6 de mar. de 2010




Não quero saber
Como vai ser
Quando o que é Ser
Não for.

Não quero prever
O que pode não acontecer
Para cedo eu me ver
Sentir dissabor.

Não quero já tremer
Vou ver para crer
Se tenho que ter
Tremor.

Eu quero é viver
Eu quero você
E me enaltecer
Amor.


~ Thuan B. Carvalho

23 de fev. de 2010

1 + 1 = 1


- Eu vou ficar com você para sempre.
- Suas promessas são tão palpáveis quanto um sonho - ela rebateu.
- Depende do jeito como você trata seus sonhos... - ele sorriu, dono da verdade.
- O que você quis dizer? - ela desafiou. Queria ouvir aquilo.
- Bom, eu costumo correr atrás de meus sonhos até que se tornem palpáveis. Realmente são abstratos no início, mas com o tempo ficam concretos. Estar com você aqui, por exemplo, no começo era só um sonho que eu tinha.
~
E o que ela conseguiu fazer foi sorrir, derrotada. Ele tinha mania de inverter a realidade, até que o preto virasse branco ou vice-versa.
~
- Eu gosto de você...
~
~
E aquele sentimento pairou acima dos dois, inabalável, enquanto só as mãos permaneciam entrelaçadas sobre os lençóis.


Thuan B. Carvalho

15 de fev. de 2010

Help me.


Pensou ser uma maldição ser o único sobrevivente daquele naufrágio. Flutuou por um dia inteiro sobre uma das peças do navio até que, já desacordado, bateu numa ilha inóspita; totalmente selvagem. Bebeu da água dos cocos, comeu das frutas das árvores; satisfez-se. Mesmo depois de um ano passado, ele ainda via, invariavelmente, helicópteros de salvamento rondando aquela área, talvez procurando por sobreviventes do tal naufrágio. Sem pestanejar, escondia-se o máximo que podia, desarmava sua pequena cabana feita para se proteger dos temporais, e aguardava, até que o monstro aéreo fosse embora. E foi assim por um bom tempo.



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No litoral brasileiro, a criança nadava eufórica, jogando seu pequeno corpo contra a espuma das ondas. Foi numa dessas que ela sentiu algo sólido bater em sua coxa esquerda, e se perder na espuma. Ligeira como só uma criança curiosa pode ser, enfiou a mão e pegou a garrafa causadora do choque. Olhou atentamente, e correu até a beira, onde o pai vigilante observava-a.


- papai, olha só o que eu achei. Tem um papel aqui. - disse ela, totalmente excitada pela nova aventura iminente.

- deixa o papai ver... - e pegou a garrafa das mãos da filha, abrindo-a com certa dificuldade, e extraindo o papel velho e amassado.

- e então pai, o que diz? - a curiosidade não cabia naquele corpo esguio.

- er... não é nada. Nada mesmo. Está em outra língua. Veja só aquela onda!


E a filha correu, excitada por mais uma aventura no dia, que era voltar a chocar-se contra as ondas. A aventura anterior da garrafa secreta lançada ao mar por piratas já fora apagada de sua mente.



Enquanto isso, seu pai sentou-se na areia e refletiu sobre aquele papel agora em seu bolso.



Uma frase bem formada, em letra de fôrma: DEIXEM-ME EM PAZ!




Thuan B. Carvalho




Só para pontuar, eu prefiro deixar com a mágica da imaginação a maneira como o náufrago conseguiu uma garrafa, caneta e papel. Porém, se quiser uma alternativa real, pode começar a pensar em onde pode chegar o lixo com o qual você polui os rios e o mar.

9 de fev. de 2010

Quotidiano V - Seriedade para Poucos





















Na cobertura do prédio, bebiam e faziam acontecer. Estavam bebendo há seis horas, um grupo de dez pessoas, cinco casais; todos amigos de faculdade fazia dois anos. O céu enluarado estava digno de um quadro no hall de entrada.

Ele rumou para a varanda, seguido de dois amigos e três amigas. Quando se debruçava no parapeito a fim de sentir o ar limpo dos lugares mais altos, sentiu o cheiro que lhe desagradava em maior proporção. Principalmente por se tratar de amigos seus. Cheiro de fumaça de cigarro.

Olhou com desdém para seus amigos, desafiando-lhes a oferecer. Quatro dos quais entenderam o olhar ácido, mas a garota, talvez pelo elevado nível de álcool no sangue, estendeu-lhe a mão com o objeto.


- ah, vamos lá. Só uma vez não vai fazer mal para você. É sério.

- Meu pulmão vai muito bem, obrigado.

- Deixe de ser careta. Uma vez só, poxa. Como você vai saber que é ruim sendo que nunca provou? E outra, eu não sou viciada. Paro quando quiser.
Ele não pôde deixar de sorrir. Estava ouvindo aquilo fazia dois anos, desde quando ela entrou na faculdade e começou a fumar. Antes realmente não era viciada.




- Tudo bem, passe para cá.
Pegou o cigarro das mãos dela, e jogou do último andar do prédio. Ela olhou surpreendida, e disparou.


- Você é maluco? Isso custa DINHEIRO! Putz, não esperava isso de você.. Não mesmo. Sua criança.



Era a hora.


