casa. (Isso são horas?)...




A rua estava deserta. Será que tinha movimento no deserto, naquela hora?. Tropeçou no desnível da calçada enquanto ria da própria piada. Os postes de luz iam se inclinando enquanto ele passava, sem perceber que estava sendo observado. A brisa aconchegante da madrugada era concreta, tão visível. Por onde andava, deixava respingos de sanguentimento, que escorriam de sua ferida mal estocada.




Quando chegou no lugar para onde tinha ído, parou. Parou e sentiu o mundo parar, deixando os batimentos de seu coração ditarem o ritmo da dança. Dançou o tum tum - tum tum mais estranho de sua vida, mas era acompanhado de perto pela natureza ao seu redor. O silêncio da madrugada deixava o coração conversar com as árvores. No momento, o coração dele cantava, e elas eram movidas


de um lado



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~para o outro



~~~de um lado



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~para o outro.




Seus olhos bohêmios avistaram um bar. O corpo parecia em comunicação própria. Movimentos involuntários. Ele se sentiu livre. Não tinha que coordenar, era como um expectador. Espectro de sua biologia. Podia ver cada tendão conversar com os ossos, que convencidos, rumaram para o estabelecimento. Sentou-se. Bebeu. Sem tempo, hora, sem o próprio corpo, sem sentir os efeitos, olhando a coordenação ficar mais lenta com o passar dos copos..


- Garçom, a conta por favor?


Leu "uma desilusão", escrito em letra miúda, e com erro de ortografia. Então percebeu que enquanto bebia, o garçom tomava. E tomou conta de sua vida. Deixou sua desilusão por conta da casa, pediu uma dose de rumo, e tomou com limão e sal. Tomou seu rumo amargo, vendo a mente tentar, com toda a calma, refazer o caminho de volta para casa.




Notou, enquanto voltava, que onde antes havia um pingo vermelho-acinzentado, agora havia flores. Flores as mais lindas, flores as mais diversas. Seu sentimento fazia brotar flores do asfalto. Aquilho lhe pegou de sobressalto. Apressou o passo para casa. A cada passo, uma luz a menos. Os postes foram seguindo seus batimentos.




Subiu as escadas. Escuro total. Voltou ao banheiro. Na pia, um canteiro. Rosas, margaridas; bromélias - as preferidas! Olhou o fino corte. Atento. Finalmente enxergou a beleza em seu sentimento. Tentou parar a ferida. Em vão. AONDE VÃO?


Levou o dedo ao líquido. Líquido à boca. Era...Doce? Já não tinha mais sentimento. Era só sangue. Talvez antes fosse. Mas agora não adiantava. Tentou chorar. Mas não era leite o derramado.


Via, ainda de fora do próprio corpo, o coração bater. Batia agora em vão. Oco. De tum tum foi a toc toc, mas não tinha ninguém usando. Só conseguiu imaginar o que sentiria sem seus sentimentos, porque como não os tinha, não sentia. Era vago, abstrato, normal, mais um.






Acordou. Suor. Seria a única semelhança? Um sonho tão real. Suas veias pulsavam trágicas demais para quem apenas dormia. Correu ao espelho do banheiro. Não, não havia corte. Exultou. Sentiu. Era dada uma segunda chance. Agarrou-a tão forte que a fez sangrar.




Mas o que sua chance sangrava não era sentimento, era o passado.








Thuan B. Carvalho

Essa Ausência tão Presença.





A primavera passa por meus pés da mesma forma como as pétalas das flores atravessam meu corpo, rodopiando pela calçada pouco iluminada naquele dia agradável de outubro. O sol nascendo mais tarde indica que o verão logo se aproxima, mas meu corpo acredita ser inverno faz uma semana, devido à debilidade com que tenho conseguido expressar meus sentimentos; ah! Como é sutil e devastadora a força de um amor - incompreendido. Há exatamente uma semana, eu rompia os laços que tanto me aqueceram durante certo tempo, e tornava rouca minha voz interior, fazendo visível meu estado espiritual mesmo não querendo expressá-lo. A senhora que passou por mim pela praça da cidade analisou fundo minh'alma e eu pude ver em seus olhos que eu era hoje o rascunho de outrora, que o brilho nos olhos fora substituído por uma amargura que cantarolava sobre a minha face, amargura essa que representava nada menos do que uma escolha, um caminho. Os pássaros cantavam tímidos, as flores tornavam-se mais claras na medida em que eu as transpassava, talvez querendo emitir uma mensagem, mas quem era eu naquele momento para entender uma mensagem da natureza? O senhor que tocava mecanicamente o sino de seu carrinho de picolés lembrava-me de que nosso presente é fruto de uma escolha do passado, e pensar no passado fazia meu corpo parecer de outro, quando tive que escorar no tronco de um coqueiro para me encontrar em mim mesmo, sem êxito. Os pensamentos fluíam em minha mente, e cada volta ao rosto dela tornava mais difícil minha permanência – em corpo – naquela praça, pois meu eu em alma já havia me abandonado sem escrúpulos ao presenciar um fato que, para quaisquer efeitos, culminara nesse meu estado de miséria interior e incredulidade futura.





Inconscientemente, retirei as chaves do carro guardadas no bolso traseiro, e risquei duas letras no tecido lenhoso do tronco da árvore, enquanto me perguntava – aqui conscientemente – por que desenvolvera a mania de seguir caminhos pouco trilhados. As ervas - daninhas que se evidenciavam num pé de laranja ao longe me fizeram voltar à realidade, e lembraram-me mais uma vez do que eu tinha sido a vida toda: um parasita. Eu tinha pleno conhecimento das capacidades dela, e sufocá-la e não deixar o mundo presenciar tamanhas qualidades seria uma afronta a tudo o que penso, logo, não pude deixar que o egoísmo, um mal trovado de Platão a Drummond, fizesse dela uma escrava de mim. Sim, é realmente um caminho por onde poucos trilhariam, mas foi assim que minha vida passou a fazer sentido, e é dessa forma que carregarei meu caixão: na lama ou num chão em brasa. O amor sobrevive quando os corpos se separam, e eu deixo as lágrimas correrem meu rosto para não afogarem minha amada, que permanece em meu interior: se não o todo, boa parte de mim. O sal que me toca os lábios agora é mais doce do que o sal de outrora, e o sol que me ilumina nesse momento não me cega os olhos, mas inunda minha vida inteira.





Permito-me uma última olhada ao redor, nos setenta por cento de ferro nos bancos e estátuas das praças, nos noventa por cento de flores nos canteiros e nos sessenta por cento de ferro nos corações que querem florescer e não conseguem, e nesse momento, quando tudo já fez sentido, minha cabeça pende para o lado naquele banco onde ontem alguém provavelmente jurou amor, ou fingiu jurar. Uma borboleta tímida desce das alturas para me fazer companhia enquanto em meus sonhos, onde a razão jamais derrotou o sentimento, esqueço tudo o que fez sentido em meu pensamento último e entrego-me nos braços de minha amada.







Thuan B. Carvalho







Bom, esse é mais um da série "textos que escrevi um dia". Esse eu escrevi em resposta à ANNA, amiga muito estimada, e de ótima escrita. Li uma resenha dela, e criei o par de sua personagem.