- Ah, não esperava isso de mim? Então finalmente temos algo em comum. Eu não esperava que você fosse me oferecer algo que me fizesse mal, algo em que eu poderia ficar viciado, algo que você compra e usa SABENDO QUE FAZ MAL.
Dizendo isso, pegou a caixa das mãos dela, que estava prestes a acender outro, e virou. Na parte de trás, o retrato de um câncer provocado pela ingestão de cigarro. E fechou a cara. Olhava para a garota com o mais sério dos olhares, passando a imagem de alguém ofendido e enraivecido.

Ela enfim se tocou, e olhou para os dois lados, ruborizada.


- É que eu... Desculpe-me.


E não fumou mais, naquele dia.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano IV - Light out, Black in



Plaft! Também pudera, com um relâmpago daquele porte não haveria como a luz não acabar. Acendeu uma vela, usou o fundo do copo como suporte, e iluminou o quarto para continuar lendo. Não ouviu a multidão gritando apavorada, nem sentiu o medo das pessoas nas ruas, simplesmente porque do claro veio o escuro. Ignorou os muitos pedidos a deus para que a luz voltasse, simplesmente para que terminassem de assistir à novela.



Não, ele realmente não fazia parte dos outroscentos que choravam o fim do mundo só porque a energia elétrica havia se esvaído. A luz da qual ele necessitava emanava de si.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano III - Reflexão


Hoje fizeram com que eu pensasse;


É bem verdade que eu amo o português e as palavras ..


mas escrevo mesmo é pra fugir da realidade.



Thuan B. Carvalho

Quotidiano II - Milésimo de Segundo da Eternidade



Ele passava no passeio da praça. Ela, vinha no passeio contrário. A contramão do amor.



Foi quando os olhares se encontraram.



Ele fixou seus olhos nos dela, e o ambiente urbano voou para longe, como num filme de ficção, trazendo para si uma praia deserta. Ele Adão e ela Eva; os únicos seres na face da Terra. Imaginou o signo do amor da sua vida, se combinaria com seus sonhos aquarianos. Pensou se ela gostaria de guerra de travesseiros numa manhã de domingo, quando acordassem embebidos de amor e álcool. Imaginou-a entrando consigo num restaurante formal mineiro, onde seriam os únicos na pista a dançarem enquanto os outros jantavam. Viu perfeitamente ambos andando de mãos dadas no calçadão da cidade, enquanto ele carregava a filha dos dois nos ombros. Quase chegou a perguntar com o olhar se ela gostaria de presentes feitos à mão, de sítio, de praia, de família, de piadas, de advogados, de surpresas, de viagens, de amor...


Ela olhava aquele rapaz que a encarava. Tinha um “quê” que a atraía. Pelas roupas que usava, apostaria tudo como tinha mau gosto para escolher sua combinação. Chegou a ver a mãe do rapaz escolhendo as roupas para ele vestir, e armou um sorriso de canto de boca. Os óculos até conferiam um ar intelectual, e ela pensou se ele estudava, se garantiria um bom futuro aos seus filhos. Barbas mal feitas agradavam-na. Sem piscar os olhos, pensou que ele seria uma ótima companhia para tomar um açaí na beira da praia, que parecia ser do tipo de caras que surpreendiam, e que talvez fosse ser um ótimo pai. Pai dos filhos dela, quem sabe? Ruborizou levemente com o pensamento e conseguiu, inexplicavelmente, balançar a cabeça para afastar o pensamento sem que seus olhos se desviassem dos dele.



E quando se cruzaram...


Simplesmente continuaram a andar, deixando que a timidez e a covardia superassem a vontade daqueles corpos de se unirem. E foi essa troca de olhares o chamado “milésimo de segundo da eternidade” em que mais duas almas deixaram de se satisfazer.





Thuan B. Carvalho

Quotidiano I - Almas que Choram



Ele voltava do clube a passos assimétricos, o calor extremo incomodando cada célula de seu corpo, mas mesmo assim cantarolava baixo um samba do qual queria se lembrar fazia uns minutos.


Repentinamente, chuva. Olhou para o céu intrigado, e havia apenas uma nuvem tímida, mas que se esforçava bastante, fazendo cair uma chuva mensurável. Ele fechou os olhos, e levantou as duas mãos ao céu, agradecendo a chuva sem desmerecer o calor. Ao seu redor, os pequenos rebuliços de transeuntes que há pouco praguejavam sobre o calor infernal agora corriam para baixo das marquises a fim de não se molharem com a chuva. Eterna complexidade do ser humano.


O tempo pareceu gostar de ser repentino, e do jeito que trouxe a chuva, levou. Porém, deixou um arco-íris, fragmento sublime que o rapaz não pôde deixar de perceber enquanto olhava para o céu. Flagrou o ocorrido por uns minutos, até que retirou o celular do bolso e começou a tirar fotos, pensando em mostrar para as pessoas depois como era lindo o tal do arco-íris.


Os transeuntes, por serem só transeuntes, ainda transitavam paralelos ao rapaz, com pressa de chegar a um lugar qualquer, novamente reclamando do calor. Viam o rapaz tirando fotos, olhavam para o céu, e exalavam um “ah, um arco-íris”. Contudo, eles já haviam deixado que aquilo se tornasse corriqueiro. O arco-íris passou a ser só mais um acontecimento efêmero de um dia em que chove enquanto faz sol, e até tinha sido explicado fisicamente. Olhavam para o rapaz, e pensavam “louco, coitado”.



Enquanto isso, no interior dos transeuntes, as respectivas almas que jamais compreenderam o comodismo de seus corpos choravam por não terem nascido no corpo do “louco”, do “coitado”. Desejavam intimamente renascer num corpo daqueles da próxima vez.




Alheia àquilo tudo, a alma do rapaz sorria, extasiada. Jamais se acostumaria com a mania boba de seu corpo de achar a vida linda todos os dias. Achava até que estava apaixonada.





Thuan B. Carvalho

5 de fev. de 2010

Fatalmente Amor.






Viviam bem, obrigado. Pareciam feitos um para o outro: almas que se separaram na maternidade, ou qualquer outra coincidência trovada por Cazuza. Completavam-se tanto que às vezes ela se pegava encarando o espelho, de tanto que o via em si. Amor de verdade.

Moravam numa casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada! Sonharam viver num lugar aberto, para fazer livre o amor até fisicamente, quando trançavam pelos corredores sentindo a luz do sol, a brisa da noite, ou os respingos de chuva. A liberdade transcrevia-se ali.


Porém, (já reparou em como tudo tem um porém?) fez-se sólida a máxima de que o amor é mortal, posto que é chama. Ela quis seguir sua vida, lançar a âncora em outras ilhas, içar velas e zarpar. Ele, o último dos românticos, jamais aceitaria ter que deixar ir a menina de seus olhos. Sua vida. Sua luz.


O que ele não entendia é que a estava sufocando com amor. É, isso mesmo. O lado possessivo do amor, aquele lado com o qual ninguém faz poesia. Era tanto amor, tanto viver, tanto tempo passado juntos, que ela queria ver a si mesma no espelho, e às vezes só conseguia vê-lo. Não se encontrava mais no corpo que vestia! E isso incomoda qualquer ser alado, qualquer humano que sonha, que precisa respirar, que não sobreviveria sem poder voar.


E ele não entendia, ou não queria entender. Só fazia amar mais, até ver que não conseguiria. E trancou sua amada no quarto onde tanto foram livres. Fechou as janelas com amor, enquanto cadeava a porta com mágoa. Sabia que só fazia adiar a partida, pois se a mulher que tinha a sua frente era a mulher que conhecera, não seria aquilo que a seguraria.


- Infelizmente, terei que partir. Queria que você aceitasse, e me deixasse ir como alguém que passou por sua vida, regou seu jardim, mas que agora parte para regar outros.

- Mas como vou viver? Quem vai regar o meu jardim? Isso é UMA LOUCURA!

- É, e exatamente por isso que eu estou partindo. Você se esqueceu das loucuras DE AMOR. Só faz me sufocar, não percebe que eu quero sentir saudades? Não vê que eu queria receber uma carta sua de muito longe, para querer te ver não mais que de repente?

- ... Já sei! Vou buscar um jantar romântico, alugar um filme romântico, e nós veremos com muito amor!


E quando voltou, ela não estava mais lá. Como poderia, se a chave de sua mágoa ainda estava consigo? Vasculhou em sua casa de amor pela amada, mas só o que encontrou foi o silêncio. Foi então que entendeu. Voltou ao quarto, e olhou para o alto. Viu um ponto negro se afastando no céu, bem longe.


Na ignorância de seu amor sufocante, esqueceu-se de que enquanto a razão caminha pelos corredores, o coração possui asas.



Thuan B. Carvalho

26 de jan. de 2010

Num restaurante, 15/06, 21h35min.




Ele sorri, demonstrando timidez. Ela sabe que aquela timidez é apenas máscara, escondendo qualquer outra coisa que seja. Passou um bom tempo tentando decifrar essa "outra coisa", mas já tinha concordado com a conclusão de que o homem que se encontrava em sua frente era um mistério sem pistas, aquilo que não se entende, claridade sem luz.


- Se a lua nascesse mulher, ela teria o brilho dos seus olhos..


Ela olhou para os dois lados, enquanto um leve assopro percorria seu corpo fazendo-a estremecer. Ela sentiu frio. Ele sentia calor.


Não pôde conter o sorriso, pois mesmo que aquelas palavras soassem como a cantada mais usada nos últimos dez anos, ouvidas da boca dele elas pareciam melhores..ele sabia lidar com as palavras, o cretino.


- Você não tem vergonha? Disparou ela, levando a taça de vinho à boca, ainda sorrindo pela cantada lisonjeira. - Eu sei o que você é. Acusou em tom de superioridade.


E realmente sabia. Sabia e tinha medo.


- Sabe, é? Ele olhava. E ela não resistia àquele olhar.


Ela não só sabia, como tinha certeza. Ele era uma espécie de arquiteto da própria liberdade, um anjo errante, mudando sua teia do destino a cada passo dado. Ela tinha medo de o acompanhar. Tinha medo de estar ao lado dele quando aquele olhar calmo virasse erupção. Tinha medo e era por isso que ainda não estavam juntos...porque ela ainda podia, e o ignorava.


Ele bebeu de sua vodka, e sentiu o estômago dar uma volta. Notou, olhando nos olhos dela, que ela compreendia toda sua essência. Compreendia, mas não entendia. Tudo o que queria naquele momento era levantar-se da cadeira, imaginar não ter ninguém mais naquele restaurante, e beijá-la. Era o que queria, porém, seu bom senso dizia para ter cautela. Fazia tempo que não se viam, e não era por conta daquele sentimento antigo que ele deixaria-se levar, fazendo talvez uma besteira. Um perfeito cavalheiro.



Ela, que não tinha obrigação nenhuma de ser "cavalheira", não era aspirante a poeta, não dava a mínima para quem estava ao redor e não costumava seguir seu bom senso; levantou-se da cadeira, puxou o rosto dele mais para perto, e fez acontecer.





Thuan B. Carvalho

17 de jan. de 2010

Ponto (final) de Vista.



A pés descalços e passos firmes, esperando sinceramente que o nascer do sol fizesse renascer, rumou para a areia da praia, bem ali onde a espuma das ondas calmas tocasse seus pés, e sentou-se a esperar.


Um fino traço anil cobria o horizonte, sinal de que em pouco tempo o espetáculo do dia-a-dia iria começar. Notou que estava sozinho na praia àquela hora, e sorriu ao perceber que tudo parecia se encaixar.


Enquanto olhava distraído, uma das mãos traçava involutariamente um desenho na areia. Foi quando parou, e reparou. Notou que o desenho não era um coração, nem continha iniciais, como ocorria sempre. Percebeu então que seu subconsciente, que vinha usando de trapaças para confrontar o consciente, havia finalmente cedido.


Levantou-se de sobressalto, correu o mais rápido que pôde, e mergulhou no mar. Saiu da água sentindo-se o primeiro na Terra e o último em Plutão, enquanto o sol nascia em ritmo acelerado, iluminando suas costas sorridentes e salgadas. Nem se deu ao trabalho de olhar para trás.




No entardecer, numa conversa informal com a Lua durante a troca de turnos, o Sol então comentou:


- Demorei para sair da cama, tive que nascer com pressa, e quase perdi o renascer de um ser. Pelo menos deu pra pegar o finalzinho, quando ele já subia, imponente e radiante, por aquela camada de areia. Foi lindo.





Thuan B. Carvalho

13 de jan. de 2010

Inter-rompido






Duas horas da manhã. Terça-feira. Suor. Chinelo, pijama, e óculos. Abre a janela do seu quarto e o que vê são as mesmas ruas de sempre, porém diferentes. A madrugada muda as coisas. No banheiro, faz a barba. Um pequeno corte na curva onde se acentua seu sorriso, por descuido das mãos sonolentas, faz escorrer um filete de um líquido vermelho-acinzentado. Não, não era sangue o que escorria; era sentimento. Não doía!




Deixou o relógio e o celular em casa. Queria o tempo a seu bel prazer. Levou apenas pensamentos, e a chave de casa. (Isso são horas?)...




A rua estava deserta. Será que tinha movimento no deserto, naquela hora?. Tropeçou no desnível da calçada enquanto ria da própria piada. Os postes de luz iam se inclinando enquanto ele passava, sem perceber que estava sendo observado. A brisa aconchegante da madrugada era concreta, tão visível. Por onde andava, deixava respingos de sanguentimento, que escorriam de sua ferida mal estocada.




Quando chegou no lugar para onde tinha ído, parou. Parou e sentiu o mundo parar, deixando os batimentos de seu coração ditarem o ritmo da dança. Dançou o tum tum - tum tum mais estranho de sua vida, mas era acompanhado de perto pela natureza ao seu redor. O silêncio da madrugada deixava o coração conversar com as árvores. No momento, o coração dele cantava, e elas eram movidas


de um lado



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~para o outro



~~~de um lado



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~para o outro.




Seus olhos bohêmios avistaram um bar. O corpo parecia em comunicação própria. Movimentos involuntários. Ele se sentiu livre. Não tinha que coordenar, era como um expectador. Espectro de sua biologia. Podia ver cada tendão conversar com os ossos, que convencidos, rumaram para o estabelecimento. Sentou-se. Bebeu. Sem tempo, hora, sem o próprio corpo, sem sentir os efeitos, olhando a coordenação ficar mais lenta com o passar dos copos..


- Garçom, a conta por favor?


Leu "uma desilusão", escrito em letra miúda, e com erro de ortografia. Então percebeu que enquanto bebia, o garçom tomava. E tomou conta de sua vida. Deixou sua desilusão por conta da casa, pediu uma dose de rumo, e tomou com limão e sal. Tomou seu rumo amargo, vendo a mente tentar, com toda a calma, refazer o caminho de volta para casa.




Notou, enquanto voltava, que onde antes havia um pingo vermelho-acinzentado, agora havia flores. Flores as mais lindas, flores as mais diversas. Seu sentimento fazia brotar flores do asfalto. Aquilho lhe pegou de sobressalto. Apressou o passo para casa. A cada passo, uma luz a menos. Os postes foram seguindo seus batimentos.




Subiu as escadas. Escuro total. Voltou ao banheiro. Na pia, um canteiro. Rosas, margaridas; bromélias - as preferidas! Olhou o fino corte. Atento. Finalmente enxergou a beleza em seu sentimento. Tentou parar a ferida. Em vão. AONDE VÃO?


Levou o dedo ao líquido. Líquido à boca. Era...Doce? Já não tinha mais sentimento. Era só sangue. Talvez antes fosse. Mas agora não adiantava. Tentou chorar. Mas não era leite o derramado.


Via, ainda de fora do próprio corpo, o coração bater. Batia agora em vão. Oco. De tum tum foi a toc toc, mas não tinha ninguém usando. Só conseguiu imaginar o que sentiria sem seus sentimentos, porque como não os tinha, não sentia. Era vago, abstrato, normal, mais um.






Acordou. Suor. Seria a única semelhança? Um sonho tão real. Suas veias pulsavam trágicas demais para quem apenas dormia. Correu ao espelho do banheiro. Não, não havia corte. Exultou. Sentiu. Era dada uma segunda chance. Agarrou-a tão forte que a fez sangrar.




Mas o que sua chance sangrava não era sentimento, era o passado.








Thuan B. Carvalho

Essa Ausência tão Presença.





A primavera passa por meus pés da mesma forma como as pétalas das flores atravessam meu corpo, rodopiando pela calçada pouco iluminada naquele dia agradável de outubro. O sol nascendo mais tarde indica que o verão logo se aproxima, mas meu corpo acredita ser inverno faz uma semana, devido à debilidade com que tenho conseguido expressar meus sentimentos; ah! Como é sutil e devastadora a força de um amor - incompreendido. Há exatamente uma semana, eu rompia os laços que tanto me aqueceram durante certo tempo, e tornava rouca minha voz interior, fazendo visível meu estado espiritual mesmo não querendo expressá-lo. A senhora que passou por mim pela praça da cidade analisou fundo minh'alma e eu pude ver em seus olhos que eu era hoje o rascunho de outrora, que o brilho nos olhos fora substituído por uma amargura que cantarolava sobre a minha face, amargura essa que representava nada menos do que uma escolha, um caminho. Os pássaros cantavam tímidos, as flores tornavam-se mais claras na medida em que eu as transpassava, talvez querendo emitir uma mensagem, mas quem era eu naquele momento para entender uma mensagem da natureza? O senhor que tocava mecanicamente o sino de seu carrinho de picolés lembrava-me de que nosso presente é fruto de uma escolha do passado, e pensar no passado fazia meu corpo parecer de outro, quando tive que escorar no tronco de um coqueiro para me encontrar em mim mesmo, sem êxito. Os pensamentos fluíam em minha mente, e cada volta ao rosto dela tornava mais difícil minha permanência – em corpo – naquela praça, pois meu eu em alma já havia me abandonado sem escrúpulos ao presenciar um fato que, para quaisquer efeitos, culminara nesse meu estado de miséria interior e incredulidade futura.





Inconscientemente, retirei as chaves do carro guardadas no bolso traseiro, e risquei duas letras no tecido lenhoso do tronco da árvore, enquanto me perguntava – aqui conscientemente – por que desenvolvera a mania de seguir caminhos pouco trilhados. As ervas - daninhas que se evidenciavam num pé de laranja ao longe me fizeram voltar à realidade, e lembraram-me mais uma vez do que eu tinha sido a vida toda: um parasita. Eu tinha pleno conhecimento das capacidades dela, e sufocá-la e não deixar o mundo presenciar tamanhas qualidades seria uma afronta a tudo o que penso, logo, não pude deixar que o egoísmo, um mal trovado de Platão a Drummond, fizesse dela uma escrava de mim. Sim, é realmente um caminho por onde poucos trilhariam, mas foi assim que minha vida passou a fazer sentido, e é dessa forma que carregarei meu caixão: na lama ou num chão em brasa. O amor sobrevive quando os corpos se separam, e eu deixo as lágrimas correrem meu rosto para não afogarem minha amada, que permanece em meu interior: se não o todo, boa parte de mim. O sal que me toca os lábios agora é mais doce do que o sal de outrora, e o sol que me ilumina nesse momento não me cega os olhos, mas inunda minha vida inteira.





Permito-me uma última olhada ao redor, nos setenta por cento de ferro nos bancos e estátuas das praças, nos noventa por cento de flores nos canteiros e nos sessenta por cento de ferro nos corações que querem florescer e não conseguem, e nesse momento, quando tudo já fez sentido, minha cabeça pende para o lado naquele banco onde ontem alguém provavelmente jurou amor, ou fingiu jurar. Uma borboleta tímida desce das alturas para me fazer companhia enquanto em meus sonhos, onde a razão jamais derrotou o sentimento, esqueço tudo o que fez sentido em meu pensamento último e entrego-me nos braços de minha amada.







Thuan B. Carvalho







Bom, esse é mais um da série "textos que escrevi um dia". Esse eu escrevi em resposta à ANNA, amiga muito estimada, e de ótima escrita. Li uma resenha dela, e criei o par de sua personagem.

9 de jan. de 2010

A arte de Ser.




É exatamente aquela velha rotina


do homem que precisa de moldura;


Traçou o seu destino – triste sina! -


sem saber que a liberdade cura.





De suas mãos atadas escorre o reflexo


do que outro ser vivente fora outrora;


Talvez em sua cabeça fizesse nexo


trocar a vida já vivida pelo agora.





Já não marcavam o caminho suas passadas,


largas eram tanta pressa de chegar;


Pois quem anda sobre milhares de pegadas


não haverá de novamente a terra marcar


- nem na lua reparar!




Isso explica, naturalmente, minha essência


disparate integral do homem-quadro;


A magia que me atrai é sapiência


não fazendo da rotina o meu fardo.





Quando a vida se transmuta em bifurcação


não sou do tipo que diante para e pensa;


Irracional, sigo o caminho do coração


e é isso o que faz toda a diferença.




Porém, o que me intriga me interessa

e quando escrevo sempre altero meu sabor,


Para sofrer de amor morro de pressa



tu mesmo que me acompanhas, viste…

O otimismo, que me foge ao sol se pôr,


não me faz pessimista; me faz triste.





Thuan B. Carvalho

19 de dez. de 2009

O Espelho das Almas







(...) E na indicação da décima primeira casa, finalmente os olhos do totem faiscaram em direção ao garoto que se encontrava diante daquele grande senhor de barbas brancas, segurando uma bacia. O templo começou a tremer sob os pés de Abaetê, mas como olhava para o ancião, que permanecia impassível, conseguiu manter a calma e não abdicar daquele momento. A magia amedronta.
~~Não era um templo qualquer, por não se tratar, analogicamente, de um momento qualquer. As dezessete vigas espalhavam-se harmonicamente, apesar do número ímpar, dando a impressão de que o piso estava flutuando sob o rio. Na subida, um caminho levemente inclinado, incrementado com rosas e bromélias, sendo o aroma agradável sentido até dos lugares mais distantes, como a casa de Abaetê. Vale ressaltar, ainda, que não se tratava de um garoto qualquer. A pele morena de sol, olhos negros e penetrantes, sobrancelhas espessas e bem desenhadas, lábios cheios e o nariz centralizado, davam ao garoto um aspecto indígena, enquanto o corpo ainda esguio conferia-lhe exatamente a idade que tinha: quatorze anos. Trajava um humilde sobretudo cinza, que cobria os pés descalços, a bermuda suja e a camisa esfarrapada. Porém, o excesso de humildade era compensado pelo olhar.
Desde o começo Lecter já havia pressentido o julgamento astrológico, pois a partir do momento que recebeu aquele olhar penetrante de Abaetê, sentiu-se despido, como se sua alma falasse diretamente ao garoto, sem que precisasse sua boca proferir qualquer frase coesa ou coerente.
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~~Abaetê encontrava-se no centro de uma circunferência de pedra, eximiamente desenhada na ala esquerda do templo; mantinha o braço esquerdo na direção da lua enquanto o direito, agora, apontava ao número onze. Os cinco dedos da mão direita continham leves sangramentos, feitos pelo ancião Lecter, na introdução do ritual. À simples faísca emitida pelo totem, uma mulher ruiva, extremamente branca, com os olhos verdes e estáticos, despida da cintura para cima, trajando apenas uma tanga branca, tão branca como a lua, veio na direção do garoto, trazendo uma jarra de água nos braços levemente torneados. O garoto permanecia atônito, o pulso fraco e esbranquiçado, ainda apontando na direção da mulher, que parecia não ter feições. Ao chegar à frente dele, a ruiva virou a jarra que trazia sobre a cabeça do garoto, revirou os olhos nas órbitas, e começou a proferir: “O mundo é bom, Abaetê!Acredita no mundo!Você foi abençoado com o otimismo e a inteligência, usa Abaetê!Bebe dessa água, não deixa gota escapar. Tem gente que morre de sede, homem!SEJA HOMEM ABAETÊ!As águas de Aquário são puras, são puros os Aquarianos. Leva o ensinamento do passado ao futuro, ensina o homem a conviver com a natureza; não se imponha com sua crença, aprende que o destino é o mesmo pra qualquer caminho! Aceita o seu caminho, Abaetê, sem aceitar o seu destino calado!(...).” Enquanto ela gritava essas palavras, o garoto lutava contra as águas que jorravam sobre sua cabeça, tentando respirar, mas sem obter êxito. A mulher permanecia com uma das mãos, incrivelmente forte, empunhando a jarra, enquanto a outra, sutilmente, riscava o próprio pescoço com marcas profundas, que sangravam o chão. “(...) verdade não tem, pessoa só mente, o mundo que vem, é um mundo doente. Você tem a cura, saracura! Não dê as costas ao que importa, nem se esqueça de sair ao luar. A chuva é a energia renovadora dos céus, que cai somente para refrescar, e a Lua é seu astro fundamental, controlador de marés, e controladora de você! Importe-se com o que sentir, já que a matéria é vã, enquanto a loucura é sã! Egoísmo e Orgulho são seus rivais, Abaetê; não se deixe abater! Vai pro mundo de gente maluca, criança caduca, que gosta de dor; aprende a apanhar de luva, agradeça pela chuva, aprecie o calor! (...).”
~~Lecter fechou os olhos, sentindo a inquietude dos olhos do garoto em sua própria alma, e temeu o pior. Abaetê fraquejou e caiu de joelhos, enquanto aquela jarra, misteriosa como a si só, não parava de criar água para jogar sobre ele. Seu pulmão não fazia mais o movimento de inspirar e expirar, e a água que escorria no chão aos seus pés misturava-se com o sangue da profetiza e com seu próprio sangue, formando um líquido vermelho claro e pouco denso. Num último momento, Abaetê levou a mão direita ao cordão que carregava no pescoço, laçado a um dente legítimo de tubarão, presente da avó; enquanto a mão esquerda continuava a apontar para a lua, mas agora, e nem ele saberia explicar o motivo, tal mão formava uma concha, como que numa súplica. A cena era lacrimejante e mística. “(...) O amor vai ser sua perdição e sua dádiva, menino-água. Com o poder de assumir formas sem perder a consistência, vai ser amado por quem ama, mas não mais do que a liberdade. VAI SER SOLITÁRIO, ABAETÊ! Solidão é boa, faz pensar. Vai querer um mundo melhor, Abaetê...mas não vai ter!Vai querer não pensar, só amar, Abaetê...mas não vai poder! Vai chorar com seus irmãos, menino-natureza. SEUS IRMÃOS CAÍDOS NO CHÃO, SEM FUTURO E SEM DESTINO. CHORA POR ELES, ABAETÊ! Apesar disso tudo, injusto mundo, vai levantar com o sol e o sorriso, menino-sofrimento! Não vai ter medo de cruz, vai sorrir pro inferno, vai queimar o pão que o diabo só conseguiu amassar! E sorrir, Abaetê. Vai sorrir como se quisesse mostrar pra pessoa que O MUNDO É BOM. E ele é. É bom porque você respira, porque tem mãe lua, banheira mar, vida sol, flor beleza, cheiro árvore, bicho amizade. Seu olho é duro como faca, Abaetê! Descobre quem tem fome, pergunta pra alma! Seus olhos enxergam além do que se diz, menino-observância. Ninguém mente com a alma, aproveita! Conquista!”
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~~Dizendo a última palavra, a ruiva caiu ao chão, misturando-se ao sangue e à água, sendo carregada pela fina correnteza que havia se formado, voltando em direção ao totem, de onde havia saído inicialmente. Abaetê encontrava-se fatigado, joelhos ainda ao chão, mas notava-se um leve subir e descer de veias em seu pescoço, sinal da vitalidade. O menino levantou-se, e sentiu queimar o braço, quando notou uma cicatriz que antes não havia. Era uma mulher carregando uma jarra. Passou a mão levemente pelo contorno da imagem no braço, enquanto sentia que a lua não mais o acompanhava, sendo que pingos de chuva caíam levemente, sobre sua cabeça. Ergueu os dois braços, e dançou. Dançou porque queria, porque ouvia os sons do mundo, porque sentia fluir-lhe uma energia que tinha que ser gasta. Dançou porque tinha a energia do céu. Em seguida, tomou o anel prateado das mãos de Lecter, e inclinou-se para descer as escadas do templo. Foi quando parou.
~~Como havia sido professado, ele podia realmente ver a alma pelos olhos. E quando olhou, de cima do templo, para o mundo abaixo de si, notou que a alma do mundo chorava.
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Thuan B. Carvalho
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Bom, deu vontade de falar sobre mim. Floreei. =]

22 de out. de 2009

Paz e Química.


A julgar pela aparência, nunca imaginei que uma mulher tão física e mentalmente enfraquecida pudesse ser capaz de ir tão longe por um sentimento. Logo eu, que nunca duvidei dos meus próprios sentimentos, sucumbi por não acreditar no que outros sentiam.
Frida tinha o olhar gélido naquela noite em que me convidou para tratar de negócios em sua casa. Eu, solícito e ingênuo, não quis incluir tal desfeita à enorme lista que com certeza ela deve ter guardada, a respeito das ilusões as quais a fiz passar, mesmo que sem intenção, e acabei aceitando o convite. Ignorei os rugidos dos céus que anunciavam não outra coisa se não uma tragédia, e saí do restaurante Índigo, na esquina da Boulevard com a Terrier, enfrentando um temporal nunca antes visto em Basca. Ignorei também os últimos quatro anos, nos quais a obsessão de Frida atacava-me dia por dia, hora por hora. Ela não soube aceitar que eu não me sentia mais uma pessoa completa ao seu lado. Sim, um perfeito ignorante.
Apesar do afastamento, nosso trabalho nunca deixou que perdêssemos o contato, mesmo que fosse do meu interesse nunca mais vê-la. Ela como gerente da única editora da cidade, e eu como o escritor que sempre fui, mantínhamos contato intenso, e nem sempre amigável.
O táxi que nos levou à sua mansão na Praça Seis de Maio deveria estar à par do que estava por vir, pois demorou quase meia hora para conseguir arrancar, além de ter “morrido” por mais duas vezes durante o rápido percurso.
A casa de Frida erguia-se imponente margeando o lago da praça, como se controlasse a cidade de um lugar especial, e na verdade, controlava. A entrada rústica, com altas pilastras e um jardim extremamente bem cuidado denotavam bom gosto e devoção, juntamente com o enorme portão de carvalho que permitia acesso à casa. E como eu conhecia aquela casa.
- Não mudou muito, não é.. – arrisquei, enquanto ela me guiava pelo hall até a varanda.
- Acredito que certas mudanças podem causar sérios danos, por isso prefiro manter as coisas como são. – disse isso sem muita naturalidade, e suas palavras me cortaram como um ácido corrói o metal. Não precisava ter proximidade com as palavras para entender que ela referia-se às minhas mudanças, particularmente. Um ar gélido percorreu minha espinha, ao ouvi-la referir-se a “sérios danos”.


- Aceitaria um drink?
- Marguerita.
- Hmm, boa pedida. Vou acompanhá-lo, e enquanto isso sinta-se em casa.
- Obrigado. – respondi, ao sentar-me na confortável poltrona de chintz que ela conservava na varanda.

Segundos depois, Frida retornou com duas taças de Marguerita, e uns papéis para que fossem assinados, motivo pelo qual eu tinha comparecido ao local. Beberiquei o líquido displicentemente, alheio ao pó que subia amargo pela minha taça borbulhando levemente, denunciando a presença de alguma coisa a mais. Ignorante. Não foi preciso um minuto para que minha visão ficasse turva e começasse a escurecer, enquanto eu balbuciava, perguntando o que acontecia, e aquela mulher crescia perante a mim, com um sorriso hediondo nos lábios, transportando um amor que se transformara em ódio, de tanto ter sido ignorado. IGNORANTE. Como eu pude não saber? Como eu, que carregava nas mãos os calos de histórias e mais histórias nas quais as pessoas matavam-se por pequenas quantias em dinheiro, ou por orgulho, ou por honra, pude me encontrar tão indefeso?
Acordei com os braços e pernas dormentes, ainda translúcido, sem saber onde me encontrava. Vi-me deitado numa cama de hospital, com atas nas panturrilhas e nos braços, e uma a mais no pescoço. Respirava com dificuldade, e sentia a força que meu pulmão fazia para voltar ao seu lugar no momento da inspiração. Tudo doía um pouco. Ouvi o barulho da porta se abrindo, e Frida entrou com um jaleco de médico, transportando o mais desiludido dos olhares, e uma seringa de doses cavalares. A ponta da agulha brilhou entre seus olhos, enquanto ela se aproximava. Seus olhos encontravam-se marejados em lágrimas, mas ela tirava forças de um ódio vazio, um ódio que era palpável no ar, quase concreto. Ódio de verdade.
- Por que você fez tudo ser tão difícil, Dorian? - suplicou ela, fixando seus olhos nos meus.
- Frida eu não...o que você vai fazer? – respondi instintivamente, já imaginando o pior.
- Eu só vou tomar providências para que, já que você não vai ser meu nunca mais, não possa também ser de mais ninguém. Estou disposta a sacrificar você pelo meu sentimento; pelas horas de angústia que passo quando vejo você sorrir, sabendo que não sou eu o motivo do seu sorriso; pelo frio que eu sinto quando deito sozinha em meus lençóis sujos de solidão; pelo sangue que me sobe, paulatinamente, à garganta, e parece que vai explodir minhas veias, quando me lembro das suas palavras ásperas recusando o meu amor.


- Não é minha intenção. Você sabe que eu tenho apreço por você, e jamais faria algo que te machucasse. – tentei argumentar, sabendo que seria difícil, mas talvez ela não tivesse coragem de fazer o que tinha em mente.
- Você me machuca ainda mais com o falso sentimento escondido sob a pena e a indiferença que sente com relação a mim, será que você não percebe? Não tem como voltar atrás. Eu não posso mais retroceder.
- Isso não vai mudar as coisas, Frida. – disse eu, na última das tentativas.
Arrependi-me instantâneamente de tais palavras, pois os olhos dela encurtaram-se numa expressão de sombras e trevas enquanto se aproximava de mim lentamente, seu braço levantado segurando a seringa, se recortando contra a intensa cortina de água que rugia no vidro da janela do quarto.
No instante em que percebi o quão forte era o que ela sentia por mim, era tarde demais. Vi o quanto Frida estava diferente e notei que, nesses quatro anos, ela havia emagrecido mais do que o normal, ganhado traços no rosto que jamais tinha, o cabelo estava oleoso, coisa jamais antes permitida pela menina mimada e bonita de minha quase-infância; e a única coisa que realmente não havia mudado era a aliança de nosso noivado que nunca chegou a tornar-se casamento, e que ela mantinha na mão direita, desde que a conhecia.
Esse instante de compreensão veio tarde demais, e quando me dei conta de quanto tinha sido débil, e tentei gritar seu nome, fui sufocado por uma pontada ardente na garganta, que me fez tossir e me tirou o fôlego. Senti o líquido penetrando minha jugular, e espalhando-se como uma praga pelo meu corpo, que se paralisava na medida em que eu era inundado por aquele estranho líquido amarelo-acinzentado. Não vi luz no fim do túnel, nem repassei um filme de minha vida, como muitos me disseram que ocorreria nesse momento. Minha visão ficou turva e o que eu senti foi, pura e simplesmente, paz.
A paz pode ser o objetivo de nações e nações por todo o mundo, mas foi no segundo anterior à compressão daquela ampola sobre a veia em meu pescoço que eu realmente entendi que, na verdade, a paz é quente, viscosa e infinita; a paz é química.
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Thuan B. de Carvalho
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Esse texto é do início do ano, mas me senti bem para postá-lo hoje. Sinceramente gostei muito, mas acho que eu redigi o "final" de alguma coisa num momento de transe. Espero receber o início dessa história em breve, e publicá-la na íntegra. Hoje estou inspirado, eu acho. A chuva é tão.. motivante =].

12 de jul. de 2009

A vida não rima.


Sinceramente, sinto-me muito bem
não fosse essa fumaça!
Há tempos era do trem,
hoje do carro que passa.


Acreditava ser impossível
que alterassem a cor do mar
que temor! quanto pesar!
É perfeitamente visível
e dói a vista quando olho
que o mar passou a ser
contra tudo o que se poderia crer -
azul-petróleo.


Michael Jackson, denovo esse nome?
desligo minha TV e vou para a cama.
Por que não se ater ao problema da FOME
Em vez de tornar problema a FAMA?

Agora já não estou tão bem
vivo num mundo de ninguém
que tem alguém para governar!
O Luar é a saída
para que os pesares dessa vida
não me façam deteriorar.


E a rotina se torna vermelha
cor de sangue, fogo, paixão...
faço da esperança uma centelha
para que ela torne-se vermelho-coração.


Mas tenho a ímpar sensação
de que as coisas não vão se alterar.
Você também sente, então?
a sensação agora é par.




Thuan B. de Carvalho



6 de jul. de 2009

Eu, Companhia.




Jamais compreendi o ditado:
"Antes só do que mal acompanhado"..
É que eu não consigo me livrar de mim
Será que só eu sou assim?

Não consigo estar só,
Pois estou sempre comigo.
E nem mal acompanhado,
Pelo mesmo motivo.

Thuan B. de Carvalho